Currículo criativo  na medida certa  ajuda o candidato
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Currículo criativo na medida certa ajuda o candidato

Para chamar atenção na seleção, profissionais adotam inventividade e tecnologia na elaboração do documento, mas equilíbrio é vital

CRIS OLIVETTE

08 Julho 2018 | 06h18

Fátima Kagohara. Foto: Rafaella Mascarenhas/Divulgação

Para se diferenciar dos demais candidatos a uma vaga para a área de criação, um profissional fez uma série de memes para ilustrar a sua capacidade criativa, uma das competências básicas requeridas pela empresa.

“Ele acertou na mosca”, diz o consultor da Consense Educação para as Relações, Anderson Siqueira. A empresa identifica profissionais alinhados à visão, cultura e objetivos das companhias.

Em um mercado cada vez mais competitivo, é crescente a proliferação de currículos animados, que expõem a criatividade do candidato ao apresentar o perfil profissional utilizando ilustrações e músicas. A iniciativa tem sido encarada com bons olhos pelos recrutadores.

Anderson Siqueira. Foto: Camila Carvalho/Divulgação

“O cuidado é sempre com o equilíbrio. Exagerar no tom ou na quantidade de informações pode dar uma impressão prolixa. Tudo tem sua boa medida, neste caso, não existe uma receita pronta”, afirma Siqueira.

Com experiência de quem atua há mais de 16 anos na área de recrutamento, a líder de pessoas e cultura da auditoria e consultoria Grant Thornton, Fátima Kagohara, conta que sempre recebeu currículos diferenciados. “Mas a prática vem aumentando consideravelmente, porque essa estratégia pode se tornar um diferencial e ajudar o candidato a conquistar a vaga.”

Segundo ela, jovens que pensam fora da caixa estão mais habituados a preparar currículos com formatos diferentes. “Mas vejo que profissionais maduros também estão seguindo essa tendência. Uma candidata, por exemplo, imprimiu a identidade dela, com ilustração, escala de cores e até criou um avatar. Ela já largou na frente.”

No entanto, Fátima também destaca que há risco de se cometer pecados capitais na tentativa de chamar a atenção. “Recebi um CV de profissional qualificado e experiente, mas que continha foto dele com camiseta de time de futebol e lata de cerveja na mão. Em outra oportunidade, uma candidata ao cargo de secretária enviou CV com foto sensual que ocupava metade da folha. Por mais qualificados que esses profissionais fossem, perderam a oportunidade de competir pela a vaga por conta do formato equivocado do CV.”

Afinal, a diversidade de modelos de currículos ajuda ou atrapalha a vida dos recrutadores? Fátima diz que não dificulta. “A intenção é trazer inovação em questão de layout e não um conteúdo maçante tipo mais do mesmo. É uma oportunidade a mais de o candidato aplicar as suas habilidades e competências antes mesmo de começar a trabalhar.”

Ela afirma que já contratou profissional que chamou a atenção pelo CV criativo. “Principalmente porque o cargo demandava inovação. Valeu à pena, porque ele realmente correspondeu às expectativas.”

Equilíbrio

Quando a criatividade do candidato ocorre na medida e direção corretas, Siqueira considera que o resultado se torna um chamariz para que o recrutador observe mais profundamente o profissional.

“Mas isso não é regra. Vai depender da função, do cargo pretendido, da cultura da empresa e até mesmo da percepção de necessidade de fazer diferente. Além disso, o avanço de instrumentos tecnológicos de cadastramento, mapeamento e até mesmo de avaliação de pessoas, diminui, em alguns casos, o uso do currículo em si.”

Diretora da Right Management – especializada em carreiras –, Wilma Dal Col afirma que a probabilidade de um currículo que adota modelo tradicional ou não ser descartado é sempre muito grande.

Wilma Dalcol. Foto: Leo Feltran/Divulgação

“Por isso, ter uma estratégia de divulgação é essencial. Para isso, é fundamental planejar, estudar o mercado no qual a empresa atua, buscar contatos que conheçam a cultura da empresa e estabelecer networking assertivo. Tais informações apoiarão a decisão sobre fazer ou não o CV tradicional”, recomenda.

Segundo ela, é importante o profissional ter mais de uma opção de currículo para encaminhar às empresas.

“Ele deve se preocupar não apenas com o formato do CV, mas também com o endereçamento adequado do conteúdo. Por exemplo, um profissional que tenha competências e experiência que possam ser utilizadas em duas diferentes áreas de negócio, deve ter dois currículos diferentes para expor o conteúdo de seus feitos, experiências e competências.”

Psicóloga e sócia da Trajeto RH, Angélica Guidoni concorda que é preciso avaliar o perfil da empresa. “Antes de optar por uma apresentação mais arrojada, o candidato deve conhecer a cultura da empresa. É uma empresa conservadora? Estão abertos a novidades? Dependendo da área, a criatividade pode abrir ou fechar uma porta. É preciso pensar com cautela.”

Em relação a opção de criar um modelo de CV para atender características de cada empresa, ela diz que o candidato não pode forçar a barra. “Ele tem de se encaixar na vaga naturalmente, caso contrário, não ficará por muito tempo no cargo.”

Angélica acrescenta que o coração do CV são as experiências profissionais. “Um dado importantíssimo é que o s CVs modernos descrevem não somente as atividades do cargo mas, principalmente, os resultados obtidos pelo profissional. Sim, o candidato tem de ‘quantificar’ de alguma maneira suas entregas nos cargos pelos quais passou. Por isso, dedique um bom tempo para preparar seu CV. É um investimento”, afirma.

‘O modelo tradicional está com os dias contados’

“Quando um profissional se dedica a construir uma forma diferente de se apresentar a uma vaga, ele já inicia o processo de comunicação com a empresa. Afinal, o currículo é o primeiro acesso que o recrutador tem com o histórico do profissional. Não adianta inovar na apresentação se o conteúdo não estiver adequado ou ter erros e informações falsas” diz o sócio da consultoria de recrutamento Havik, Ricardo Barcelos.

Segundo ele, até recentemente a orientação de recrutadores era de que o currículo contivesse apenas o básico, com breve descrição das atividades e competências e que coubesse em uma página ou duas, no máximo.

Ricardo Barcelos. Foto: Arquivo pessoal

“Porém, com a evolução de ferramentas que adotam inteligência artificial e ciência de dados, o volume de informações não precisa mais ser tão limitado. Pelo contrário, torna-se relevante um material que contenha o máximo de referências sobre a história profissional, pois os sistemas buscam termos técnicos, conhecimentos particulares e certificações específicas. Esses sistema inteligentes estão cada vez mais à disposição dos recrutadores”, afirma.

Segundo ele, sistemas modernos possuem busca por palavras-chave. “Portanto, quanto mais informações reais o profissional inserir no currículo, mais chances o seu perfil tem de se apresentar a uma busca. A interconexão das habilidades poderão ser validadas por meio do cruzamento de dados.”

Barcelos acredita que o modelo tradicional de currículo está com os dias contados. “O mundo mudou. Em plena era tecnológica, como podemos nos apresentar através de um papel pálido e estático? Em pouco tempo, será comum usar plataformas que permitam ao profissional melhorar sua apresentação com vídeos, infográficos, animações, referências dinâmicas sobre suas entregas, inclusive com espaço para contar sobre hobbies e aspectos da vida pessoal, questões cada vez mais presentes nas entrevistas.”

Rodrigo Vianna. Foto: Claus Lehmann/Divulgação

CEO da Mappit, divisão de negócios da Talenses Group focada em início de carreira, Rodrigo Vianna acha importante ressaltar o papel imparcial dos recrutadores no processo seletivo. “Nosso papel é interceder para que a comunicação entre o candidato e a empresa seja efetiva. Por isso, tentamos entender a história por trás do currículo, como ele conta essa história sem perder a sua essência”, diz.

Segundo ele, a forma como o candidato constrói a narrativa em um currículo tem uma individualidade importante. “Esta é a primeira impressão que o candidato passa para a empresa. Por isso, deve ter cuidado e fazer pequenas adequações para evidenciar pontos mais importantes conforme a vaga.”

Psicóloga e sócia da Trajeto RH, Angélica Guidoni acrescenta que muitas pessoas deixam de fora suas habilidades comportamentais para não parecerem arrogantes. “É interessante que o candidato demonstre o impacto que essas habilidades já causaram na empresa ou equipe. Aquele que se coloca como líder, por exemplo, deve incluir em seu currículo o que essa qualidade provocou nas pessoas ao seu redor, como elas se desenvolveram a partir do trabalho desse profissional e os resultados obtidos pela empresa.”

Angélica Guidoni. Foto: Eduardo Melgaço/Divulgação

Diretor da divisão de finanças da recrutadora Talenses, Alexandre Benedetti diz que para empresas de arquitetura, criação e tecnologia, o padrão do currículo costuma ser mais criativo e ter formatos diferenciados. “No entanto, para posições ou empresas em setores mais rígidos, não é usual a utilização de modelos de CV ‘divertidos’, e pode não ser uma boa opção”, pondera.

Cuidados:

Formato
Profissional não deve se prender a um padrão ‘certo’. Cada pessoa tem uma história e um objetivo. O CV deve ter qualidade na apresentação, ser objetivo, claro e ter boa disposição das informações
Atenção
Quem quer inovar precisa ter cuidado para não se equivocar. É preciso conhecer profundamente a cultura da empresa ou da área alvo antes de optar por um currículo diferenciado
Conexão
Hoje, todos os selecionadores recorrem às redes sociais para conhecer melhor o candidato. Cuide da imagem que deseja passar

para o mundo. O seu perfil é uma vitrine e deve ser atualizado
Conteúdo
Além do visual do CV a atenção maior deve ser com o conteúdo, pois é de onde os recrutadores extraem a essência, experiências e identificam se a pessoa tem expertise para a vaga