Batendo o ponto: as lições da carreira de um homem singular, Neil Armstrong
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Batendo o ponto: as lições da carreira de um homem singular, Neil Armstrong

Chegar à Lua foi a realização de muito trabalho e competência, não de doses de heroísmo, analisa a especialista Marisa Eboli em artigo, segundo quem são inúmeras as lições aprendidas com o livro e o filme sobre o astronauta

Marisa Eboli

17 de abril de 2019 | 14h51

“Um pequeno passo para o homem, um grande passo para humanidade.” Ainda na trilha do Oscar 2019, eis um excelente filme e que nos deixa algumas lições: “O Primeiro Homem”! Já havia visto assim que foi lançado no Brasil, interessei-me pelo livro e voltei a vê-lo. São muitas as reflexões que ele estimula. É um filme biográfico , dirigido por Damien Chazelle e escrito por Josh Singer, baseado no livro homônimo de James R. Hansen (2005). A obra é protagonizada por Ryan Gosling no papel de Neil Armstrong.

Para escrever a biografia de Armstrong, o historiador Hansen entrevistou mais de 120 pessoas, teve acesso a documentos privados da família e gravou mais de 50 horas de entrevista com o “primeiro homem” na lua. O livro agrada muito a quem gosta de história, de exploração do espaço e de grandes personalidades, pois Neil Armstrong revela-se não só o “primeiro” mas uma figura muito singular. 

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O enredo do filme cobre a sucessão de eventos pessoais e profissionais, durante os anos 1960 e que culminaram na ida de Armstrong à Lua, no Apollo 11 (1969). Foi um ciclo de oito anos para preparar a missão que durou oito dias.

É interessante que Clint Eastwood e a Warner Bros  compraram, em 2003, os direitos para adaptação cinematográfica da biografia de Neil Armstrong, mas o projeto travou. Anos depois, a Universal Pictures adquiriu os direitos do filme que intitulou First Man. Em 2015, foi anunciado que o jovem e talentoso Damien Chazelle seria o diretor.

Neil Armstrong em foto de 2011, meses antes de morrer, em 2012. Foto: Philip Scott Andrews/NYT-22/9/2011

Ele conta a história de Neil Armstrong de uma perspectiva intimista. Seu interesse maior é a jornada interior de seu protagonista, explorando o lado psicológico do astronauta. De fato,  a morte, é um elemento recorrente no filme, desencadeado pela trágica perda de sua filha Karen, que morreu de câncer cerebral antes dos 3 anos de idade. Isso ocorre  anos antes do pouso histórico, e das fases de alta periculosidade enfrentadas pelos oficiais da NASA, até mesmo durante a fase de treinamento. De fato, ele perdeu vários colegas e amigos em acidentes aéreos.

O filme ganhou vários prêmios em 2019: Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora Original; Critics’ Choice Award de Melhor Edição e Melhor Compositor; Satellite Award de Melhor Trilha Sonora; e Oscar de Melhores Efeitos Visuais.

Chegar à lua foi um processo de tentativa e erro, exigindo muito sacrifício, muito trabalho e competência. De quebra, uma boa dose de heroísmo, pois dependeu de esforços individuais de astronautas e engenheiros, com as inevitáveis repercussões sobre suas famílias. Segundo Chazelle, o mais importante é entender como um homem rompeu as barreiras, saiu do planeta e continuou a ser apenas humano.

São inúmeras as lições aprendidas com o livro e com o filme. Por exemplo, na formação profissional, nas competências, na identidade e ética profissional. E não nos esqueçamos, como lidar com a carreira e o sucesso.

Do ponto de vista pessoal, é importante observar a personalidade, o caráter, o perfil psicológico e de competências, bem como os relacionamentos familiares de Armstrong, destacados tanto no livro quanto no filme. Era uma figura enigmática, com temperamento frio e insípido. Era focado, ambicioso e, principalmente, disposto a perseguir seus sonhos. Enfrentava embates no âmbito familiar e sua esposa, Janet, procurava manter a estabilidade emocional da família, sobretudo, diante de ser o emprego do marido de alto risco. “Enquanto Neil está no espaço, Janet tem os pés firmes no chão”, enfatiza Hansen.

Armstrong em sua imagem mais famosa, de 1969. Foto: Nasa/Reuters

Com relação à sua formação profissional, a “Alma Mater” de Armstrong foi a Universidade Purdue, em West Lafayette (Indiana), onde estudou Engenharia Aeronáutica. Embora tivesse sido aceito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), preferiu Purdue pelo seu enfoque mais prático e menos teórico, em relação ao do MIT. No primeiro semestre, os alunos aprendiam a soldar, a aplicar tratamento térmico aos metais e a fundir. Seis dias por semana, Neil tinha três horas de aula pela manhã e três horas de laboratório à tarde.

Como sabemos, teve sucesso inquestionável e invejável como astronauta, enfrentando todos desafios e percalços vividos ao longo da carreira como engenheiro e astronauta da NASA. Mas quem imaginaria que, depois do sucesso máximo que um astronauta pudesse alcançar – ser o primeiro homem a pisar na Lua – Neil encerrasse em 1971 sua carreira na NASA, para assumir um cargo de professor de Engenharia na Universidade de Cincinnati. Criou dois cursos para o departamento onde lecionava: projeto de aeronaves e mecânica de voo experimental, ambos de pós-graduação.

Pelo resto da vida, a engenharia seria a principal identidade profissional de Armstrong. Mesmo durante seu tempo de piloto de testes e astronauta, Neil se considerava antes de tudo um engenheiro aeronáutico, cuja ambição de escrever um livro didático de engenharia o destacava de praticamente todos os seus camaradas pilotos: “Sou e sempre serei um engenheiro nerd, de meias brancas e protetor de bolso — nascido sob a segunda lei da termodinâmica, ancorado em tabelas de propriedades dos gases, apaixonado por diagramas de corpo livre, transformado por Laplace, propelido por ar comprimido. Como engenheiro, tenho imenso orgulho das realizações de minha profissão.”

Ainda segundo Hansen, seria a engenharia – mais que a ciência – que o levaria a pousar na Lua. Pense na sua carreira: que lições a de Neil Armstrong lhe sugere?

* Marisa Eboli, especialista em educação corporativa, é professora da graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br)