Carreira ‘mosaico’: o que é e como se preparar para desenvolver a sua

Carreira ‘mosaico’: o que é e como se preparar para desenvolver a sua

Com mudanças contínuas no mercado, profissionais terão várias carreiras, não só uma; a faculdade passa a ser só um ponto de largada do conhecimento, e quem tiver atitude passiva vai ficar para trás

Tiago Mavichian

14 de dezembro de 2021 | 09h54

A famosa expressão “o futuro é agora” é perfeita para começar esse artigo. A evolução tecnológica e a urgência da pandemia, juntas, foram o motor para mudanças e avanços. É só pensarmos nas vacinas contra a covid-19 desenvolvidas, produzidas e distribuídas em escala mundial em apenas um ano e meio. Algo nunca imaginado antes.

Vivemos uma década em um ano, e um século em uma década. E, neste cenário de incertezas e mudanças aceleradas, as empresas passaram a valorizar diferentes habilidades na seleção de profissionais. Na pesquisa “A Visão do RH sobre o Mercado de Estágio”, realizada em 2021 pela Companhia de Estágios, por exemplo, criatividade, flexibilidade e resiliência foram apontadas pelos profissionais de recursos humanos como competências fundamentais para o jovem profissional se destacar dentro da organização. Já na pesquisa do ano anterior, capacidade de trabalhar em grupo e proatividade eram soft skills mais valorizadas.

Adaptação, superação e enfrentamento de desafios serão posturas mais e mais valorizadas. As empresas terão, cada vez mais, demandas específicas e problemas que precisarão ser solucionados rapidamente. Em breve, o velho jeito de trabalhar e organizar as equipes não vai trazer mais tantos resultados. Por isso, acredito que as empresas passarão cada vez mais a montar times por projetos.

Esse modelo gera novos aprendizados e incentiva o trabalho de forma colaborativa. Sendo assim, acabando o projeto, você poderá ser convidado para integrar outro desafio dentro daquela mesma organização ou assumir um novo projeto em outra companhia. Nessa realidade ultradinâmica, cada projeto exigirá determinado conhecimento e para acompanhar esse movimento, não vai dar para concentrar os esforços numa carreira única, como foi até aqui. Teremos várias carreiras, fenômeno que o mercado apelidou de “carreira mosaico”.

Camadas de conhecimento vão se fundir para atingir resultados por projetos, em equipes cada vez mais multidisciplinares. Foto: Olav Ahrens Røtne/Unsplash

Antes que você questione o sentido do vestibular e da faculdade neste novo cenário, vou explicar. A graduação é uma base do conhecimento comum na área que você escolheu. Um ponto de partida para ter claros alguns conceitos que vão ajudá-lo a fundamentar as suas ideias. A faculdade não vai dar a solução — nem saberá a solução para um problema que sequer existe. O papel atual de escolas e universidades é (ou deveria ser) o de garantir que você “aprenda a aprender“, tenha pensamento crítico e mentalidade voltada ao aprendizado contínuo. Ou seja, deve formar pessoas capazes de buscar soluções.

Se você tem uma postura passiva em sala de aula e pouca curiosidade para ir além dos conteúdos ensinados, vai ser difícil entregar resultado em uma equipe multidisciplinar e resolvedora de problemas. Construir uma carreira mosaico é acrescentar camadas de conhecimento à base que a faculdade deu. Para isso, estar ligado ao que acontece no seu ambiente será condição sine qua non. Quais são as novas ferramentas e a nova linguagem impostas pela evolução tecnológica? O que falta para entender o problema e pensar a solução — atualizar conhecimentos ou desenvolver uma nova habilidade?

Por exemplo: um novo engenheiro civil se depara com as chamadas “construções limpas”, feitas com módulos em lugar de tijolo e cimento. Se a faculdade não deu esse conhecimento, o profissional vai estudar sobre novos materiais, pegada hídrica, eficiência energética, circularidade. E, a depender da situação, poderá se tornar gestor de projeto, especialista, administrador ou professor.

Uma das pensadoras mais interessantes sobre sucesso e inovação, Carol Dweck fala sobre mindset de acomodação e de crescimento. O de crescimento é quando você assume uma postura resolutiva. Se errar, vai tentar de novo. Já o de acomodação leva uma pessoa a fazer as coisas sempre do mesmo jeito para evitar falhas e fracassos. Esse é o pensamento antigo.

O mindset novo está relacionado ao modo como se aborda e encara as dificuldades. Ou seja, quanto mais habilidades você desenvolve na base da tentativa e do erro, mais está preparado para o modelo de carreira mosaico, em que teremos duas ou três carreiras e seremos expostos a diferentes desafios ao longo da vida profissional.

Vivemos um momento de transição. Um vai dizer: “Eu não vou fazer faculdade porque tudo vai mudar”; outro vai falar: “Eu vou fazer faculdade e, mesmo que tudo mude, vou me adaptar à mudança”. Quem vai estar mais preparado?

É preciso ter uma postura corajosa em relação ao futuro, a consciência de que teremos de aprender o tempo todo. Desenvolver as habilidades que o mundo moderno pede, como abertura ao novo, é o que fará a diferença. Quem não encarar a dificuldade como plataforma de crescimento vai ficar para trás. Estar pronto para o amanhã será um exercício frequente de reinvenção — e uma escolha.

Tiago Mavichian é CEO e fundador da Companhia de Estágios, startup de RH especializada em seleção e desenvolvimento de aprendizes, estagiários e trainees. Pós-graduado em gestão de pessoas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui mais de 18 anos de experiência na área de RH.

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