Da rejeição ao sucesso: para ser inovador é preciso desafiar as ortodoxias

Da rejeição ao sucesso: para ser inovador é preciso desafiar as ortodoxias

O mundo está repleto de ideias que foram menosprezadas e depois se tornaram sucessos retumbantes; no ambiente corporativo, soluções brilhantes podem estar atrás de ideias aparentemente estapafúrdias

Marisa Eboli

23 de dezembro de 2020 | 13h16

Não importa em que área, o mundo está repleto de ideias que foram menosprezadas num certo momento e depois se tornaram sucessos retumbantes. Isso ocorre do futebol à literatura, da música à tecnologia, do cinema à indústria, da moda à ciência. Nos mais diversos setores de atividades não faltam exemplos, sejam eles na esfera individual ou corporativa.

Quando Sartre assistiu ao filme Cidadão Kane, pontificou que nunca faria sucesso na Europa. Errou redondamente! Quando os Beatles participaram de um teste para a Decca Records, em 1962, Dick Rowe disse ao seu empresário Brian Epstein que “grupos de guitarra estão saindo de moda”.

Gisele Bündchen foi rejeitada na primeira agência de modelos para a qual se apresentou por ter nariz grande e sardas. Totalmente fora do padrão estético do mundo da moda. Com suas pernas tortas, sentenciaram que Garrincha nunca daria certo no futebol.

Antes de seu estrondoso sucesso, a música Bohemian Rapsody, da banda Queen, foi ferozmente rejeitada pela gravadora porque durava uma “eternidade”: 6 minutos e 30 segundos. “Qualquer coisa com mais de três minutos as rádios nem programam; três minutos é o padrão!”, foi a resposta que receberam à época.

Por três vezes, a Universidade do Sul da Califórnia recusou-se a admitir Steven Spielberg em sua Escola de Teatro, Cinema e Televisão. J.K. Rowling teve seu livro Harry Potter rejeitado por várias editoras. Cinco anos depois, tornou-se a primeira escritora bilionária.

É também ilustrativo e constrangedor o caso do funcionário da Kodak, desenvolvedor da câmera digital que nunca foi aceita pela empresa. Diz a lenda que até mesmo o famoso café Nespresso foi inicialmente rejeitado pela matriz. Mas após um longo caminho, em todo o mundo, terminou por redefinir a forma como os amantes dessa bebida desfrutam de seu café expresso.

E quem nunca se divertiu ao ver o vídeo de Steven Ballmer, quando presidente executivo da Microsoft, rindo e debochando do iPhone, da Apple: “Quem vai comprar um telefone tão caro que nem teclado tem?”

Esse assunto justificaria uma série de artigos. Não faltariam materiais e casos para contar. Mas qual foi o motivo para retomar esse tema de ideias rejeitadas num determinado momento e que depois se transformam em sucesso? Trato de um exemplo atual e pungente: o drama das vacinas para a covid-19!

O mundo tem acompanhado e comemorado os resultados positivos apresentados pelas primeiras vacinas aprovadas pelas autoridades sanitárias internacionais. Tais vacinas fundamentam-se na eficácia de uma tecnologia inédita denominada RNA mensageiro. De fato, abre as portas para uma nova era na produção de vacinas de modo geral, não apenas para Covid-19.

A cientista húngara-americana Katalin Karikó, que passou a década de 1990 colecionando rejeições ao seu trabalho e agora ganha os holofotes por conta da covid-19. Foto: Carolyn Van Houten/Washington Post

O interessante é que o mRNA foi uma ideia rejeitada por anos. Subitamente, tornou-se uma tecnologia de ponta no combate à covid-19. A Pfizer, uma potência de 171 anos, apostou US$ 1 bilhão nesse sonho. O mesmo aconteceu com uma jovem rival impetuosa a apenas 23 milhas de Cambridge, Massachusetts, onde fica a Pfizer. Moderna, uma empresa de biotecnologia de 10 anos e avaliada em bilhões pelo mercado. Surpreendentemente, não tem um único fármaco licenciado. Porém, está praticamente aprovada sua vacina.

As empresas e seus líderes não poderiam ser mais diferentes. Mas o que elas compartilham pode ser maior do que suas diferenças: ambas estão apostando em uma tecnologia genética que há muito é uma grande promessa: é o chamado RNA mensageiro sintético, uma variação engenhosa da substância natural que dirige a produção de proteínas nas células de todo o corpo. 

Por décadas, os cientistas sonharam com as possibilidades aparentemente infinitas do RNA mensageiro personalizado ou mRNA. Mas transformar a promessa científica em realidade médica foi mais difícil do que muitos presumiram. Embora seja relativamente fácil e rápido de produzir em comparação com à fabricação de vacinas tradicionais, nenhuma vacina ou medicamento de mRNA jamais foi aprovado. A história desta tecnologia tem sido uma saga de perseverança pessoal e começou há três décadas, com uma cientista pouco conhecida que se recusou a desistir.

Trata-se da húngara-americana Katalin Karikó que passou a década de 1990 colecionando rejeições ao seu trabalho, no qual tentava aproveitar o poder do mRNA para combater doenças. No entanto, era um tema complicado demais para receber subsídios do governo ou financiamento de empresas.  

Em 1990, pesquisadores da Universidade de Wisconsin conseguiram fazê-lo funcionar em ratos. Karikó estava convencida de que poderia superar obstáculos e queria ir mais longe. “Todas as noites eu trabalhava e pensava: bolsa, bolsa, bolsa!”, lembra Karikó, referindo-se aos esforços para obter financiamento. “E sempre voltava com não, não, não.”

Em 1995, após seis anos no corpo docente da Universidade da Pensilvânia, ela estava na rota de se tornar professora titular, mas minguando os recursos para custear seu trabalho com mRNA, seus chefes não viam futuro para ela. Retornara então aos degraus inferiores da academia científica. Pensou em ir para outro lugar ou fazer outra coisa. 

Com o tempo, experiências melhores surgiram. Após uma década de tentativa e erro, Karikó e seu colaborador de longa data na mesma universidade (Drew Weissman, imunologista com graduação em medicina e doutorado pela Universidade de Boston) descobriram a solução.

Tal descoberta, descrita em uma série de artigos científicos a partir de 2005, passou despercebida no início. Mas os estudos de Karikó e Weissman chamaram a atenção de dois cientistas importantes – um nos Estados Unidos e outro no exterior – que mais tarde ajudariam a fundar a Moderna e a futura parceira da Pfizer, a BioNTech.

Hoje a tecnologia não só é reconhecida como inovadora, como também se cogita que Karikó e Weissman merecem o Prêmio Nobel de Química. E o mundo esperançoso agradece!

É curioso notar que, também na área empresarial, por trás de ideias aparentemente estapafúrdias podem estar soluções brilhantes para problemas críticos. Quantas ideias rejeitadas ainda existem nas gavetas e nos porões das organizações? Mesmo num cenário empresarial onde nunca se falou tanto em inovação, os critérios de avaliação de novos projetos e pesquisas muitas vezes continuam atrelados ao passado.

Gary Hamel, especialista e consultor internacional em gestão, e professor de estratégia internacional na London Business School, no artigo em parceria com Nancy Tennant (Os 5 requisitos de uma empresa verdadeiramente inovadora, de 2017, publicado pela Harvard Business Review) enfatiza que colaboradores das empresas devem pensar como inovadores, o que significa, entre outros aspectos:

  • Desafiar ortodoxias invisíveis: como os executivos leem as mesmas revistas, vão às mesmas conferências e conversam com os mesmos consultores, depois de um tempo, todos pensam da mesma forma. Inovadores, pelo contrário, são pessoas que questionam, contrariam!
  • Endereçar necessidades “desarticuladas”: os clientes têm as suas próprias ortodoxias, então pedir-lhes o que eles querem raramente produz um novo insight. Inovadores têm que observar, têm que ser um antropólogo implacavelmente curioso.

Para a inovação mudar o futuro é mandatório que o mindset das pessoas também mude. Não há como transformar o futuro com os mesmos parâmetros de sucesso do passado. Que venha 2021 repleto de esperança, inovação e prosperidade!

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br).

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