Demissão ‘humanizada’ precisa ir além do discurso para ajudar funcionário
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Demissão ‘humanizada’ precisa ir além do discurso para ajudar funcionário

Para ajudar demitidos e cuidar da própria imagem, empresas estendem plano de saúde, dão ajuda financeira e cedem equipamentos, além de fazer rede de indicações para minimizar danos a ex-funcionários

Anna Barbosa

02 de agosto de 2020 | 06h04

Era para ser mais um dia normal de trabalho. Marcos (nome fictício) acordou, tomou seu café e se preparou para reunião com a equipe. Recebeu um pedido de sua chefe para que entrasse no link enviado. Era um comunicado sobre a demissão de 1.300 colaboradores. Ao acessar seu e-mail corporativo, viu que fazia parte desse grupo.

O funcionário, que preferiu não ser identificado para não sofrer retaliações, havia largado o último emprego para ser contratado pela fintech Stone em abril. Parte do seu trabalho era ajudar no recrutamento de outras pessoas. “Eu perguntava para minhas chefes se a empresa era financeiramente saudável para aguentar as contratações. O que era dito era que demissões não eram uma possibilidade, que seriam a última opção.” Menos de dois meses depois, Marcos foi demitido.

Para minimizar os danos (incluindo emocionais) aos 1.300 demitidos (20% da equipe), a empresa publicou em seu perfil no Linkedin os benefícios aos ex-funcionários, como plano de saúde por quatro meses, apoio financeiro proporcional ao tempo em que estiveram na empresa, vale-alimentação por três meses, doação de equipamentos como computadores e celulares corporativos, carta de recomendação, conta LinkedIn Premium e parcerias com empresas que estavam contratando, como OLX e Loft.

O pacote de benefícios faz parte do que o mercado tem chamado de demissão humanizada, uma expressão que ganha relevância com a alta de demissões e a taxa de desemprego (que chegou a 12,9% segundo o IBGE) durante a pandemia do novo coronavírus. Do lado das empresas, a ajuda aos demitidos também é uma forma de manter a reputação da corporação, já que ela não tem obrigação de dar esse tipo de suporte.

Juliana Amarante, advogada trabalhista do escritório Souza, Mello e Torres, explica que, legalmente, aqueles que foram contratados durante a pandemia e desligados no mesmo período não têm direito a benefícios extras. “O desligamento humanizado não é obrigatório legalmente, mas tem um impacto social importante”, conta. “Além disso, quando as empresas fazem demissão humanizada, o empregado pensa duas vezes antes de ajuizar uma demanda trabalhista.”

Segundo a Stone, a empresa vinha numa crescente e tinha processos seletivos em andamento por volta de abril. “No entanto, ficou claro que o futuro seria bem mais incerto, sem clareza da retomada, e assim tomamos a decisão de suspender a maior parte das contratações”, diz, em nota.

Lucas Melo, ex-funcionário da MaxMilhas, que foi admitido pela Hotmart. Foto: Acervo Pessoal

Como base do conceito de demissão humanizada, o tratamento empático é essencial, em que o contratante coloca-se no lugar do colaborador. Além da forma de tratamento e dos benefícios monetizáveis, indicações em redes sociais e criação de banco de talentos também integram a lista nesse tipo de demissão.

Para Celson Hupfer, psicólogo e doutor em psicologia social, a pandemia é causadora de um grande medo e, quando associada a outra questão (como a demissão), o processo fica mais doloroso, tanto para quem demite quanto para quem é demitido. “A demissão tem uma série de complicadores, porque o trabalho não tem só uma função econômica, mas também faz parte da realização de um grupo.”

No caso da MaxMilhas, que atua no setor de passagens aéreas e precisou reduzir 42% da sua equipe, a queda brusca no setor de viagens foi emocionalmente compartilhada entre funcionários e dirigentes. “Nós não sentíamos que surgiria uma demissão, mas eles eram muito transparentes. Estávamos sempre cientes do que estava acontecendo, chegamos a 9 mil cancelamentos por dia”, conta Lucas Melo, ex-colaborador, segundo quem em abril o líder da empresa começou a chorar na frente de todos ao explicar o cenário de cortes.

Luiza Rubio, gerente de Gente & Gestão da MaxMilhas, conta que foi um momento inesperado. “Nós estávamos crescendo. E quando tudo aconteceu, nossa preocupação foi como acompanhar e ajudar nesse momento que é tão difícil.”

Para os funcionários desligados, a MaxMilhas deu suporte para recolocação no mercado, plano de saúde e ajuda de custo para algumas pessoas do time. Além disso, criaram uma lista dos talentos que saíram e fizeram um guia de ações com foco em reposicionamento.

Lucas conta que, 24 dias após sua demissão, foi contratado na Hotmart. “Nunca vi uma corrente tão bonita. CEOs me chamaram oferecendo cursos, pessoas que trabalharam no RH e estavam em outra empresa também me indicaram.”

Anúncio de demissão via CEO

Empresas globais como Linkedin e Airbnb optaram por anunciar suas demissões por meio do pronunciamento de seus respectivos CEOs. O Linkedin afirma que, além do suporte financeiro, que varia de acordo com as práticas específicas de cada país onde tem escritório, continuaria dando suporte nos âmbitos de: saúde (6 meses de assistência médica); transição de carreira (programa de 6 meses) e apoio tecnológico (os funcionários puderam ficar com celulares e laptops da empresa).

O Airbnb tomou medidas similares, onde todos os empregados desligados têm direito a pelo menos 14 semanas de pagamento; seguro saúde até o final de 2020; suporte na recolocação e também poderiam continuar com seus computadores. Contatadas pela reportagem, tanto Airbnb quanto Linkedin não quiseram se pronunciar.

Outra empresa que adotou pacote de medidas para dar um suporte mais humanizado para seus ex-colaboradores foi a Uber. Salário adicional, convênio médico estendido, doação de equipamentos, criação de banco de talentos, consultoria para recolocação e uma espécie de “apadrinhamento” para a indicação de vagas foram as principais ações da empresa.

Natália Antonio, que fazia parte do time da Uber e foi contratada pela Amazon. Foto: Acervo Pessoal

Diana Medeiros, ex-funcionária da Uber, diz que a demissão não foi uma surpresa. “Eu estava em uma posição que me dava a possibilidade de acompanhar de perto todos os impactos que estavam acontecendo. É uma situação muito incomum e, para cuidar da saúde do negócio, ações do tipo são necessárias.”

Diana fala que o suporte da empresa após a demissão, em maio, deu tranquilidade para escolher os próximos passos e conseguir recolocação na empresa Liv Up. “Estou há um mês na nova empresa, que tem uma cultura alinhada aos meus projetos pessoais, e isso foi possível devido ao apoio que a Uber me ofereceu.”

Natália Antonio, que também foi demitida da Uber, partilha do mesmo sentimento de Diana. “Por mais que tenha sido difícil, esse pacote ajudou para que o processo fosse mais tranquilo”, diz ela, que destaca a importância de ter ficado com equipamentos de trabalho para as entrevistas que fez até ser realocada neste mês, na Amazon.

O psicólogo Celson Hupfer explica que a maior parte das empresas que conseguiram aplicar medidas como essas (que demandam custos) são aquelas que já possuem uma posição diferenciada tanto para o mercado quanto para dentro de sua cultura. “Essas empresas, normalmente, são mais desejadas a se trabalhar. São vistas de forma diferente não só no âmbito do trabalho, mas também no do consumo.”

Para a advogada Juliana Amarante, os frutos são colhidos depois. “A imagem de proteção ao empregado é cada vez mais importante. Muitas pessoas estão indo trabalhar não só pelo salário, mas por benefícios, contexto moral e sensação de confiança e bem estar com a empresa.”

* Estagiária sob a supervisão da editora de Carreiras & Empregos, Ana Paula Boni

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