“É fundamental manter a curiosidade”

Claudio Marques

18 de setembro de 2013 | 08h07

Claudio Marques

Aos 48 anos, o italiano Angelo Mazzochi já tem uma vasta experiência internacional de carreira na área da tecnologia da informação, exercida tanto em empresas do setor com em consultorias. Nestas últimas companhias, a atuação começou pelos Estados Unidos, em 1991 na Ernst & Young, quando deixou Milão. De Chicago voltou para Milão e realizou vários projetos na Europa. Em 1999, se estabeleceu na filial de Belo Horizonte da consultoria. Em 2002, mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na Bearing Point, outra consultoria, como manager director até 2005. Depois, foi para Value Team, voltada para a área de TI. Com a aquisição desta última pela NTT Data, passou a vice-presidente de vendas e entregas desta companhia. E este ano tornou-se CEO no Brasil da organização, que é o braço de TI da gigante japonesa de US$ 130 bilhões e que tem mais de 200 mil funcionários. Somente a NTT Data tem 60 mil funcionários. A empresa está instalada no Brasil há somente dois anos. E tem 700 colaboradores espalhados por três cidades. “É um grande grupo, embora não seja um nome muito conhecido – os japoneses são low profile nas atividades de marketing”, diz Mazzochi, cujo desafio agora é expandir a atuação da companhia no Brasil. A seguir, trechos da entrevista.

Sua trajetória começa pela Itália, passa pelos EUA e continua no Brasil. O que o atraiu aqui?
A chegada ao Brasil não foi planejada como muitas coisas que ocorrem na vida. Na verdade, eu comecei a trabalhar bastante cedo, com 18 anos, agora tenho 48, e durante uma década trabalhei na Itália com tecnologia. Aquele era um período muito fértil, do ponto de vista da tecnologia da informação. Havia demanda muito grande de serviços e pouca oferta. Portanto, era muito fácil ser empreendedor naquele contexto. Mas depois reparei que faltava uma dimensão internacional na minha formação, na minha experiência profissional.

E aí decidiu ir para o exterior?
Eu tinha alguns contatos em empresas de consultorias internacionais e aproveitei para procurar trabalho em companhias nos Estados Unidos. Daí, trabalhei em organizações de consultoria internacionais nos Estados Unidos e, depois, em vários países da Europa. Também vim para a América Latina em projetos e ainda tive algumas experiências no oriente. Até que, afinal, apareceu uma oportunidade de trabalho mais estável – e desafiadora – aqui no Brasil. Eu consegui entrar em contato com a realidade do mercado de tecnologia da informação no Brasil e aqui me estabeleci.
Então, esse começo na Itália também foi nessa área da TI?Sim, eu sempre trabalhei com computação e tecnologia da informação, evidentemente com diversos focos ao longo da carreira, mas a tônica sempre foi a mesma.

Esse trabalho lá na Itália era numa empresa sua?
Bem no comecinho, trabalhei com empresas em automação industrial, de automação de processos. Depois, com outros sócios, fundei uma companhia de desenvolvimento de softwares e integração de sistemas, que durou quase sete anos.

Você foi na mesma área quando migrou para consultoria?

Na verdade, o objeto de trabalho não mudou muito, afinal o mercado de tecnologia da informação tem um denominador comum que é o desenvolvimento de projetos e de sistemas. E, independentemente do fato de tocar essas atividades como empreendedor ou numa consultoria, elas têm similaridades muito forte. Portanto, a natureza do trabalho não mudou muito, o que mudou muito, evidentemente, foi o contexto cultural, em primeiro lugar, e depois o fato de entrar numa grande multinacional de serviços, onde continuava sendo apreciado o meu espírito empreendedor. Isso me permitiu enfrentar desafios mais complexos, como tamanho e como complexidade tecnológica, e me aproximar ainda mais de contextos culturais diferentes.

Essas mudanças também foram importantes em termos de aprendizado de gestão?
Sem dúvida. O fato de conhecer grandes iniciativas com dimensão internacional foi fundamental para o meu crescimento profissional. De um lado, pelo contato com diversas culturas e metodologias de trabalho, e depois pela riqueza de entrar em contato com profissionais de diversos países.

Qual foi o momento mais desafiador em sua trajetória?
O grande desafio ao longo da minha trajetória aqui, e motivo de grande satisfação, foi, quando estava em outra companhia, na condução de um projeto na Petrobrás, o Sinergia, de implantação da solução SAP na maioria dos processos críticos da empresa. Foi um dos maiores dessa natureza no mundo e fundamental para que a Petrobrás pudesse avançar no plano de desenvolvimento estratégico. Liderar um projeto tão importante numa empresa como a Petrobrás, foi realmente desafiador, uma experiência única que efetivamente contribuiu para meu aperfeiçoamento.

Qual foi a maior dificuldade?

Em 2000, a petroleira começou um processo de mudança dos sistemas internos para ganhar produtividade, e, obviamente, o tamanho da empresa já constituía um elemento de complexidade relevante, bem como a quantidade de profissionais envolvidos.

O que motivou a ir para a NTT?
Em 2006, eu fui convidado por uma empresa italiana, que queria fortalecer as operações aqui no Brasil, para assumir umas contas estratégias. Eu fui e depois de alguns anos, a NTT Data adquiriu essa empresa italiana. Fui, então, convidado a assumir as operações da NTT no Brasil.

Houve choque cultural em decorrência da aquisição?

É uma experiência interessante desse ponto de vista. Eu cresci em organizações ocidentais, algumas delas americanas, mas a cultura japonesa traz alguns valores extremamente interessantes e inovadores no contexto de empresas de serviço. Assim, está sendo um aprendizado importante em alguns tópicos específicos.

Pode citar um exemplo?

Um dos pontos da modalidade japonesa de fazer negócio é o cunho de missão da empresa, de uma entidade que precisa contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Esse é um elemento pouco existente nas companhias ocidentais. As japonesas têm uma visão forte de que a tecnologia da informação pode contribuir grandemente para criar uma sociedade interessante, não apenas mais eficiente, mas também mais justa e com melhor qualidade de vida para todos. Outra coisa extremamente forte é a preocupação constante com a qualidade da ação visando à satisfação do cliente. É um valor absoluto na cultura japonesa.

Você disse que os japoneses têm low profile em marketing. Esse fato exige mais de você como líder da empresa?

O brand japonês tem uma associação forte com produtos e serviços de qualidade. E, na verdade, o fato de ter um perfil menos marqueteiro em grandes transações e projetos quase ajuda a consolidar uma abordagem séria e de confiança mútua com o cliente. A NTT Data tem, por exemplo, presença forte nos setores bancário e de telecomunicações – é um brand relativamente bem conhecido. Portanto, esse perfil pode ajudar a transmitir uma mensagem de confiabilidade.

Que conselhos dá aos jovens?

Primeiro, manter uma curiosidade constante na abordagem em relação ao trabalho e, no limite do possível cuidar da própria formação. Acho isso fundamental como fator de diferenciação competitiva. O Brasil, de maneira geral, é o mercado específico da tecnologia da informação e continua sendo um lugar fantástico e de grandes oportunidades, e portanto depende muito de nós mesmos e da curiosidade que temos para descobrir oportunidades. E aprendizagem contínua é fundamental.

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