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CEOs estão atentas à questão de gênero

REDAÇÃO

03 Junho 2018 | 06h30

Eliane Sobral/ESPECIAL PARA O ESTADO
O que têm em comum Erica Takeda, Simone Soares, Fiamma Zarife e Denise Santos? São todas executivas em cargo de comando em empresas de grande porte em setores tão diversos quanto o hospitalar, químico e de alimentação. Tanto para homens quanto para mulheres, chegar ao posto mais alto de uma companhia não é tarefa fácil, mas tem se mostrado especialmente difícil para profissionais do sexo feminino – ou a Bolsa de Valores de Nova York não teria demorado 226 anos para identificar em seus próprios quadros uma moça capaz de comandar os negócios. Stacey Cunningham começou na Nyse em 1994 como estagiária e desde o mês passado preside a maior bolsa de valores do mundo.

Não deixa de ser uma boa notícia mas as mulheres ainda estão longe do topo empresarial. Bem longe. O último levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que apenas algo entre 5% e 10% das empresas brasileiras têm mulheres no primeiro escalão, mesmo patamar de China, Itália, México e Espanha. Na Finlândia, Noruega, Reuno Unido e Suécia esse índice sobe para 20%.

As CEOs ouvidas para esta reportagem dizem que não há um único caminho das pedras para chegar lá, mas elas têm uma particularidade em comum: começaram na base da pirâmide corporativa, circularam por várias áreas dentro das empresas e, garantem elas, não se preocuparam muito com a questão de gênero – embora não neguem que ela faz diferença, sim. “Em mais de uma ocasião tive meu estilo de comando questionado, especialmente por homens cujo estilo é o de terra arrasada”, lembra Fiamma Zarife, CEO do Twitter. No final das contas, diz ela, o que importa é entregar o resultado. “E eu sempre entreguei”. Trinta porcento da força de trabalho do Twitter no mundo é formado por mulheres e, segundo Fiamma, essa proporção é um pouco maior no Brasil.

Resultado e relevância – Foi a capacidade de recuperar uma empresa em dificuldade que levou Denise Santos, ao comando da centenária BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Depois de 18 anos de Siemens, a engenheira foi contratada para reestruturar a rede de hospitais São Luis. Os resultados foram tão relevantes que, depois de cumprir o acordo de não concorrência, Denise foi parar na BP para novo processo de reestruturação. “Tive mais dificuldade por começar muito jovem do que por ser mulher”, diz a executiva que se diz atenta às questões da diversidade e inclusão. “Minha escolha pessoal é quanto mais diferenças a gente tiver dentro da equipe, mais diversificadas serão as possibilidades de solução para nossos problemas”, diz a executiva que comanda um exército de 7,5 mil funcionários, dos quais, 70% do sexo feminino. “Adoraria não ter mais que tratar da questão de gênero, mas ainda estamos longe desta realidade”.

Compromisso por escrito – Érica Takeda, CEO da alemã Brenntag, passou 26 anos de sua trajetória na Dow Química onde começou como estagiária. Em 2015 foi a primeira mulher a ocupar a diretoria de produtos da empresa. “Você acaba se cobrando bastante mas a recompensa vem quando o resultado vem.” Para Érica, o mais importante que as lideranças têm a fazer é não tomar decisões no lugar do funcionário. Ele, ou ela é quem deve dizer se é um bom momento assumir novo desafio. “Não parta de nenhum pressuposto. Deixe que o funcionário ou funcionária decida qual é o melhor momento. Digo isso porque em algumas ocasiões, percebi que meu líder queria me proteger ou não queria me expor.”

A executiva diz que está atenta às questões de inclusão lembrando que dos cinco principais executivos de seu time, três são mulheres e que é uma das signatárias do Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, da sigla em inglês), iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) de promoção da igualdade entre homens e mulheres no local de trabalho e na sociedade. Cento e cinquenta companhias brasileiras assinam o compromisso.

Pauta para o futuro – Antes de aportar na Puratos, empresa belga que produz insumos para panificação confeitaria e chocolates, Simone Torres Soares, fez uma longa carreira internacional e isso a fez identificar diferenças culturais entre países e estilos de lideranças. Hoje, diz ela, sua principal preocupação é garantir um bom ambiente de trabalho a seus funcionários. “Nunca estive em ambientes tóxicos mas isso não quer dizer que eles não existam”, conclui ela que, ao lado de Fiamma do Twitter, Denise, da BP e Érica da Brenntag, faz parte do CEO por Um Dia, programa internacional da Odgers Berndtson.

No Brasil o programa é realizado em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, a PDA International, Machado Meyer Advogados e Centro de Carreiras da FGV Eaesp.

Voltado para o público universitário que esteja prestes a concluir o curso, o programa CEO Por Um Dia vai selecionar 23 estudantes para acompanhar o dia do comandante das empresas participantes. As inscrições vão até o próximo dia 29 e podem ser realizadas no hotsite especialmente criado para o CEO por Um Dia (www.ceox1dia.com.br).

“Vamos ter uma agenda normal para que o ou a estudante tenha contato com a nossa realidade, que não é fácil mas que é prazerosa quando se faz o que gosta”, afirma Simone.

Fiamma, do Twitter, afirma  que além de manter a agenda corrida do dia a dia, abre espaço para participar de eventos relacionados à pauta feminina. “Embora minha realidade seja diferente do que acontece lá fora, o mundo corporativo tende a ser inóspito e, às vezes, muito hostil. O que me anima é que a questão de gênero não está na pauta da minha filha de 13 anos. Isso é um bom sinal”, completa ela. “O ideal será não ter de debater este tema porque será algo natural. Mas até lá, é preciso promover o detate”, afirma Denise Santos, da BP.