Diversidade abre portas para refugiados
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Diversidade abre portas para refugiados

Empresas oferecem capacitação e participam de programa para recolocação de pessoas que foram obrigadas a deixar países de origem

CRIS OLIVETTE

11 Maio 2018 | 09h21

Lucia Mbuya Zelesa. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

A valorização da diversidade tem contribuído com a inserção de refugiados no mercado de trabalho. Companhias que aderiram ao Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR) já contrataram 269 pessoas vindas de Angola, República Democrática do Congo, Nigéria, Síria e Guiné-Bissau.

“Temos muito foco em diversidade e sabemos quanto a inclusão social é importante para os refugiados. Essas pessoas têm outra forma de pensar e vieram de realidade bastante adversa, essa experiência de vida é enriquecedora para as equipes. Por isso, nos engajamos no projeto”, diz a diretora de RH da Lojas Renner, Clarice Martins Costa.

A empresa oferece os cursos de atendimento e vendas no varejo, e de modelagem e costura, para preparar as refugiadas para o mercado de trabalho, não necessariamente nas empresas do grupo Renner, que inclui a Camicado e Youcom. “Hoje, temos 20 refugiadas trabalhando em lojas da capital paulista.”

Uma delas é Lucia Mbuya Zelesa, contratada como operadora de caixa na Camicado. A jovem de 20 anos está no Brasil há quase três anos e veio da República Democrática do Congo, com os pais e oito irmãos. “Meu país tem muitos problemas políticos e o que nos trouxe ao Brasil foram ameaças sofridas por minha família”, conta.

No Brasil, ela concluiu o terceiro ano do ensino médio e já se formou no curso tecnológico em RH. “A partir de agosto, quero iniciar pós-graduação.”

Lucia foi a primeira da família a arrumar emprego, em seguida, a irmã que acabou de fazer 19 anos. “Tenho outras duas irmãs que estão participando do projeto Jovem Aprendiz.”

Clarice diz que as pessoas que trabalham nas áreas que recebem refugiadas são orientadas a acolher as novas colegas e ajudá-las na adaptação. “Temos um trabalho com os colaboradores para que elas se sintam acolhidas, acariciadas e integradas na empresa.”

Outra organização que tem política e cultura de inserção da diversidade é a seguradora Banco Brasil/Mapfre.

Jisley Bontempo. Foto: Arquivo Pessoal

“Um dos pilares do conselho de diversidade tem foco em raça e etnia. Entendemos que ajudar no processo de inserção de refugiados faz com que a empresa contribua com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, processo no qual somos bastante engajados. Além disso, é interessante para o negócio trazer pessoas qualificadas para compor as equipes. Muitos refugiados falam diversos idiomas e têm qualificação”, afirma a gerente executiva de experiência do colaborador, Jisley Bontempo.

A gerente conta que juntamente com o PARR e outras empresas realizaram programa de formação de refugiados para posterior contratação. “Queríamos ajudar mais na inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. Formamos 24 pessoas que foram contratadas por nós e por outras empresas.”

Jisley afirma que a recepção e a forma como eles se inseriram no do dia a dia tem sido positiva. “Recebemos avaliações muito boas tanto dos gestores quanto dos pares de trabalho. Acho que conhecer uma realidade de vida tão diferente de um colega de baia faz com que as pessoas criem outras perspectivas e isso é importante. Conviver com histórias tão diferentes das que vivenciamos tem sido um aprendizado diário.”

Contratado há pouco mais de um ano pela Mapfre, como analista de operações, Francesco Kabwit Tshitang, refugiado do Congo, tem 21 anos e veio sozinho para o Brasil, em 2014.

“Meu pai ficou no Congo e minha mãe pediu refugio na França. No começo foi muito difícil, porque não falava português. Fiz curso do idioma e aos poucos consegui me adaptar.”

Francesco Kabwit Tshitang. Foto: Paulo Pepe

O jovem já trabalhou como garçom e ajudante de cozinha. Agora, quer fazer faculdade de tecnologia e irá prestar vestibular no meio do ano. “O curso que escolhi é análise e desenvolvimento de sistemas.”

Projeto. Fundador da consultoria jurídica de imigração Emdoc, João Marques da Fonseca teve a ideia de criar o PARR após participar de palestra sobre refugiados.

“O tema foi tratado com enfoque na dor e não no trabalho. Como sempre me inspirei na música do Gonzaguinha ‘e sem o seu trabalho, o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre, se mata. Não dá para ser feliz…’, criei o projeto e apresentei à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Assinamos o contrato e em novembro de 2011 lançamos o programa.”

Fonseca diz que atualmente 245 empresas participam do projeto, 715 pessoas foram impactadas com os cursos e 269 foram contratadas.

‘O comprometimento deles é contagiante’

A recepcionista bilíngue, Sylvie Mutiene, de 34 anos, veio da República Democrática do Congo para o Brasil em dezembro de 2013, com dois filhos, de dois e quatro anos. Hoje, tem também uma filha.

“Quando deixei meu país queria ir para a Europa. Acontece que ao desembarcar já estava no Brasil. Falo que foi o Brasil que me escolheu, porque desde que estou aqui não fiquei parada, claro que sofri muito, mas parece que estava no meu destino para conseguir as coisas.”

Lilian Rauld (à dir.) e Sylvie Mutiene. Foto: Ana Rovati

Em seu país, Sylvie era advogada, mas aqui não conseguiu validar seu diploma e teve de trabalhar como faxineira em casa de família, assistente de serviços gerais em escola infantil, ajudante de cozinha e copeira em hospital.

“Quando levei meu currículo para a Sodexo, pensei em arrumar colocação como copeira. Mas na hora da entrevista, a recrutadora viu que falo francês, português, lingala – língua nativa de meu país, e dialeto congo. Então, ela me indicou para o cargo de recepcionista bilíngue e fui contratada. Foi muito bom, porque a renda é maior e o trabalho menos pesado”, conta.

Coordenadora de diversidade e inclusão da Sodexo, Lilian Rauld, conta que a empresa apoia a iniciativa da ONU Mulher que, em 2016, criou o programa Empoderando Refugiadas.

“Desde então, contratamos cinco pessoas. Mas também participamos de outras iniciativas com o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR).”
No total, a empresa tem mais de 70 refugiados e imigrantes atuando em várias unidades instaladas pelo País. Ela conta que já contratou muitos haitianos, que vieram para o Brasil em 2010, após o terremoto que devastou o país.

“Temos muitas pessoas do Congo, que vive guerra política há vários anos, além de pessoas de Angola, Irã e Síria, países que vivem situação de guerrilha ou de pressão política e religiosa.”

Lilian afirma que a Sodexo tem a diversidade em seu DNA. “Estamos em 80 países e temos 500 mil colaboradores no mundo, portanto, temos uma diversidade cultural imensa.”

Segundo ela, a empresa considera que a diversidade proporciona inovação ao negócio e grande aprendizado aos colaboradores. “É uma oportunidade para os refugiados e também para a companhia, porque os colaboradores gostam de ter ao seu lado pessoas com diferentes formas de ser e que compartilham sua riqueza cultural.”

Ela ressalta que o comprometimento dessas pessoas é enorme. “A gratidão que eles têm pela oportunidade dada pela empresa faz com que as pessoas que estão ao redor também se motivem, o comprometimento é contagiante e isso é fantástico para a companhia.”

Segundo ela, a Sodexo dá oportunidade de crescimento na carreira para quem tem capacidade de ocupar novos postos. “Eles ocupam funções desde oficial de serviços gerais até recepcionista bilíngue, como é o caso de Sylvie, que trabalha em uma das unidades de negócios da empresa”, diz.

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