Como o esporte contribui para uma gestão inovadora da carreira

Como o esporte contribui para uma gestão inovadora da carreira

Disciplina e foco são aprendizados levados de esportes como natação; confira quatro características para promover uma cultura organizacional colaborativa

Gabriel Domingos*

23 de setembro de 2021 | 10h02

A piscina foi minha primeira escola de gestão. Comecei a nadar cedo e fui atleta de alta performance dos 7 aos 18 anos. Participava de campeonatos com frequência e hoje percebo que minha liderança é reflexo do que aprendi nesse ambiente competitivo — mas ao mesmo tempo colaborativo. Aos 18, tive que tomar a primeira grande decisão da minha carreira: continuar competindo e buscar novos títulos e Olimpíadas ou colocar em prática o que aprendi no curso técnico. Após muita reflexão, cheguei à conclusão de que a natação tinha me dado toda a base para encarar um novo ciclo. 

Essa transição não foi instantânea. Durante quatro anos, cursei processamento de dados e lembro até hoje o que pensei no dia em que minha mãe me inscreveu para o vestibular da Federal: “Vou passar nessa prova e, quando completar 18 anos, terei a oportunidade de ganhar dinheiro com esse curso ou seguir nadando”. Foi aí que vi o poder do planejamento de carreira, de ter a visão do que deseja. De se preparar para a mudança e ter a coragem de encerrar um ciclo, para começar um novo de peito aberto e feliz. 

Atualmente, duas décadas depois, ocupo o cargo diretor de marketing, gerenciando um time de mais de 100 pessoas. Com relação aos aprendizados, o esporte me ensinou a ter foco, disciplina e resiliência, comportamentos que me ajudaram a avançar na carreira. Minha vontade de chegar cada vez mais longe sempre me motivou a treinar para melhorar os resultados e conquistar medalhas — nas piscinas e na empresa. 

A natação também me deu ferramentas para criar uma gestão inovadora, promovendo um ambiente saudável e o crescimento de quem está ao meu redor. Hoje, dou mergulhos no mar de possibilidades que o marketing e a inovação oferecem aos nossos clientes. É meu papel montar um time no qual as pessoas tenham prazer de estar e possam se expressar, para que embarquem comigo nessa jornada e entreguem os resultados que idealizamos.

Natação trouxe aprendizados como disciplina e resiliência; na foto, a nadadora Maria Carolina Santiago, medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2021. Foto: Wander Roberto/CPB

Refletindo sobre isso, reuni quatro características fundamentais para promover uma cultura organizacional colaborativa, que aprendi no esporte e que hoje levo para o mundo corporativo. 

1. Confie nos talentos

Quando nadava, eu me inspirava em treinadores que confiavam no talento dos atletas. Eles nos diziam palavras de apoio com frequência e nos davam liberdade – afinal, é seu objetivo e não o deles somente. Quantas vezes precisei cair na piscina com água gelada e de madrugada, para treinar sem o técnico ao meu lado e nem por isso deixei de fazer o meu treino. No final, se você deixa de fazer a sua parte, está se sabotando. O técnico tinha a confiança de que eu iria cumprir a minha parte, fazendo valer aquele tempo de dedicação. 

Por isso, minha recomendação é que você monte um time de “atletas” e dê espaço para eles voarem. Atue mais como orientador e facilitador, não na microgestão. Busco fazer o mesmo com quem trabalha comigo. Acredito em todos os que fazem parte da minha equipe. Divido a mesa (ou as telas, nesses tempos de pandemia) com gente talentosa e que me inspira a ser melhor. Acredito que bons resultados dependem de pessoas. 

Quando o gestor contrata profissionais competentes e nos quais confia, seu trabalho fica mais fácil. Sem precisar de regras excessivas, complexas ou burocráticas, cada um assume sua responsabilidade, cuida de sua parte no todo e a equipe funciona sincronizada como uma orquestra. Uma empresa que deseja uma gestão inovadora não pode ser baseada em imposições, que apenas desmotivam. Com autonomia, as pessoas fazem o seu melhor e, juntas, dão show de criatividade e eficiência. 

Este ano, li o livro A Regra é Não Ter Regras: A Netflix e a Cultura da Reinvenção, que deu ainda mais forma a esse conceito. O autor, Reed Hastings, fundador e CEO da Netflix, escreve sobre a importância de estruturar um ambiente livre para estimular a criatividade e a inovação. Ele até deu um nome para o modelo: F&R, sigla de freedom and responsibility (em português, liberdade com responsabilidade). 

“Nossa cultura — focada em alcançar o melhor desempenho com a densidade de talento e em liderar as nossas equipes com contexto em vez de controle — nos permitiu crescer e mudar continuamente à medida que o mundo e as necessidades de nossos assinantes se transformavam à nossa volta”, conta Hastings na publicação.

A combinação de confiança e liberdade garante resultados melhores para qualquer time. Quando o gestor dá espaço para os profissionais, eles são capazes de entregar soluções inspiradoras. 

2. Dê feedbacks 

Construir um time pautado pela confiança é uma tarefa desafiadora, que requer muito exercício e conversa. Um fator fundamental é praticar a sinceridade. 

Devemos dizer quando gostamos – ou não – de algo. Fazendo uma analogia com a carreira de atleta, a minha evolução dependia do feedback constante do meu técnico. Ele berrava quando eu superava meu tempo, mas dava aquele feedback quando cometia erros — sempre me estimulando e lembrando que eu era capaz de fazer melhor. 

Os feedbacks que recebemos são a base de nossa evolução — e precisamos tanto de críticas quanto de elogios para que ela fique sólida e estável. Considero que o ambiente de trabalho ideal é aquele em que colegas e líderes dizem quando você faz algo certo e quando é preciso melhorar de um jeito sincero, aberto e em tom de conversa. 

Uma pesquisa publicada na Harvard Business Review pelas pesquisadoras norte-americanas Gretchen Spreitzer e Christine Porath concluiu que feedbacks dão energia para o desenvolvimento e aprendizado dos funcionários. E quanto mais direta é a avaliação, mais útil será para o colaborador. 

3. Permita o erro

“Fracasso e inovação são gêmeos inseparáveis. Para inventar, você tem que experimentar. Se você souber antecipadamente que vai funcionar, não é um experimento”. Essa frase está no livro As Cartas de Bezos, elaborado a partir dos textos escritos por Jeff Bezos aos acionistas da Amazon.

Assim como ele, acredito que a aceitação do erro faz parte de uma gestão inovadora. Não acertar de primeira e tentar vários caminhos antes de encontrar um que funcione é normal quando estamos buscando a transformação.

Assim como um nadador precisa aprender vários estilos e técnicas antes de encontrar sua melhor versão, os profissionais também precisam de espaço para testar e arriscar. Mesmo quando o resultado não é o esperado, há muito valor no aprendizado, o que no longo prazo compensa as perdas.

O líder deve estar atento para não desestimular essa dinâmica. Se alguém da equipe tem uma ideia a princípio boa, mas que não se desenvolveu como o esperado, o gestor não deve culpar o profissional pelo erro. Essa conduta inibirá outras ideias que poderiam ser um sucesso. Quando algo dá errado, procure identificar o que esse episódio ensinou e como ele aumentou o conhecimento do time. Além disso, olhe para a causa do problema para não repeti-lo.  

4. Trabalhe em equipe

Algumas pessoas com quem converso pensam que a natação é um esporte solitário. Porém, para o atleta se destacar, ele depende de muitos outros profissionais. É um trabalho em equipe. Lembro-me do quanto ficava motivado pelos meus treinadores. Eles criaram um ambiente estimulante o suficiente para eu não ter medo de ousar, ser capaz de acordar cedo todos os dias, incluindo nas frias manhãs de inverno.

Da mesma maneira, no universo corporativo, muita coisa depende do nosso esforço pessoal, mas a vontade de fazer diferente e melhorar a cada dia é potencializada pelo ambiente e pelas pessoas ao nosso redor. Com líderes inspiradores e um contexto com ingredientes como talentos, confiança, liberdade, reconhecimento e sinceridade, tudo flui.

* Gabriel Domingos é diretor de marketing da Vivo Empresas, onde iniciou sua carreira há 21 anos como estagiário. É investidor de startups, mentor e membro da Anjos do Brasil. 

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