Contas em dia ajudam a garantir produtividade

Contas em dia ajudam a garantir produtividade

Claudio Marques

19 de novembro de 2012 | 08h05

Concentração.  “Essas coisas (dívidas) nos tiram o foco, o que é um risco, pois trabalho em uma fábrica”, diz Pinto (Foto: Paulo Afonso/Divulgação Holcim)
Leandro Costa


Após alguns anos utilizando o décimo terceiro salário para pagar as dívidas com o cartão de crédito e cheque especial, o coordenador de produção da Holcim do Brasil, empresa do ramo de cimento, concreto e agregados, Marques Pereira Pinto, vai poder finalmente dar outros destinos para o dinheiro que irá receber no final do ano, como realizar as compras do Natal, por exemplo. Com as finanças equilibradas o coordenador já consegue pensar no futuro e conta que pretende guardar uma parte do salário extra na poupança que está formando para investir na construção de um imóvel.

Com este feito, Pinto passa a figurar fora do grupo de 61% dos brasileiros que irão utilizar o décimo terceiro exclusivamente para a quitação de dívidas (veja mais abaixo)

É justamente com essa parcela grande de trabalhadores que não consegue ter controle sobre suas finanças que as empresas estão preocupadas. Muitas delas oferecem programas de educação financeira compostos por palestras, consultas personalizadas com especialistas e cursos. O objetivo é evitar que as dívidas abalem o sono, a tranquilidade do trabalhador e, consequentemente, tragam reflexos negativos para a sua produtividade.

Estudos embasam essa preocupação. Uma pesquisa recente divulgada pela companhia de seguros Met Life apontou problemas relacionados ao descontrole financeiro estão diretamente ligados à ausência de funcionários no trabalho em 58% das empresas do mundo. Além disso, segundo o estudo, em 78% das companhias sondadas o excesso de dívidas abala negativamente a produtividade diária dos funcionários. Os dados foram levantados em nove países diferentes e não envolvem o Brasil.

Entretanto, segundo consultores de recursos humanos, também refletem o que ocorre nas organizações por aqui.“Estressados por conta das dívidas, esses trabalhadores perdem o foco no trabalho, começam a pedir empréstimos para a empresa e a exercer pressão por aumentos no salário e nos benefícios, mesmo que isso não esteja em alinhamento com as políticas de remuneração da empresa”, diz a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad.

Nos casos mais extremos, segundo observa o presidente da DSOP Educação Financeira, Reinando Domingos, há os que preferem ser demitidos e utilizar as verbas rescisórias para ficar em dia com os credores, mesmo que isso signifique o sacrifício da sua fonte de renda.

Depois de constatar por meio de uma pesquisa interna, realizada em 2011, que cerca de 75% dos colaboradores têm algum tipo de dívida, a Holcim do Brasil estabeleceu a educação financeira como um dos pilares do seu programa de qualidade de vida, segundo conta a gerente do Instituto Holcim e de responsabilidade social corporativa da empresa, Juliana Andrigueto. “Antes, o programa tinha foco em saúde, bem estar, educação e cultura. Mas entendemos que sem equilíbrio financeiro esses pilares ficam comprometidos”, diz

Depois de realizar uma palestra para divulgar o programa, a empresa teve quase 70 candidatos inscritos, que participaram de um curso e tiveram também atendimento personalizado.
Contenção. Fazer planilha de gastos, evitar compras por impulso e “shopping terapia”, concentrar o vencimento das contas de consumo para as datas próximas ao pagamento do salário para evitar usar o cheque especial, analisar os gastos, efetuar cortes e evitar supérfluos para finalmente poder poupar parte do que ganha foi o que aprenderam os participantes, conta o coordenador de produção, Marques Pereira Pinto.

Com as contas em dia, ele diz que se sente mais produtivo no trabalho. “Essas coisas nos tiram o foco, o que é um risco, pois trabalho em uma fábrica. Com a falta de dinheiro no final do mês, eu nem dormia mais. Quisera eu ter aprendido tudo isso 20 anos atrás. Estaria muito melhor do que hoje”, diz.

De acordo com Juliana, já há procura para as próximas turmas do programa. “São colaboradores de todos os níveis da organização, não só operários. Esperamos que nos próximos anos o índice de colaboradores endividados caia com essa ação.”

Depois de oferecer algo semelhante para seus funcionários, a Termomecânica, indústria de transformação de metais, irá incorporar a educação financeira na grade de cursos de sua universidade corporativa, de acordo com a diretora de recursos humanos da empresa, Elaine Matiolli. “Percebemos o quanto é importante convidar as pessoas para refletir sobre a relação com o dinheiro”, afirma.

O mesmo tem feito a operadora NET. A gerente regional de recursos humanos, Andrea Campos, diz que a questão financeira ganhou foco nos últimos anos nos programas de desenvolvimento dos colaboradores. “Começamos com palestras dadas por especialistas da Bovespa e que acabaram se tornando treinamentos maiores”, diz.

A última ação da empresa nesse sentido foi realizada há pouco mais de duas semanas na central de atendimento na cidade de Americana, onde cerca de 900 funcionários participaram de um workshop sobre finanças pessoais. “Boa parte do público é composto por jovens, que estão ingressando no mercado de trabalho. Temos a preocupação de educá-los desde já sobre a importância de não gastar mais do que se ganha e, principalmente, de poupar parte do que ganham”.
A assistente de atendimento Gracielle Pereira, que participou da última ação da empresa, diz que o principal aprendizado é o de que nenhum valor é pequeno demais para ser poupado.

Ela diz nunca ter se descontrolado com as finanças, mas afirma que a partir de agora vai ter foco na formação de poupança para imprevistos. “Dívida paga é consciência tranquila. Não sei como trabalharia se estivesse com dívidas”, afirma.

Andrea justifica as ações de auxílio ao que poderia se considerado um problema pessoal do trabalhador. “Essa máxima de que todos os seus problemas terminam quando você entra no trabalho é falsa. Contratamos o ser humano por completo.”

Maioria vai usar o 13º salário para pagar dívidas

Quase 61% dos brasileiros vão usar o décimo terceiro salário para pagamentos de dívidas, segundo aponta um levantamento feito pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

De acordo com o estudo, 75% dos que vão usar o salário extra para quitar débitos pagarão suas dívidas com o cartão de crédito e cheque especial. Para o presidente do Instituto de Educação Financeira, Jurandir Macedo, esse índice reflete a relação pouco saudável que o brasileiro tem com as finanças. “O dinheiro é o último tabu grande da sociedade. As pessoas se esquivam de falar dele e, consequentemente, de aprender com ele. Isso é reflexo dos tempo de inflação, quando não fazia sentido planejar”, diz. A falta da cultura da poupança é outro fator preocupante para o presidente da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos. “Cerca de 95% da população não poupa nada. Ou seja, mesmo estando sem dívidas hoje, a pessoa é um potencial devedor, caso haja um imprevisto, como doença na família ou acidente.”/L.C.

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