Choque do desemprego pode levar homens a ‘funções femininas’, diz estudo

Choque do desemprego pode levar homens a ‘funções femininas’, diz estudo

Em áreas tradicionalmente ocupadas por mulheres, eles também tiveram, em média, acréscimo de 4% nos salários e aumento na classificação de 'prestígio' de sua ocupação

Jena McGregor / The Washington Post

15 de fevereiro de 2020 | 16h00

Nas últimas décadas, as mulheres marcharam para dentro de setores dominados por homens, como medicina, direito e finanças. Os homens, por sua vez, estiveram menos dispostos a entrar em ocupações dominadas por mulheres – áreas como enfermagem ou educação – mesmo que esses empregos tenham passado por um crescimento muito mais veloz.

Mas um novo estudo descobriu que um fator de choque particular – a perda do emprego – pode explicar por que alguns homens estão dispostos a procurar vagas em ocupações tradicionalmente dominadas por mulheres.

Homens que trabalhavam em ocupações dominadas por homens e ficaram desempregados se tornaram mais propensos a assumir postos em setores dominados por mulheres do que homens que mudaram de emprego sem intervalo, descobriram os pesquisadores.

Enfermagem e outras áreas dominadas por mulheres são repensadas por homens em ‘choque’ com o desemprego. Foto: Dida Sampaio/Estadão-10/5/2019

“Uma das maiores conclusões é que as condições econômicas realmente fazem diferença na hora de um homem trabalhar em empregos dominados por mulheres”, justificou Jill Yavorsky, socióloga da Universidade da Carolina do Norte e uma das coautoras do estudo. O desemprego, disse ela, “pode atuar como um evento desencadeador que os incentiva a pensar em novas alternativas”.

O último relatório de empregos dos Estados Unidos mostrou que, pela segunda vez, as mulheres superaram os homens em número nos empregos formais, impulsionadas pelo maior crescimento de vagas em áreas tradicionalmente femininas, como assistência médica e educação. Esses setores estão crescendo mais rapidamente do que os campos dominados pelos homens, como manufatura e produção de mercadorias.

Christine Williams, socióloga da Universidade do Texas que pesquisou o que acontece quando homens entram em profissões dominadas por mulheres, diz que gostou de os autores do estudo terem descrito o desemprego como um “choque”. “De algum jeito, você precisa ser arrancado da sua rotina. Se você fica só sentado, conversando com um conselheiro de carreira, pode não se dar conta de que tem a possibilidade de trabalhar na área da saúde, mas agora estamos em uma economia onde as pessoas [nem todas] têm muitas opções”.

Aumento nos salários

O estudo, publicado na edição de janeiro da revista Social Science Research, examinou oito anos de dados da Pesquisa de Renda e Participação em Programas do Departamento do Censo dos Estados Unidos. Constatou-se que, entre os homens que trabalhavam em setores dominados por homens, ou com forças de trabalho mistas, e depois ficaram desempregados, 19% optaram por entrar em áreas ocupadas por mulheres. Entre os homens que não tiveram perda de emprego, apenas 12% fizeram um movimento semelhante.

O estudo também constatou que os homens que procuraram vagas dominadas por mulheres não apenas voltaram a estar empregados: eles também viram, em média, um acréscimo de 4% nos salários e um aumento na classificação de “prestígio” de sua ocupação, em comparação com a que tinham antes de perderem o emprego.

Yavorsky disse que existem algumas explicações possíveis. Uma pode ser que os homens só estão dispostos a assumir posições estigmatizadas como empregos de “colarinho rosa” se ganharem mais remuneração ou status. Outra poderia ser que alguns dos homens da amostra que ficaram desempregados estavam em empregos que pagavam ainda menos do que os dominados por mulheres.

O crescimento das ocupações dominadas por mulheres tem se dado, em grande parte, na faixa inferior e superior da escala salarial – com empregos como auxiliar de saúde na parte de baixo e enfermeira na parte de cima, disse Yavorsky. Enquanto isso, os empregos que há muito tempo oferecem às mulheres um caminho para a classe média estão ficando escassos, com mais de 2,1 milhões de vagas em escritório e apoio administrativo abandonadas desde 2000.

Mike Ward, que recentemente concluiu um programa de mestrado para se tornar enfermeiro, passou  11 anos como atendente de pronto-socorro e unidade de terapia intensiva e decidiu ingressar na enfermagem após ser sido demitido de um trabalho braçal em uma empresa de perfuração de campos de petróleo, no Golfo do México, em 2000. Ele passou vários anos pulando de emprego em emprego, abastecendo aviões, trabalhando em uma fábrica de papel e prestando serviços para uma indústria elétrica, antes de finalmente se qualificar para receber ajuda financeira e entrar na escola de enfermagem, em 2003.

Ele sempre tinha se interessado por medicina – mas disse que precisou olhar para além dos estigmas associados aos homens que vão para a enfermagem. “Eu estava indo de emprego em emprego, com um teto de renda que não conseguia ultrapassar”, disse Ward, 43 anos, que agora ganha um salário anual de seis dígitos e é vice-presidente da Associação Americana de Homens na Enfermagem. “Meus amigos mais próximos – eles me zombaram um pouco no começo, mas agora não estão rindo mais”.

Yavorsky toma o cuidado de observar que “o desemprego não é uma estratégia viável para fazer com que mais homens entrem em empregos dominados por mulheres”. Mas disse que os empregadores podem repensar como remuneram empregos tradicionalmente vistos como femininos ou masculinos, como recursos humanos e finanças.

De fato, uma grande recessão nos EUA, com desemprego generalizado, aconteceu há pouco tempo – mas teve um efeito relativamente menor sobre a segregação de empregos por gênero, observa Betsey Stevenson, professora de políticas públicas e economia da Universidade de Michigan.

“Mesmo com o tamanho do choque do desemprego em 2008, não vimos um grande realinhamento”, disse Stevenson. Mudar o equilíbrio de gênero em diferentes empregos exigirá mais mudanças na sociedade, disse ela.

“Acho que um dos desafios para os homens é ver mais imagens culturais que remodelem nossas noções sobre empregos tradicionalmente femininos, apresentando-os como mais neutros em termos de gênero e mais consistentes com a masculinidade”, afirmou ela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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