Batendo o ponto: arqueologia, propósito e gestão no Parque Nacional da Serra da Capivara

Batendo o ponto: arqueologia, propósito e gestão no Parque Nacional da Serra da Capivara

Em artigo, especialista em educação corporativa conta sobre como as férias são fonte de aprendizado e relata recentes viagens, em especial para conhecer o Museu da Natureza

Marisa Eboli

18 de fevereiro de 2019 | 15h03

Férias são ricos momentos para se desligar da rotina, mas nem por isso deixam de ser uma fonte enorme de aprendizadoNo início do ano fui de férias para a Califórnia. E como não desfrutar das riquezas natural e cultural da região? Destino quase obrigatório, o Computer History Museum, apropriadamente, no coração do Vale do Silício. Sua missão é preservar as máquinas, as histórias e os personagens principais que inauguram a era da informação, explorando seu impacto contínuo na sociedade. 

Não há no mundo maior coleção de artefatos de computação: de calculadoras a cartões perfurados, do mainframe aos minicomputadores, desembocando nos jogos, na inteligência artificial e na robótica. Há de tudo. Como não se impressionar com algo tão maravilhoso!

Visitei também o Museu da Natureza. Projetado em formato de caracol, suas exibições encantam os visitantes. Ao longo de 12 salas, mergulha-se na história natural do planeta, desde o surgimento da vida. Visitam-se os detalhes e as características do sistema solar. Passa-se pela era dos dinossauros até desembocar nos dias atuais, mostrando as mudanças climáticas.

Detalhe de pintura rupestre no Parque Nacional da Serra da Capivara. FOTO: Marisa Eboli

Para finalizar a visita, há experiências sensoriais. Por exemplo, um voo de asa-delta com óculos de realidade virtual, sobrevoando uma linda região de rochas. Vi também um filme narrando os impactos causados pelo homem ao ambiente, com destaque para o aquecimento global. Simplesmente sensacional!

Você deve estar pensando que este museu também fica no Vale do Silício, certo? Errado! Está localizado no Piauí, em plena caatinga, no Parque Nacional da Serra da Capivara, que protege e abriga a maior coleção de arte rupestre ao ar livre do mundo.

O Museu da Natureza foi aberto em dezembro do ano passado e foi idealizado pela arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon. Para compreender o alcance da proeza, é preciso conhecer a vida dessa verdadeira heroína e um pouquinho da região por ela desbravada.

Formada em história natural pela USP, com doutorado em pré-história pela Sorbonne, seu primeiro contato com o que viria a ser o parque foi em 1963, em uma exposição de pinturas rupestres no Museu Paulista. Soube por um morador de São Raimundo Nonato que existiam pinturas semelhantes em sua cidade no sítio arqueológico de Coronel José Dias, no PiauíDaí para a frente começou sua saga para visitar o local, o que de fato só ocorreu em 1970, passando a ali concentrar seus trabalhos e onde reside até hoje, aos 85 anos de idade. 

“Para atingir os objetivos, Niéde Guidon focou em educação, educação, educação… Construiu uma carreira brilhante que equilibrou profissão, vocação, missão e paixão, pautando sua razão de viver”

Por sua iniciativa foi criado Parque Nacional da Serra da Capivara, que em 1991 foi declarado pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade. Alguns de seus achados arqueológicos datam de 58 mil anos atrás. A região é marcada por contrastes, na qual a riqueza arqueológica convive com as diversas formas de pobreza de seus moradores. Lá encontraram-se formações geológicas únicas que retraçam todo o seu processo de formação, criando paisagens de grande beleza: arco do triunfo, torres, castelos, cavernas com lagos subterrâneos, chaminés, olhos-d’água etc.

A precária condição de vida da população resulta do clima seco da região e da escassez de água. Ultimamente sofre com a falta de repasses de recursos para manutenção.

O turismo é a atividade de maior potencial para desenvolver a região. Para preservar seus atrativos, é necessário investir na infraestrutura e na educação, a fim de melhorar a prestação de serviços e gerenciar os recursos naturais e culturais.

A arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon, que ajudou na criação do Parque Nacional da Serra da Capivara. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão-25/8/2016

O trabalho perseverante e competente de Niéde resultou num parque bem estruturado e sinalizado que é cuidado por pessoas corretamente capacitadas. Há excelentes guias que conhecem bem o que mostram, pois a maioria trabalhou diretamente com os pesquisadores que fizeram estudos no lugar.

A fábrica de cerâmica da Serra da Capivara é uma das maiores fontes de renda das comunidades locais e é parte do projeto de desenvolvimento da região, idealizado pela própria Niéde. Ganhou, em 2008, o prêmio de melhor projeto de sustentabilidade do País.

Uma das etapas desse projeto foi a realização de oficinas de capacitação, com o objetivo de ampliar a renda da população local, garantindo que ficassem na região e dela cuidassem. A luta pela conservação do parque continua sendo protagonizada por Niéde, que pensa em se aposentar, mas preocupa-se com a continuidade dos projetos.

É difícil sintetizar o trabalho magnífico de uma vida inteira dedicada à Serra da Capivara, mas alguns pontos devem ser destacados, pois oferecem lições para gestores organizacionais. Liderança, propósito, persistência e resiliência marcam seu trabalho pioneiro e sua carreira, em condições muito adversas.

Detalhe de pintura rupestre no parque. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão

A leitura e o equacionamento perfeitos das questões relativas à sustentabilidade, atendendo às três dimensões do “triple bottom line”: financeira, social e ambiental. Sem oferecer alternativas de geração de renda e sobrevivência para a população local, não há como preservar o ambiente.

Para atingir os objetivos focou em educação, educação, educação… Niéde construiu uma carreira brilhante que equilibrou profissão, vocação, missão e paixão, pautando sua razão de viver.

A péssima gestão da segurança e da sustentabilidade evidenciada nos acontecimentos trágicos dos últimos tempos no Brasil (barragem de Mariana, boate Kiss, Museu Nacional, barragem de Brumadinho, CT do Flamengo) sinaliza que nossos gestores têm muito a aprender com Niéde Guidon. Que tal ir para São Raimundo Nonato aprender como empreender e gerenciar? E ainda se deslumbrar com a beleza exuberante da natureza…

* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora da graduação e do mestrado profissional da Fundação Instituto de Administração (FIA). (meboli@usp.br)

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