Atletas de alto rendimento e a transição de carreira

Em um momento de intensa atividade esportiva no cenário nacional, um tema instigante surgiu em uma recente aula na PUC-SP: como seria a transição de carreira de um atleta?

Claudio Marques

08 de junho de 2014 | 10h30

Por Juliana Camilo *

Essa questão torna-se ainda mais inquietante quando observamos modalidades esportivas para além do futebol. Infelizmente no cenário nacional há vários exemplos de atletas que custeiam sua participação em eventos, treinam em condições adversas e até se privam de alimentação básica para viver um sonho. Com investimentos bilionários no futebol, parece sobrar pouco espaço para outras modalidades esportivas.

Um exemplo recente que coloca em xeque essa realidade foi denunciado pelo ginasta e medalhista olímpico Arthur Zanetti, quando cogitou a hipótese de defender outro país caso não obtivesse patrocínio e condições mínimas de treinamento. Se tal problema é vivenciado por um medalhista olímpico, imaginemos para quem não obteve tamanho êxito…

Vale lembrar que, para seguir carreira, os atletas treinam por volta de oito horas diárias, o que exige que deixem de estudar, muitas vezes precocemente. E, em certas modalidades, acabam por lesionar seriamente seus corpos.

Em pesquisa científica, Samulski e demais autores (2009) pesquisaram as diferentes fases de transição da carreira esportiva de seis ex-atletas brasileiros. Os principais resultados apontaram que o apoio familiar em todas as fases da carreira foi determinante. No que diz respeito à transição de carreira para além do esporte, a retomada dos estudos e a inserção em outros grupos sociais, fora do contexto esportivo, foi fundamental.

Em outra pesquisa científica Agresta, Brandão e Barros Neto (2008), analisaram o término da carreira de 79 ex-atletas de basquete e vôlei e observaram que 75,9% encerraram a carreira de forma espontânea, em que a idade (49,4%) e outros interesses (43%) foram os motivos mais relevantes para essa decisão. O sentimento mais presente em relação à aposentadoria foi a tristeza (50,6%).

Em uma carreira marcada por sangue, suor e lágrimas, a transição profissional de um atleta parece conter os mesmos ingredientes do cotidiano esportivo. Recomeçar, estudar, ter apoio familiar, buscar novas relações sociais e, o que pode ser mais difícil, elaborar o luto pelo fim da carreira.

* Professora da PUC e psicóloga

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