Cadê o nosso Prêmio Nobel?
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Cadê o nosso Prêmio Nobel?

No Brasil, a parceria entre Instituto Adolfo Lutz e a Universidade de Oxford permitiu o sequenciamento do genoma do novo coronavírus; as principais lições dessa pandemia enaltecem a parceria, a colaboração e a troca de experiências

Marisa Eboli

23 de março de 2020 | 15h27

No final de 2019, escrevi aqui para esta coluna acerca das ‘fábricas’ de Prêmio Nobel. Diante de um cenário de universidades e instituições premiadas pelo mundo, indagava ao final: será que as universidades brasileiras estão preparando seus alunos para um dia receber um Prêmio Nobel? E continuo refletindo sobre isso, principalmente em época de novo coronavírus.

E uma notícia chamou minha atenção nestes tempos sombrios: o sequenciamento do genoma do novo coronavírus, realizado por um grupo de pesquisa composto, em sua maioria, por mulheres. O sequenciamento genético inédito de coronavírus na América Latina só foi possível por conta de uma parceria entre Instituto Adolfo Lutz, o Instituto de Medicina Tropical da USP, e a Universidade de Oxford.

Embora poucos saibam, as mulheres se destacam na ciência do País. De acordo com levantamento feito pela revista Pesquisa Fapesp, 44% dos artigos científicos brasileiros são assinados por mulheres. No Brasil, no início do século XXI, 35% dos autores eram mulheres. Em termos de paridade de gênero, o País só perde para Portugal (48,32%), e para Argentina, única nação que tem mais mulheres cientistas assinando artigos do que homens (51%). O Brasil fica à frente dos Estados Unidos (33%) e da Alemanha (32%). A mais baixa proporção foi registrada no Japão (15,22%).

Os dados aguçaram minha curiosidade. Quantas mulheres já foram laureadas pelo Nobel? Em 2018, três mulheres foram premiadas. Em toda a trajetória do prêmio, apenas 5% dos vencedores são mulheres. Das três áreas das ciências naturais, a medicina é a que tem a maior porcentagem de mulheres vencedoras. Mesmo assim, esse número só chega a 5% (12 dos 216 vencedores). O menor percentual de participação feminina é na Física, que tem apenas 1% de ganhadoras em toda a trajetória do prêmio.

Algumas curiosidades sobre mulheres laureadas. Marie Curie foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel, em 1903. E em 1911, tornou-se a primeira pessoa a ganhar dois prêmios Nobel, em Física e Química. Em 2014, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai foi a pessoa mais jovem (17 anos) a ser laureada em qualquer categoria do prêmio. 

Mesmo com grande participação nas pesquisas científicas, mulheres somam apenas 5% dos vencedores do Prêmio Nobel. Foto: Pixabay

Importante destacar que das três mulheres que ganharam o Nobel em Física, nenhuma o fez sozinha: os prêmios foram divididos, em todas as ocasiões, com outros dois cientistas. Na verdade, as pesquisas vencedoras, em geral, são pesquisas caras, exigindo esforços conjuntos e cooperação. No futuro, dificilmente haverá nas ciências aquele vencedor individual e personalista. Cada vez mais, a ciência é feita coletivamente.

Um ótimo exemplo de ciência feita coletivamente, por meio de parcerias, é o Projeto Genoma Humano, um empreendimento internacional, iniciado formalmente em 1990, com o objetivo de identificar e fazer o mapeamento dos genes existentes no DNA do corpo humano, determinar as sequências das 3 bilhões de bases químicas que compõem o DNA e armazenar essas informações em bancos de dados acessíveis. Começou como uma iniciativa do setor público, tendo a liderança de James Watson, na época chefe do Instituto Nacional de Saúde dos EUA. Inúmeras escolas, universidades e laboratórios de todo mundo participaram do projeto. A princípio, esperava-se que os objetivos fossem alcançados após 15 anos de estudo, mas com o avanço da tecnologia e possibilidade de maior intercâmbio, o projeto teve suas atividades finalizadas após 13 anos, em 2003. Três membros do projeto, os britânicos John Sulston e Sydney Brenner e o americano Robert Horvitz, receberam em 2002 o Nobel de Medicina.

Ainda sobre o Prêmio Nobel: de 1901 a 2019 foram entregues 1.120 prêmios, incluindo os de Economia, que foi criado em 1968 pelo Banco Central da Suécia. Os Estados Unidos lideram em número de ganhadores, com 379 (34% do total); em segundo lugar está o Reino Unido, com 130 (12% do total) e em terceiro lugar está a Alemanha, com 110 (9,8%); em seguida está a França, com 70 (6,3%) e depois a Suécia com 31 (2,8%).

E o Brasil? O fato é que até hoje nenhum brasileiro ganhou um Nobel, fonte inclusive de muitas polêmicas. Alguns cientistas chegaram perto: Carlos Chagas (Medicina), em 1913 e 1921; Adolfo Lutz ( Medicina), em 1938; Manoel de Abreu  (Medicina), em 1946; Cesar Lattes (Física), em 1950; Jorge Amado (Literatura), em 1967; Carlos Drummond de Andrade (Literatura), em 1967; Sérgio Henrique Ferreira (Medicina), em 1982, e Dom Paulo Evaristo Arns (Paz), em 1990.

Interessante notar que houve mais indicações em ciências naturais. Mas por que não ganhamos? Um ponto mencionado é a falta de recursos. Sabemos, por exemplo, que pesquisa no Brasil não é bem remunerada. As bolsas para pesquisadores não permitem que estes profissionais se dediquem exclusivamente à atividade, e em muitos casos acabam indo para a iniciativa privada ou, quando há cortes, deixam os projetos sem serem finalizados.

Como explicar então o Nobel concedido a cidadãos da Colômbia, Egito, Guatemala, Ilhas Faroé, Mianmar, Paquistão, Santa Lúcia e Venezuela? Muitos deles foram em ciências.

Uma explicação inusitada é dada por Ozires Silva. Certa vez, participando de um jantar em Estocolmo, onde havia três membros do comitê que indica nomes para a premiação, perguntou para eles o motivo de o Brasil nunca haver sido agraciado. Obteve a seguinte resposta: “Vocês brasileiros são destruidores de heróis. Parece que o brasileiro desconfia do outro ou tem ciúmes do outro, sei lá o que acontece.”

Sem dúvida são muitas as especulações e talvez alguns fatores negativos interferem: falta de visão de problemas estratégicos, política econômica e educacional equivocada, investimentos em P&D igualmente equivocados, pouco conhecimento das regras do prêmio, postura individualista e narcisista de grande parte dos pesquisadores. 

Apesar de tudo isso, é evidente que o Brasil tem atualmente pesquisa de ponta, destacando-se a área médica. Para se obter o Nobel, a palavra mágica parece ser parceria. Seja com influenciadores, intercâmbio com entidades laureadas, com redes internacionais de pesquisa, com empresas, laboratórios e hospitais privados, inclusive para obtenção de recursos ou equipamentos.

Aposto que vamos chegar lá.

Reforço que as principais lições dessa pandemia de coronavírus enaltecem a parceria, a colaboração, a solidariedade, a troca de experiências, a troca de dados, a utilização intensiva de tecnologia, a gestão de crises, a resiliência, entre outras. Aspectos cruciais para o sucesso em todas as carreiras.

Aproveito para agradecer e dar meus sinceros votos de sucesso a todos profissionais da área de saúde, em especial à mulheres, já que é o nosso mês. 

* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora da graduação e do mestrado profissional da Fundação Instituto de Administração (FIA). (meboli@usp.br)