Defender meritocracia é passar recibo de desinformação e insensibilidade

Defender meritocracia é passar recibo de desinformação e insensibilidade

Em nações desiguais como o Brasil, onde o 1% mais rico detém 49,6% da renda, o conceito de meritocracia é falho; se apenas o esforço basta, seria ele então característica exclusiva do homem branco?

Ricardo Sales

08 de dezembro de 2021 | 10h02

Meritocracia foi palavra de ordem nas empresas brasileiras por anos a fio. Não mais. Aos poucos, começam a surgir, aqui e ali, organizações com visão de mundo mais arejada e lideranças mais conscientes do contexto social do nosso País. Trata-se, é verdade, de um movimento ainda restrito às empresas engajadas na agenda de diversidade e inclusão, mas o debate vem ganhando musculatura.

Pudera. Defender a meritocracia com unhas e dentes no mundo de hoje é passar recibo de desinformação ou insensibilidade. O conceito é falho por inúmeras razões, a começar pelo fato de que as pessoas partem de lugares muito diferentes, sobretudo em nações profundamente desiguais como a nossa. No Brasil, em que o 1% mais rico detém 49,6% da renda nacional, segundo relatório do Credit Suisse, um pequeno grupo tem acesso a quase tudo, e a vasta maioria não tem oportunidade alguma.

Acreditar que é possível competir de maneira igualitária em condições assim desiguais é delírio, cinismo ou uma mistura dos dois. 

O contexto de pandemia deixa isso ainda mais evidente. Durante mais de um ano, enquanto alguns privilegiados puderam seguir estudando, a vasta maioria dos alunos teve dificuldade para acompanhar as aulas online por não contar com estrutura tecnológica mínima. Na hora de entrar na faculdade ou começar a trabalhar, é justo colocá-los para concorrer nas mesmas condições?

Ninguém pediu para nascer homem, branco, heterossexual ou de classe média, mas, se você tem essas características, a sociedade vai lhe conferir vantagens estruturais. Foto: Unsplash/@huntersrace

Um problema central no mito da meritocracia é a crença de que basta o esforço individual para se conquistar algo, como se motivação ou trabalho duro resolvessem tudo. Esses fatores são importantes, sem dúvida, mas existem também as condições objetivas relacionadas ao contexto social, aos preconceitos estruturais e ao acesso a oportunidades. 

Os defensores da meritocracia costumam utilizar histórias de superação para validar seu argumento. Assim, partem de casos isolados ou narrativas individuais para “provar” que o esforço resolve tudo. Não conseguem explicar, porém, por que no Brasil as mulheres representam apenas 13,7% dos cargos de liderança, de acordo com o Instituto Ethos, mesmo contando com escolaridade maior que a dos homens desde 1999. Elas não são dedicadas o suficiente?

No caso dos negros, o número na chefia não chega a 5% nas 500 maiores empresas do País. Se apenas o esforço basta, seria ele, então, uma característica exclusiva do homem branco? Ou, na verdade, este se privilegia de uma estrutura social e um modo de trabalhar inteiramente moldado para si?

Contestar a meritocracia como ideologia não significa dizer que as pessoas não têm méritos.

Dificilmente, alguém chega a uma alta posição no meio corporativo sem habilidades ou formação que justifiquem sua ascensão profissional.  

Várias dessas pessoas, inclusive, enfrentaram adversidades ao longo da vida.  Na maior parte das vezes, porém, contaram com privilégios sociais, raciais, econômicos ou de gênero que a colocaram em posição mais vantajosa que a maior parte da população. 

Privilégio não é sobre culpa. É sobre responsabilidade. Ninguém pediu para nascer homem, branco, heterossexual ou de classe média. Mas uma vez que se tem essas características, a sociedade, querendo o sujeito ou não, vai lhe conferir vantagens estruturais. Refletir sobre isso é um passo importante para a construção de um meio corporativo mais inclusivo e de um País menos desigual. 

Ricardo Sales é sócio-fundador da consultoria Mais Diversidade, mestre pela Universidade de São Paulo e professor na Fundação Dom Cabral (ricardo@maisdiversidade.com.br).

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