Ele opera máquinas de moldagem, mas não pode vê-las
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Ele opera máquinas de moldagem, mas não pode vê-las

Jay Bowder ficou cego aos 19 anos em um acidente com arma de fogo; agora, aos 43 anos, é operador de máquinas em Alphapointe, em Kansas City (EUA).“Sou eu versus a máquina. Quem vai ganhar?”, diz ele

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09 Outubro 2018 | 07h10

Patricia R. Olsen /The New York Times

Bowder depende de adaptatações, dicas de colegas de trabalho e concentração cuidadosa em seu trabalho. Foto: Anna Petrow/The New York Times

Quando você ficou cego?
Eu perdi a visão aos 19 anos, quando levei um tiro no rosto em um acidente com arma. Eu tinha saído cedo do ensino médio para ir trabalhar, mas perder a minha visão me deu a motivação para entrar em um programa para obter meu diploma. Eu era o único aluno cego na escola. Precisava de ajuda com matemática, mas gravei as outras aulas e estudei a partir das fitas. Eu estava no ônibus quando recebi o telefonema dizendo que tinha sido aprovado e quase me levantei e saí correndo, de tão feliz que fiquei. Então eu frequentei uma faculdade comunitária e me transferi para a Universidade Mercy, de Detroit, e obtive um bacharelado em sistemas de informação de computador.

Qual é o seu trabalho?
Eu opero três máquinas de moldagem por micro injeção. Duas produzem barris de plástico e partes internas para a caneta Skilcraft, para funcionários do governo americano, e uma produz peças para a caneta Skilcraft B3 Aviator, para pilotos militares. Também opero duas máquinas de moldagem por injeção maiores, que produzem frascos de remédios controlados para a indústria farmacêutica e frascos de spray.

Para quem você trabalha?
A Alphapointe é uma organização sem fins lucrativos associada ao programa AbilityOne do governo, que cria empregos para pessoas cegas. A National Industries for the Blind (Indústrias Nacionais para os Cegos), uma organização sem fins lucrativos designada pela AbilityOne para trabalhar com ela, fornece os projetos federais com os quais estou envolvido. Eu trabalho principalmente para os departamentos de produtos de escritório e produtos farmacêuticos aqui.

Bowder trabalha em uma empresa que fabrica barris de plástico, frascos de medicamentos e peças para canetas, entre outros itens. Foto: Anna Petrow/The New York Times

Como você opera essas máquinas?
Com muito cuidado. Há uma ciência para isso, para acompanhar o trabalho e fazer uma boa tarefa, especialmente sem visão. É a mente sobre a matéria. Costumo dizer a mim mesmo: “Sou eu versus a máquina. Quem vai ganhar?” Eu tenho que superar as coisas e ter certeza de não cometer erros. Mas as máquinas também são adaptadas para nós. Por exemplo, uma máquina possui uma caixa de proteção com uma alça para abri-la. Além disso, sei onde estão os botões e as etiquetas táteis, e seguimos os procedimentos de emergência. Se um recipiente farmacêutico ficar preso na máquina, em vez de tentar consertá-lo sozinho, eu aciono um alerta. Muitas vezes, a pessoa que vem para consertá-lo é um colega cego que foi treinado em coisas presas.

O trabalho é tedioso?
Não, porque estou sempre pedindo para aprender a operar novas máquinas. Eu brinco que isso me torna comercializável, mas, na verdade, eu apenas gosto de ajudar. Quanto mais máquinas eu conheço, mais os supervisores podem me colocar em diferentes tarefas. Também já trabalhei com montagem e embalagem de produtos. Os veteranos aqui passaram dicas, como uma pequena caixa para afixar uma etiqueta e depois sentir com os dedos para alinhar com a borda. Eu também tento imaginar como é a caixa.

Qual é o seu histórico de trabalho?
Eu trabalhei no Citibank aqui em um call center por vários anos e depois fui pai que cuidava da casa por três anos criando minha filha. Depois disso, encontrei um emprego no call center da Alphapointe e acabei mudando de endereço. Completo três anos na organização em dezembro.

Como você pensa no fato de ser cego no ambiente de trabalho?
É fascinante que meus colegas de trabalho e eu consigamos fazer coisas assim. Alguns dos meus colegas foram cegos a vida toda. Eles nunca viram outra pessoa ou dirigiram um carro, mas podem fazer esse trabalho e fazê-lo bem. Isso me encoraja e me motiva a vir todos os dias e trabalhar duro. / Tradução de Claudia Bozzo