Competências socioemocionais são o ‘pote de ouro’ do novo mercado de trabalho
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Competências socioemocionais são o ‘pote de ouro’ do novo mercado de trabalho

Sem experiência profissional, jovens são cada vez mais requisitados pelas ‘soft skills’, como resiliência, criatividade e propósito

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24 de fevereiro de 2019 | 06h15

Bianca Zanatta
ESPECIAL PARA O ESTADO

Se encontrar uma colocação no mercado não está fácil para quem tem experiência profissional, o desafio dos que acabam de completar o ensino médio ou um curso superior é ainda maior. No final de 2018, esses jovens de 18 a 24 anos representavam 32,5% dos 12,5 milhões de brasileiros desempregados, segundo dados do IBGE. Ao mesmo tempo, o mercado precisa da nova geração, composta pelos millennials, que já ocupam 50% dos cargos em empresas ao redor do mundo, de acordo com a Millennial Survey, pesquisa da Deloitte. Até 2020, estima-se que este número suba para 75%.

Mas onde está o gargalo, se os jovens querem emprego e as empresas querem contratá-los? Segundo especialistas, com a falta de experiência são outros os requisitos buscados no mercado – e não se fala mais em fluência em idiomas e domínio de programas. Para Lilene Ruy, supervisora de inclusão e processos especiais do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), competências técnicas como conhecimento de softwares, escrita e línguas estrangeiras são importantes, mas o mercado também está de olho em gente que tem um propósito. “Hoje as empresas levam a sério a escolha de ser feliz e para isso o jovem precisa se engajar.”

Propósito. Karoline Mendes e Matheus Nascimento tiveram aulas no Proa. FOTO: Werther Santana/Estadão

Saber se relacionar, ser colaborativo, ter postura proativa, criatividade e energia na execução das tarefas são quesitos que entram nas novas avaliações e pesam tanto ou mais na balança do que a formação técnica. Batizadas de “soft skills”, estas competências socioemocionais são características do comportamento humano que a inteligência artificial não substitui.

É por isso que a estudante Karoline Mendes, de 18 anos, cumpre atividades comportamentais e culturais nas aulas do Proa, instituição sem fins lucrativos que há cerca de 10 anos ajuda jovens de baixa renda de ensino médio ou superior a ter acesso ao mercado de trabalho. “As vagas sempre buscam jovens com cursos e mais cursos e também experiência profissional, só que a maioria está entrando agora no mercado, é um primeiro emprego”, diz ela.

Para o diretor da entidade, Rodrigo Dib, a ideia é trabalhar o protagonismo do aluno, ensiná-lo a olhar para a frente. “Não é só inserir no mercado profissional, mas construir um projeto de vida que envolva formação, emprego, renda e a continuidade da educação.” No Proa, os alunos também tem aulas técnicas e, por três anos após o curso, ainda recebem acompanhamento da instituição para se manter no mercado em pé de igualdade com quem teve mais oportunidades.

CEO da Eureca, recrutadora especializada no primeiro emprego, Douglas Souza também vê uma crescente valorização das atividades praticadas fora da sala de aula. “Saber relacionar conteúdos de diferentes nichos é muito valioso”, diz. Para isso, vivências extracurriculares que desenvolvam habilidades comportamentais, como aulas de teatro e trabalho voluntário, são um bom começo.

Recém-formada em psicologia pela Unesp, Isabella Longui, de 24 anos, foi voluntária em uma ONG e deu aulas de inglês em um cursinho popular de Bauru. A jovem também procurou participar de congressos em áreas de atuação variadas. “O mundo que agrega todos os profissionais é um só e é importante entender que estamos em interação com todos os temas e pessoas.”

Felipe Calbucci, country manager do site de empregos Indeed no Brasil, avalia como uma das mais importantes a habilidade de aprender coisas novas de forma rápida e conseguir executá-las. Por outro lado, diz, o mercado também precisa se adaptar. O executivo acredita que estejamos vivendo um momento de inversão de papéis, em que a própria empresa busca cativar o candidato.

“Com a chegada das startups, o pessoal quer horários flexíveis e home office. São profissionais que trabalham por um propósito”, observa o executivo, segundo quem isso tem levado muitas companhias a encontrar formas de motivar os jovens e fazer com que desenvolvam resiliência – uma das “soft skills” mais raras e desejadas atualmente.

Ex-aluno do Proa, Matheus Nascimento, de 19 anos, estuda direito na FMU e conseguiu uma vaga de estágio no departamento jurídico do banco J.P. Morgan. “Os módulos culturais e comportamentais me ajudaram a expandir horizontes”, conta. “Muitas vezes, a pessoa que completa o ensino médio na rede pública aceita um emprego mais operacional para ter renda e não aprende a enxergar além.”

Matheus também procurou se desenvolver por conta própria. Ciente de que o inglês faz diferença em sua área, passou a estudar em casa, com o auxílio de videoaulas e aplicativos de conversação.

A diretora de RH do Magazine Luiza, Patrícia Pugas, cita a busca pelo conhecimento como um dos principais diferenciais: “Não se pode esperar que a empresa defina quais cursos você deve fazer. É preciso ter curiosidade de tudo.” A rede varejista hoje tem um processo seletivo baseado em valores e comportamentos observáveis.

Crenças e propósitos, no entanto, não substituem outras aptidões que exigem dedicação: ler mais sobre temas variados e ter um pensamento digital. “Muitas pessoas são tecnológicas, mas poucas procuram de fato entender e aplicar a cultura digital”, analisa Patrícia.

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