Javalis, estresse e garra
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Javalis, estresse e garra

blogs

13 Agosto 2018 | 10h58

Os garotos resgatados de uma caverna inundada na Tailândia, com o uniforme do time Javalis Selvagens. Foto: Soe Zeya Tun / Reuters

Marisa Eboli*

No dia 10 de julho passado o mundo acompanhou a história do extraordinário resgate do time Javalis Selvagens da caverna na Tailândia. Logo me veio à mente outra história não menos fantástica: o desmoronamento ocorrido na mina de San José – Chile, em 2010. Contendo suprimentos para alimentar dez mineiros por dois dias, os 33 sobreviveram por 17 dias até serem encontrados, e um total de 69 dias, até o dia do salvamento, que se deu em outubro. Muitas semelhanças nos fatores que geraram o sucesso dos resgates. Mas algumas diferenças: neste, tínhamos uma tragédia anunciada com adultos num contexto de trabalho; naquele uma impetuosidade da natureza com crianças num passeio de recreação.

Um breve resumo dos fatos:

Em 23 de junho, 12 meninos foram passear pela província tailandesa de Chiang Rai com seu técnico de futebol – mas por causa de uma tromba d’água,  terminaram presos dentro de uma caverna. E quando a caverna alaga, transforma-se rapidamente de inofensiva para extremamente perigosa, até para mergulhadores experientes.

Não encontrando outra alternativa: entraram mais e mais, ficando ilhados a cerca de 4 km da entrada. O técnico Ake, um ex-monge, ensinou ao time técnicas de meditação para ajudá-los a manter a calma, e com uma respiração mais tranquila, utilizar o mínimo de ar possível. Não tinham comida mas tinham água potável pelas paredes da caverna.

Em 28 de junho, especialistas da aeronáutica americana e mergulhadores de cavernas de vários países juntaram-se às operações de busca.

No dia 2 de julho, dois mergulhadores britânicos John Volanthen e Rick Stanton chegaram à praia Pattaya e explorando os túneis da caverna, encontraram os treze. Rick não acreditou e exclamou: “Estão todos vivos!“. A partir deste momento começou uma dramática corrida contra o tempo, que o mundo acompanharia. Havia previsão de mais chuva forte em três dias. Como resgatá-los?

No domingo, dia 7 de julho, após duas semanas do incidente, as autoridades tailandesas anunciaram que iriam iniciar o resgate, que durou três dias.

Cada garoto foi preso a um mergulhador e ganhou uma máscara de ar que cobria todo o rosto, para garantir que pudessem respirar. Um segundo mergulhador acompanhava a dupla.

Se era um percurso aterrorizante para mergulhadores experientes, imagine para crianças que não sabiam nadar.
Na quarta, dia 11 de julho, a imprensa viu pela primeira vez os Javalis Selvagens em um vídeo da Marinha. Já no hospital, e seguindo regras rígidas, os jovens foram submetidos a uma quarentena para evitar infecções.

Indiscutível o nível de estresse vivido por todos envolvidos: os meninos, o treinador, os familiares, os mergulhadores etc…

Uma situação marcada por: alto grau de incerteza e complexidade; necessidade de manter o controle emocional de crianças; importância do conhecimento técnico, da experiência e da liderança, sobretudo.

Uma diversidade de conceitos afeitos à gestão são aplicáveis a essa história fantástica: autocontrole, cooperação (humana e técnica), comunicação em situação extrema e de crise, empatia, gestão de crise, inteligência emocional, liderança, resiliência, teamwork etc…

Fica sempre a dúvida: qual teria sido o peso do crédito da liderança e da tecnologia para o final bem-sucedido do resgate do time Javalis Selvagens?

Trauma ou garra?

Mesmo com o resgate heroico e bem-sucedido essa história não se encerra por aqui. Fica a pergunta: qual será o impacto ou mesmo o trauma decorrente desse acontecimento na vida dos garotos?

Como sou adepta a final feliz, apoio-me nas palavras do especialista em educação e jornalista Paul Tough: “Se você quiser que seus filhos sejam bem-sucedidos, tem que deixá-los fracassar um pouco.” Pesquisas vêm constatando que notas altas não são garantia de sucesso na vida. Em seu livro Como as crianças aprendem, aborda com destreza o problema e alerta: não estamos dando a devida atenção ao desenvolvimento das chamadas habilidades não cognitivas, como determinação, autocontrole, persistência, otimismo, curiosidade e a capacidade de lidar com o estresse.

Após esse episódio, aposto na garra dos meninos do Javalis Selvagens e que estarão mais bem preparados para a vida e o sucesso, muito além do futebol.

Finalizo com as sábias palavras de Rudyard Kipling, reproduzindo fragmentos do poema “If“:
“Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpas…
…E o que muito mais – tu és um homem – meu filho!”

*Especialista em Educação Corporativa, é professora de graduação e mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios