Educação corporativa ganha novos horizontes com pandemia e EAD

Educação corporativa ganha novos horizontes com pandemia e EAD

Pesquisa de educação corporativa aponta que, para 80% dos respondentes, programas educacionais são importantes para autodesenvolvimento e bem-estar; 97% promovem educação a distância

Marisa Eboli

04 de março de 2022 | 11h01

Muito setores foram impactados pela pandemia da covid-19, e a educação não ficou de fora. Mas como será que este triste evento mudou a educação corporativaA 5ª Pesquisa Nacional de Práticas e Resultados da Educação Corporativa – elaborada de três em três anos pela Fundação Instituto de Administração (FIA) – traz um panorama nacional sobre a educação corporativa e procura identificar não só inovações como também as políticas e práticas vigentes nas organizações atuantes no Brasil.

Como ela dá continuidade às pesquisas conduzidas em 2009, 2012, 2015 e 2018, isso permite realizar análises comparativas sobre a evolução do tema no contexto brasileiro, nesta edição com 63 organizações respondentes. Levando em conta o atual cenário educacional e econômico brasileiro, bem como seus impactos no Sistema de Educação Corporativa (SEC), há destaques a serem considerados.

Seguindo a tendência das edições passadas, nota-se a continuidade da diversidade dos setores e do perfil, privado e de capital nacional, de grande porte das organizações respondentes. Dos setores, os que mais se destacaram foram energia (10%), financeiro (10%), transporte e logística (8%) e varejo (8%). 

Questão incluída por causa da pandemia, 80% dos respondentes consideram que os programas educacionais são uma importante ferramenta para o autodesenvolvimento e para a promoção da saúde e bem-estar, sendo alcançado o resultado esperado inicialmente.

A pandemia afetou o setor da educação e alterou os rumos da educação corporativa. Foto: Sam Balye/Unsplash

A pesquisa também trouxe resultados importantes sobre a educação a distância nas universidades corporativas. A seguir, ressalto os principais.

A pandemia trazida pelo novo coronavírus escancarou o que de pior temos no País em termos de desigualdade social, de saúde, de saneamento básico e de educação. Mas, como toda crise, trouxe também oportunidades e alavancou práticas modernas de gestão. Se algumas empresas relutavam em adotar a educação a distância, esta foi a única opção viável para dar continuidade às ações educacionais. Em termos de Gestão de Pessoas e Educação Corporativa, tudo precisou ser revisto e reestruturado para assegurar eficiência e eficácia de forma totalmente remota. 

Nesta edição da pesquisa, 97% dos SECs afirmaram possuir práticas de educação a distância, um aumento de mais de 10% comparando-se com a edição de 2018. Sendo que os principais motivos apontados para sua adoção são: pandemia (77%), ampliação da base geográfica atendida (77%), aumento da flexibilidade de acesso dos colaboradores e demais participantes (64%) e redução de custos de viagens, hospedagens e transportes (64%).

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O porcentual de organizações que não tem learning management system (LMS) também diminuiu de 25% em 2018 para 10% em 2021.

No Simpósio de 2021, que contou com o apoio da Universidade do Cacau e da UniAzul, que sediaram os dois dias do evento, além de serem apresentados os resultados preliminares da pesquisa, também foram realizados riquíssimos painéis de debate. Dentre eles, um painel discutiu os “Impactos da pandemia da covid-19 na educação corporativa: experiências e aprendizados”.

Elisabete Antunes, da UniAzul, contou que, enquanto caíram os voos diários de 800 para 80, na Universidade Corporativa da Azul eles tiveram que saltar de 13% os treinamentos a distância para 75%, de um dia para o outro. Ela acredita que a tecnologia nos permitirá ensinar em qualquer lugar do mundo, mas questiona qual será é o porcentual perfeito entre presencial e online. Além disso, destacou que a pandemia e utilização do EAD proporcionou uma redução de custos significativa para a universidade, alinhado aos resultados apresentados na pesquisa.

A utilização de learning experience platform (LXP) ainda é tímida entre os respondentes desta pesquisa, apenas 24% afirmaram utilizá-la. No entanto, é esperada uma evolução no porcentual de utilização nos próximos anos.

Algumas das práticas que as plataformas têm viabilizado dentro dos produtos e processos educacionais são: gestão do conhecimento (70%), aproximação e integração entre os participantes (67%), avaliação de resultados (60%) e avaliação de desempenho (57%).

Simone Azevedo, do Hospital Israelita Albert Einstein, pontuou que desde janeiro de 2020 estava acompanhando o que estava acontecendo na China e na Europa, iniciando de imediato a capacitação dos times. Sempre estudaram muito sobre mundo VUCA, mas em 2020 e 2021 foi possível ver essa explanação na prática. 

No Einstein uma das tecnologias utilizadas é a realidade aumentada, mas o que Simone destacou foi a necessidade de personalização, pois possuem cinco gerações convivendo dentro da organização, de 18  anos aos 80 anos. Para ela a transformação é geral, mas a conexão é humana, não dá para descolar desse aspecto.

Ricardo Bretas, do Santander, observou que foi preciso se reinventar. Foi uma mudança brusca e demandou muito trabalho. Lá estão usando inteligência artificial, para identificar como cada pessoa precisa se desenvolver.

Um ponto de atenção tem sido a baixa abrangência da tutoria (suporte didático e de conteúdo) nos programas a distância, em 2021 esse porcentual era de apenas 34%.

Sobre o momento em que os participantes podem ter acesso aos programas a distância, 67% dos respondentes disseram disponibilizar tempo durante ou fora do horário de expediente para os obrigatórios e 89% para os opcionais. Significativa mudança com relação à pesquisa de 2018, quando esses porcentuais eram 42% e 63%, respectivamente; naquela edição os maiores porcentuais estavam na disponibilização somente no horário de trabalho. 

No depoimento por vídeo, de Thierry Bonetto, dirigente do Clube de Universidades Corporativas da França, um país cujo sistema formal de educação é muito forte e isso se reflete também nas organizações, pudemos notar que os desafios enfrentados pelas empresas francesas durante a pandemia foram praticamente os mesmos. Thierry destacou que nas organizações o modelo 70% pela experiência, 20% pelo relacionamento e 10% pelo formal será fundamental para aprimorar a jornada de aprendizagem.

No que diz respeito a desafios e tendências verificou-se que a avaliação e a mensuração de resultados (51%) e a atuação estratégica (43%) ainda se mantêm no topo dos principais desafios a serem enfrentados pelos SECs. A promoção do autodesenvolvimento dos colaboradores (38%) ficou em quarto lugar, cedendo a terceira posição para o desafio do lifelong learning (40%).

Como principais tendências foram apontadas: blended learning/híbrido (56%), seguida por aprendizagem adaptativa e análise da aprendizagem – learning analytics (54%), cultura de inovação (54%), aprendizagem por meio de dispositivos móveis – tablets e celulares (48%) e lifelong learning (46%).

A maioria destas tendências já haviam sido mencionadas na pesquisa de 2018, e inclusive transformação digital aparecia com o maior número de menções. Ou seja, muitos temas e práticas que foram exaltados pela pandemia não são novos, mas ela teve esse papel crucial de colocar definitivamente na agenda das organizações: cultura de inovação, mudança, estratégias de negócios, experiência do cliente, educação a distância, tecnologia exponencial, transformação digital e metodologias ágeis. Tudo junto e misturado precisará ser abordado com seriedade e profundidade pela educação corporativa nos próximos anos para bem servir aos negócios.

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional na FIA Business School. E-mail: meboli@usp.br

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