Ciência e política: um casamento turbulento
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Ciência e política: um casamento turbulento

Divergências partidárias colorem discussão que deveria ser pautada pela medicina; enquanto isso, profissionais de saúde planejam estratégias para driblar problemas, diz especialista em artigo

Marisa Eboli

21 de abril de 2020 | 13h00

Denise Cardo é diretora da divisão de prevenção de infecções na área de saúde do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em Atlanta, nos Estados Unidos. Começou a trabalhar lá em 1993, como médica epidemiologista do Programa de Infecções Hospitalares. Após ocupar vários cargos de liderança, foi escolhida como diretora de divisão em 2003.

Antes de ingressar no CDC, desenvolveu brilhante carreira na divisão de doenças infecciosas em uma das instituições médicas de prestígio do Brasil, Escola Paulista de Medicina (EPM), hoje Unifesp, onde ela recebeu o diploma de médica, fez residência, mestrado e doutorado, e se tornou professora adjunta na disciplina de doenças infecciosas. De 1990 a 1991, ela fez pós-doutorado em prevenção de infecções hospitalares no Programa de Epidemiologia do Hospital da Universidade de Tennessee, Memphis (EUA).

Com uma posição dessas e um currículo assim, eu, como paulista e brasileira, tenho muito orgulho da dra. Cardo. Mais ainda por ser minha prima. Semanas atrás ela esteve em Brasília participando de evento da Organização Mundial de Saúde (OMS), no Ministério da Saúde, para discutir aspectos relacionados ao controle de resistência antimicrobiana, uma vez que o Programa de Resistência Antimicrobiana no CDC está sob sua coordenação e é grande referência no assunto.

Denise é sempre convidada para palestras nacionais e internacionais sobre prevenção de infecções, incluindo o ebola. Nesta vinda ao Brasil foi impossível não comentar a ironia dos fatos. Por exemplo: o que a fez, há 22 dois anos, tomar a decisão de deixar sua carreira bem sucedida no Brasil e seguir para os EUA.

Ela iniciou sua trajetória na área de controle de infecções hospitalares num hospital da Prefeitura de São Paulo em 1985 e também participou ativamente na coordenação de programas similares para todos os hospitais da rede, na época. Em 1991, assim que voltou de seu pós-doutorado em Memphis, Denise, plena de entusiasmo e energia, tentou reassumir a posição que ocupava na Prefeitura, na área de controle de infecção hospitalar, pois acreditava que seria uma ótima oportunidade de usar o que tinha aprendido com as pesquisas e experiências americanas.

Entre a época que saiu de licença para fazer seu pós-doutorado e seu retorno, houve mudança de partido político na Prefeitura, e o controle de infecção não estava mais entre as prioridades. Ao ser indagada sobre a importância do programa, mostrou várias referências dos EUA e da Europa. A ausência de referência de programas em Cuba foi a justificativa para a falta de suporte.

Apesar de ser uma referência nacional na área de controle de infecções e continuar sua atividade na EPM (hoje Unifesp), o seu cargo na Prefeitura passou a ser como clínica num posto de saúde. Após quase um ano tentando, sem sucesso, reassumir suas atividades na Prefeitura e tendo recebido um convite do CDC para trabalhar na área de controle de infecções para os EUA, dra. Cardo embarcou de volta para os EUA, desta vez definitivamente, para trabalhar para uma agência federal americana.

Curiosamente, pouco tempo depois, num congresso panamericano, foi abordada por um colega de Cuba que pediu para ajudá-los na área de infecção hospitalar… Em agosto de 1998, foi citada na Primeira Página deste Estado, em reportagem em que criticava a falta de higiene em hospitais.

Denise Cardo em foto tirada em 1998 para reportagem no Estadão. Foto: Paulo Liebert/Estadão- 15/8/1998

Conforme a saúde pública piora por aqui, mais constantes têm sido suas vindas. Denise acredita nas pessoas que trabalham nesta área no Brasil, mas hoje percebe que, no episódio da Prefeitura paulistana, deu azar de ter-se deparado com as pessoas erradas nos lugares errados.

A pergunta que fica é: até onde o preconceito, seja ele político-partidário, ideológico, religioso, de raça, de gênero etc. pode se sobrepor ao mérito e à competência? Principalmente num País tão carente de talentos idealistas e éticos.

O texto inteiro acima foi publicado neste mesmo jornal em abril de 2015, em coluna de minha autoria. Resolvi trazê-lo de volta, em abril de 2020, diante de uma das maiores crises de saúde jamais vividas no mundo, com o novo coronavírus.

Curiosamente, há um certo paralelismo entre o quadro americano e o nosso, no que tange às controvérsias dentro do governo e formas de lidar com a pandemia. Em ambos, há a contaminação e a colisão da política (e ideologia) com ciência médica e a epidemiologia. Nos dois países (e em outros), as agendas políticas de cada incumbente se enredam ou colidem com o que determina a ciência.

Em entrevista concedida no início de abril, sobre a pandemia do coronavírus, um diretor do CDC lembra que a agência vem servindo de modelo para vários países, incluindo o CDC da China. Nos dias de hoje, seu protagonismo na gestão da crise é inquestionável. Contudo, a agência ficou longe dos holofotes da mídia e não teve a visibilidade que se imaginaria. Coisas da política.

Lá como cá, o diálogo tende a ser difícil, pois divergências partidárias colorem a discussão que deveria ser pautada pela medicina e pela epidemiologia. Como se diz, a política é a arte do possível. Mas o risco de andar na contramão da ciência é considerável.

Uma curiosidade. A reportagem de 1998 mencionada na minha coluna de 2015 incluía uma enorme foto da dra. Denise Cardo lavando as mãos, reforçando a importância desta prática para combater contaminações. Vinte e dois anos depois, ainda estamos ensinando esta prática para a população brasileira. Infelizmente, muitos nem têm água ou sabonete, sem falar da falta de saneamento básico.

Aproveito para homenagear o trabalho técnico-científico-médico no combate à covid-19. Nas palavras de Denise, que vê de fora o que acontece por aqui: “As pesquisas em epidemiologia no Brasil são muito sérias e avançadas. Nesse sentido, ter muitos problemas de saúde pública no País aguça a criatividade e acelera a pesquisa científica. A qualidade dos profissionais brasileiros nessa área é altíssima e trabalham com muita dedicação, paixão e orientados para ação, apesar das divergências”.

Muita coragem a todos os profissionais de saúde que planejam e implementam estratégias para proteger todos nós e salvar vidas. Temos muitas “Denises” no Brasil. Parabéns pelo seu trabalho. O mundo agradece e nosso País se sente envaidecido!

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* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Fundação Instituto de Administração (FIA). (meboli@usp.br)

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