Batendo o ponto: o dilema da superqualificação em tempos de poucas oportunidades
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Batendo o ponto: o dilema da superqualificação em tempos de poucas oportunidades

Especialista aborda como questões intangíveis podem pesar numa entrevista com um profissional muito qualificado, assustando o empregador ou prejudicando o próprio futuro empregado

Breno Paquelet

12 de março de 2019 | 15h30

Ter um excelente currículo é o sonho de consumo da maioria dos profissionais, mas para alguns é um fardo difícil de carregar. A crise dos últimos anos fez com que várias empresas enxugassem seus quadros de funcionários, fazendo com que excelentes profissionais, que tinham altos cargos e salários elevados, perdessem seus empregos.

A impossibilidade do mercado de absorver esses profissionais no mesmo padrão em que atuavam anteriormente fez com que muitos enfrentassem a difícil tarefa de precisar buscar posições muito abaixo de suas qualificações, enfrentando a curiosa situação de serem rejeitados para vagas, não por incapacidade, mas por qualificação excessiva para a posição.

Ao aplicar para uma vaga cujos requisitos sejam inferiores à sua qualificação, o profissional precisa observar que questões intangíveis terão mais peso na avaliação do que aspectos objetivos (como currículo e capacidade de entrega). Ciente de que as credenciais do candidato são inegavelmente fortes, o recrutador passa a refletir sobre as razões pelas quais essa contratação poderia dar errado.

Ilustração: Pixabay

Nesse sentido, podem surgir preocupações do empregador em relação à capacidade do profissional em permanecer motivado e não largar tudo assim que conseguir algo melhor, além de se certificar de que sua presença não intimidará outros funcionários, prejudicando o ambiente. Por isso, mais do que apenas “se vender”, é preciso que o candidato enderece essas questões ativamente na entrevista.

Antes da conversa, é preciso refletir sobre as razões pelas quais esse emprego seria interessante. Pode ser que ele tenha decidido mudar de cidade e já sabia que para isso teria que “dar um passo atrás”. Ou esteja buscando mais propósito ou qualidade de vida. Esses motivos são razoáveis, demonstram visão estratégica de carreira e não fazem com que o profissional passe a imagem de que está perdido, topando qualquer oportunidade que aparecer.

Caso realmente esteja desesperado, precisando de qualquer emprego para pagar as contas, é ruim que isso transpareça no discurso, pois essa é uma situação momentânea, mas assustará o empregador e trará à tona todas aquelas preocupações que ele tem em relação à transitoriedade de alguém super qualificado na função.

“É preciso que o profissional não transmita arrogância por se considerar qualificado demais”

Mesmo que o objetivo imediatista fale mais alto, é importante pensar nos aspectos positivos para ambos. Se for uma posição numa área ainda pequena, o profissional pode demonstrar o quanto poderia contribuir para que ela cresça no médio prazo, sendo motivador para ele e interessante para a empresa.

Por último, é preciso que o profissional não transmita arrogância por se considerar qualificado demais. Se isso for mencionado, deve ser pelo entrevistador, não pelo candidato. Verbalizar que se sente muito acima da posição não contribuirá em nada para conseguir o emprego – que afinal é o objetivo, ou não perderia tempo participando do processo.

* Breno Paquelet é especialista (breno@bpaquelet.com) em negociações estratégicas pela Harvard Business School, com educação executiva em Estratégia Empresarial no Massachusetts Institute of Technology (MIT), professor do MBA em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor convidado da Casa do Saber/RJ.

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