“Dificuldades me ajudaram pra caramba”

“Dificuldades me ajudaram pra caramba”

Claudio Marques

18 de novembro de 2013 | 13h45

Claudio Marques

Formado em economia pela FEA-USP, onde também obteve o seu mestrado, Hyung Mo Sung, de 54 anos, é CEO de seguros gerais da companhia suíça Zurich Seguros, onde entrou há dois anos. Ele diz que, ao longo de sua carreira, aprendeu que gosta mesmo é de desafios, e que é um executivo de implantação, de desenvolvimento. O gosto pelo desafio talvez seja consequência das dificuldades que Sung, nascido na Coreia do Sul, enfrentou até os tempos de estudante. “Agora, eu olho para trás e digo que isso me ajudou ‘pra caramba’. Ajudou a ter pele dura, a fortalecer.” E, com base na sua trajetória, dá um conselho: “Às vezes, quem está numa situação difícil, pode imaginar que nunca vai chegar a uma posição melhor. Não é verdade”. A seguir trechos da entrevista.

Você começou sua carreira nessa área de seguros?
Não. Eu me formei em economia e depois fiz mestrado em economia, na USP. Comecei fazendo análise econômica em um banco. De lá, fui para a seguradora Vera Cruz, onde montei a área de investimentos – trabalhava com renda fixa, renda variável, mercado de derivativos.

Em que ano?
Comecei na seguradora em 1988. E até 1992 exerci esse papel de investidor. Naquele ano, a Vera Cruz foi adquirida pelo grupo espanhol Mapfre. Depois de alguns meses que o grupo estava no Brasil, eu recebi um convite para uma conversa com o presidente da Mapfre no Brasil e com o diretor da América Latina. Na conversa, surgiu a pergunta se eu teria interesse em trocar de área. Na ocasião eu disse sim, porque, por mais importante que a área financeira fosse, ela não era o “core” da companhia. Portanto, eu tinha uma perspectiva de desenvolvimento limitada. Ao mesmo tempo, eu disse que não conhecia nada de seguros, porque apesar de eu estar numa companhia de seguros, eu só havia tido contato com o mundo financeiro. E para minha surpresa, depois de duas semanas, ele me disse que eu seria diretor técnico da seguradora. Eu agradeci e liguei para um colega que já tinha trabalhado em seguradora e perguntei: ‘O que faz um diretor técnico numa seguradora?’ Ele me disse que eu iria fazer preço, produto etc. E aí começou minha aventura pelo mundo do seguro. Me mandaram para a Espanha, lá eu tive uma imersão intensiva em seguros, voltei para o Brasil e aí eu comecei a trabalhar com seguro.

Foi o momento mais desafiador da sua carreira?
Uma coisa interessante é que, quando eu fui para a seguradora e comecei a trabalhar com investimentos, eu nunca tinha feito isso na vida. E me convidaram para ser o responsável por investimento, montar uma mesa de aplicação. Passei dois meses tendo pesadelos. Trabalhei na seguradora por cerca de 18 anos e mais ou menos a cada quatro anos eu mudei de área. Foi uma experiência muito rica para mim.

Como foram esses anos?
Os primeiros quatro anos foram na área de investimento. O segundo período foi como diretor técnico sem nunca ter sido antes. Depois, me tornei diretor comercial sem nunca ter vendido nada. Fui diretor de marketing, planejamento, diretor de produtos e, enfim, fui promovido a vice-presidente de canais.

Foram um aprendizado e um desafio constantes?
Sempre. Porque fundamentalmente, fui criar áreas, processos, coisas que não existiam. Ou reconstruir. Aí, em 2006, recebi convite de uma seguradora japonesa (Mitsui Sumitomo) para reestruturar a operação deles no Brasil. Foi outra experiência, outro aprendizado muito grande. Em 2011, aceitei o convite da Zurich.

O que você aprendeu a seu respeito ao longo da carreira?
Que o que me motiva é o desafio. Sou um cara de implantação, de desenvolvimento. Não sou alguém de manutenção.

O que é mais difícil na vida profissional?
É quando eu não consigo enxergar nenhuma perspectiva. O difícil é quando em qualquer circunstância, independentemente do tamanho do problema, eu não consigo enxergar uma luz, por menor que seja.

E o que você faz nesse caso?
Nesses momentos, uma pessoa que me ajuda muito é minha mulher. Eu compartilho a situação com ela, e ao falar meus problemas para ela, de repente vem uma luz à minha mente. A partir daí, eu começo a trabalhar muito com a equipe. E eu parto do seguinte princípio: se o meu conhecimento é do tamanho de uma laranja, não adianta contratar pessoas que saibam exatamente o que eu sei, porque o nosso conhecimento somado vai continuar do mesmo tamanho. Eu preciso de pessoas que saibam coisas que eu não sei e que somando o nosso conhecimento, com certeza ele vai ser maior. É um primeiro princípio que eu adoto na minha maneira de atuar.

Há outros?
Segundo, eu preciso saber o suficiente para poder fazer perguntas. Não adianta eu querer saber mais do que todos os meus colaboradores. Se fizer as perguntas corretas e estiver cercado das pessoas que sabem a resposta, então, eu estou feito. Terceiro, a responsabilidade pela decisão é sempre minha. Eu pergunto, alguém me dá as respostas, mas a responsabilidade pela decisão vai ser sempre minha, porque não posso imputar a outro uma responsabilidade que é minha. Então, a grande questão é você se cercar de pessoas em quem possa confiar. Estando com pessoas em quem confia, você vai se sentir muito livre, à vontade, para fazer as perguntas, meditar sobre as respostas que deram e tomar suas decisões.

É confiança no sentido do conhecimento e também confiança como pessoa?
Sem dúvida. Eu costumo dizer aqui para o pessoal que confiança se assenta em dois pilares: comportamento ético e competência. Não adianta ser ético e não ter competência e não adianta ter competência e não ser ético.

Você já disse que sua vida não foi fácil.
Sim. Às vezes, uma pessoa olha para mim, sabendo que sou CEO de empresa e que estudei na USP, e imagina que eu tive uma vida confortável do ponto de vista material. Mas eu nasci na Coreia, vim para o Brasil em 1966, sou imigrante, fomos morar no interior do Paraná. Cheguei a São Paulo em 1979 e comecei a trabalhar com 13 anos e estudava num colégio estadual noturno. Quando estudava na USP, eu morava em São Miguel Paulista e ia de ônibus para a faculdade. Eram 2h20 para ir e mais 2h30 para voltar. Agora, eu olho para trás e digo que isso me ajudou ‘pra caramba’. Ajudou a ter pele dura, a fortalecer. Ao mesmo tempo, às vezes, quando você está numa situação mais difícil pode imaginar, justamente por causa da dificuldade, que nunca vai chegar a uma posição melhor. E isso não é verdade.

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