Diversidade etária é desafio em todo o mundo e deveria envolver o governo

Diversidade etária é desafio em todo o mundo e deveria envolver o governo

No Japão, políticas recentes incluem proibição de aposentadoria compulsória e sistema de recontratação de aposentados; para especialista, recuo nas admissões dos maduros na pandemia mostra retrocesso

Mórris Litvak

14 de setembro de 2020 | 13h30

Tenho observado empresas retomando os negócios, porém ainda assim dispensando os mais velhos em função do grupo de risco da covid-19. Levando em conta somente a idade e desconsiderando diversos outros fatores importantes como o estado de saúde, o comportamento de risco e o acesso a atendimento de qualidade, essas organizações focam nos jovens e escancaram o preconceito etário, muito presente na nossa sociedade, mas ainda mais forte no mundo corporativo.

O êxodo dos 50+ do mercado de trabalho não é novidade, mas ao contrário do que deveriam, as empresas estão reforçando o etarismo e esquecem que estamos passando por um acelerado envelhecimento populacional.

Após uma grande onda de demissões nos primeiros meses de pandemia, algumas empresas começam a recontratar profissionais com a gradual retomada da economia. Entretanto, dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram que o número de desligamentos entre os trabalhadores mais velhos superou as admissões em 37.610 postos somente em julho no Brasil.

No acumulado de 2020, os 50+ respondem por quase 390 mil dos mais de 1 milhão de postos perdidos no Brasil em função da pandemia do novo coronavírus.

E não é só por aqui: segundo uma pesquisa do Pew Research Center, think tank americano, a força de trabalho dos maturis vem diminuindo em média 2,2 milhões a cada ano desde 2010, ou cerca de 5.900 diariamente nos Estados Unidos. E a pandemia pode empurrar ainda mais esses profissionais para fora do mercado.

Evento MaturiDay, com público sênior, no Rio de Janeiro, em novembro de 2019. Foto: Renato Silva

Apesar de muitas funções atualmente estarem sendo executadas remotamente, receio que estamos dando passos para trás no combate a esse preconceito que passa por todas as classes sociais, raças, homens e mulheres. Isso porque nos últimos anos foi nítido o crescimento do interesse de grandes empresas a respeito de longevidade e integração geracional, até porque essas empresas percebem que, com a inversão da pirâmide etária no Brasil, seu público consumidor também está envelhecendo.

Essa busca e esse interesse das organizações nesse assunto perderam força com a pandemia e vimos a diversidade etária ficar em segundo plano ou mesmo congelada, justamente num momento em que a experiência e a resiliência dos maduros pode ser crucial para os negócios sobreviverem.

A saída dessa geração do mercado traz muitos impactos. Segundo o Federal Reserve, a aposentadoria dos “baby boomers” pode causar um declínio de 2,8 pontos percentuais no crescimento da produtividade entre 2020 e 2040. Uma retomada dos mais maduros só é esperada após a criação de uma vacina contra a covid-19. Enquanto isso, a troca geracional, tão importante para os times que buscam diversidade de ideias e experiências, gerando inovação, perde espaço.

Diversidade etária em grandes empresas

Felizmente há quem consiga ter um olhar mais amplo e se diferenciar dessa realidade. Pela primeira vez, a Great Place to Work Brasil mapeou a diversidade etária em empresas brasileiras. O resultado, que foi apresentado no mês passado em parceria com a Maturi, mostrou que 54 empresas se inscreveram para o prêmio “Destaque GPTW 50+” e foram escolhidas as 5 que possuem as melhores práticas em relação à inclusão de colaboradores com 50 anos ou mais: Sabin Medicina Diagnóstica, Takeda, Cisco, Bristol Myers Squibb e Tokio Marine Seguradora. A pesquisa elencou as melhores práticas de inclusão de diversidade geracional nas empresas nos quesitos contratação, aprimoramento da diversidade etária, preparação para a aposentadoria e benefícios e desenvolvimento.

Todas essas empresas possuem um trabalho ativo de combate a discriminação e promoção da diversidade. Em 40% das premiadas, há uma política oficial de não discriminação relacionada à idade. Não à toa, elas têm somente 5% de taxa de rotatividade, bem menor que a média do mercado, atestando que o comprometimento dos maduros influencia toda a equipe.

Os números ainda são tímidos e a maior parte dos colaboradores maduros dessas empresas são profissionais com longo tempo de casa. Mas já é animador saber que há exemplos a serem seguidos e um reconhecimento para essas iniciativas foi lançado, com a expectativa de que o número de empresas se inscrevendo para esse prêmio cresça muito nos próximos anos.

A diretora da GPTW, Daniela Diniz, diz que “fazer uma lista de corte, colocando os mais experientes na linha de frente não é apenas injusto, é pouco estratégico. Afinal, ao eliminar os poucos representantes da geração baby boomer você aumenta ainda mais a lacuna histórica, minando parte da diversidade importante ao negócio.”

Podemos nos inspirar com exemplos como Japão, que há décadas vem passando pelos desafios relacionados ao trabalho de profissionais maduros. Fran Winandy, parceira da Maturi na sensibilização das empresas sobre etarismo e estudiosa do assunto, conta que lá há um esforço do governo em ajudar a resolver essa questão. Ela cita que “algumas políticas recém implantadas como a proibição do sistema de aposentadoria compulsória, o aumento da idade de aposentadoria e um sistema para recontratar funcionários aposentados são exemplos práticos de quem hoje já sofre com a falta de mão de obra.”

Por fim, faço minhas as palavras do especialista em carreiras Rafael Souto. Segundo ele, “o fim do preconceito em relação à faixa etária deve acontecer. A sociedade tem se mostrado cada vez mais disposta a coibir toda forma de discriminação, seja de etnia, religião ou gênero. Chegou a hora de combatermos o etarismo. Ele não é compatível com o novo mundo do trabalho.” Até porque, os maduros estão cada vez mais conectados e preparados. E, vivendo mais, todos nós precisaremos trabalhar por mais tempo.

* Mórris Litvak é fundador e CEO da MaturiJobs e da MaturiServices (plataformas de recolocação e desenvolvimento profissional para pessoas 50+), graduado e pós-graduado em engenharia de software pela FIAP de São Paulo (morris@maturijobs.com).

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