Como funcionam as ‘fábricas’ de Prêmio Nobel
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como funcionam as ‘fábricas’ de Prêmio Nobel

Universidades e instituições pelo mundo fornecem cenário para pesquisas premiadas, com ricas reflexões e trocas de experiências; será que as nossas universidades estão preparando alunos para o Nobel?

Marisa Eboli

19 de novembro de 2019 | 12h01

Participei recentemente do XX Foro Iberoamérica, em Bogotá. Desde 2000, quando foi criado, o evento tornou-se um cenário para grandes discussões em benefício dos governos dos países da região. A proposta inicial foi feita pelo Prêmio Nobel de Literatura da Colômbia, Gabriel García Márquez, e pelo escritor, intelectual e diplomata mexicano Carlos Fuentes. Contou com o apoio de empresários como Jesus de Polanco, Gustavo Cisneros, Carlos Slim, Júlio Mário Santo Domingo, Héctor Magnetto, Álvaro Saieh e Francisco Pinto Balsemão. Ou seja, todos poderosos e endinheirados.

Para este ano, o Foro concentrou-se no tema Conhecimento e Sociedade do Futuro, com a presença de cientistas, acadêmicos, empresários e políticos de diferentes partes do mundo que discutiram os desafios em educação, ambiente, energia, migração, refugiados, populismo e governabilidade. Nada mais apropriado e urgente no atual momento. Entre os vários convidados ilustres estavam presentes três ganhadores de Prêmio Nobel: Johannes Georg Bednorz (Física, 1987), Mario Molina (Química, 1995) e Harald Zur Hausen (Medicina, 2008).

Já havia assistido a algumas palestras com ganhadores de Prêmio Nobel e lido livros deles também. Até ouvido músicas… Mas confesso que nunca havia apertado a mão de nenhum. Uma enorme emoção por um lado e uma constatação tola por outro: são absolutamente normais, gente como a gente! Daí fiquei pensando: como será que se forma um ganhador de Prêmio Nobel? Por que será que o Brasil nunca teve nenhum? Qual o papel das universidades?

A origem do Prêmio Nobel

Você, leitor, sabe como surgiu o prêmio de maior prestígio do mundo? O químico, engenheiro e inventor Alfred Nobel (1833, Estocolmo, Suécia) inventou o balistite, que foi o precursor de muitos outros explosivos militares, e acabaria acumulando uma fortuna durante sua vida graças às suas 355 invenções, entre as quais a dinamite foi a mais famosa. No entanto, também arrastou a sensação de culpa pelo mal que suas invenções teriam causado ao mundo.

Em 1888, Nobel ficou surpreso ao ler seu próprio obituário, intitulado “O mercador da morte morreu”, em um jornal francês. Como foi seu irmão Ludvig que havia morrido, o obituário foi publicado por engano. O artigo desconcertou Nobel e o deixou apreensivo sobre como ele seria lembrado. Daí a ideia de fazer algo grandioso.

Em seu testamento especificou que sua fortuna seria usada para criar uma série de prêmios para aqueles que realizam “o maior benefício para a humanidade” nas áreas de física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz.

Imagem de Alfred Nobel ilustra a entrada do Museu Nobel, em Estocolmo. Foto: Jonathan Nackstrand/AFP

O artigo The Sociology of the Nobel Prizes, de Harriet Zuckerman, publicado em 1967 pelo Scientific American, analisa o Prêmio Nobel, considerado pelos leigos e também pelos cientistas como o reconhecimento mais honroso das realizações científicas. O prestígio é tão grande que melhora a posição das nações, bem como a reputação das instituições a que pertencem seus “laureados”.

Nos EUA, à medida que este país alcançou o primeiro lugar no total acumulado de prêmios concedidos, a reivindicação e a contagem de vencedores passaram a alimentar uma competição por prestígio entre as universidades, faculdades e organizações de pesquisa. Quando se trata de treinamento de cientistas e apoio ao seu trabalho, presume-se que os prêmios Nobel sejam uma medida relativamente objetiva de quão bem as instituições estão indo.

O que a contagem dos prêmios Nobel diz sobre o desempenho das instituições de ensino superior que contratam seus vencedores? A pesquisa da autora responde a essa pergunta, a partir de um levantamento das publicações oficiais, de autoavaliação das universidades, de dados biográficos sobre os laureados que viveram nos EUA e de entrevistas com 41 deles. Verificou-se que todas as 24 instituições americanas nas quais estavam os 57 ganhadores do Prêmio Nobel à época (no ano acadêmico de 1966-1967) se beneficiam deles.

A Universidade da Califórnia em Berkeley orgulhava-se da presença em sua faculdade de 10 vencedores (incluindo professores eméritos), a Universidade de Harvard tinha nove. A Columbia University e a Stanford University possuíam cinco. Deve-se notar que as universidades não são as únicas instituições a buscar na contagem dos prêmios Nobel uma medida objetiva e afirmação de seu desempenho. A Fundação Guggenheim orgulha-se de haver apoiado o trabalho de 12 ganhadores do Nobel de ciências antes de ganharem o prêmio. A Fundação Rockefeller patrocinou quase 100 ganhadores, quase sempre antes de receberem seus prêmios.

Note-se que os Laboratórios da Bell Telephone e a General Electric Research Lab também já tiveram laureados. No caso da GE, dois cientistas da companhia foram (Química para Irving Langmuir e Física para Ivar Giaever). Não é coincidência a GE ter se tornado referência mundial no desenvolvimento de talentos e formação de gente. É o preparo de seus líderes para desafiarem suas equipes com resolução de problemas e envolvê-los em projetos estratégicos, que perpetua o espírito inovador desde sua fundação, por Thomas Edison.

O que Zuckerman afirma é que não significa necessariamente que essas universidades sejam superiores. O que os números mostram é que os futuros laureados estavam mais aptos a buscar uma missão em determinadas escolas de pós-graduação e a serem aceitos por elas. Há evidências de um alto grau de discriminação em ambos os lados dessas transações.

Um laureado físico comentou: “Fui atraído pelo nome [dele]… sei bastante sobre física para apreciá-lo, para apreciar seu estilo”. Ele falava de Enrico Fermi. O registro sugere que Fermi, por sua vez, tinha bastante talento para identificar jovens promissores; nada menos que quatro de seus alunos de pós-graduação e colaboradores juniores ganharam o Prêmio Nobel. Um laureado responde a perguntas sobre um determinado assunto com exuberância. Tal combinação de auto-seleção e recrutamento seletivo de fato tenderia a concentrar os alunos talentosos em um pequeno número de escolas de pós-graduação.

Com sua liderança no treinamento, na retenção e no recrutamento de futuros candidatos, o mesmo grupo de universidades naturalmente fornece o cenário para pesquisas premiadas. Enfim, um professor que já foi premiado coloca problemas relevantes e visão estratégica do pesquisar, que são inspiradores para os jovens cientistas em formação.

Muitas conversas, trocas de experiências, encontros ricos em reflexões, diálogos sérios e profundos fundamentam o processo de aprendizagem dos alunos. Ou seja, evidenciam-se as tais “metodologias ativas”, onde o professor ensina menos conceitos, mas os alunos aprendem mais, pois são desafiados a pensar sobre questões instigantes.

Será que nossas universidades estão de fato preparando nossos estudantes de pós-graduação para um dia serem laureados com um Prêmio Nobel?

* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios. (meboli@usp.br)

Tendências: