Empregadores dos EUA competem para contratar trabalhador estrangeiro
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Empregadores dos EUA competem para contratar trabalhador estrangeiro

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04 Julho 2018 | 06h28

Jose Vera Ramirez trabalha na empresa de Phil Steinhauer, próximo a Denver, nos EUA. Foto: Benjamin Rasmussen/The New York Times)

Por Patricia Cohen / The New York Times

Na semana passada, Ronda Fox finalmente recebeu a notícia,  três meses já dentro da temporada de trabalho paisagístico. O governo federal aprovou seu pedido para empregar mais de uma dezena de trabalhadores estrangeiros temporários para trabalhar na empresa de jardinagem e paisagismo  da família em Aurora, no Colorado.

Ela esperava ter sua nova equipe de empregados já trabalhando em primeiro de abril, mas no começo, havia perdido na loteria de vistos este ano. “Melhor do que nunca”, afirmou.

Em Centennial, a uma hora de carro de onde ela vive, Phil Steinhauer estava com o mesmo problema para contratar funcionários para sua empresa de jardinagem. Mas seu pedido para contratar 150 trabalhadores estrangeiros temporários foi selecionado pela loteria federal e seus contratados já estavam instalados quando a temporada teve início.

Steinhauer, porém,  não está muito satisfeito com a maneira de preencher as vagas. “Você não pode erigir uma empresa dependendo de uma loteria”, disse.

Dependência do programa H-2B

O que os dois proprietários têm em comum é sua dependência do programa de vistos chamado H-2B, que permite a trabalhadores não qualificados do México, Filipinas, Jamaica e outros países trabalhem como temporários nos Estados Unidos em atividades não agrícolas.

Os debates sobre o uso de mão de obra estrangeira para trabalhos sazonais – empregos que oferecem um salário baixo e são descartados pelos americanos – são constantes. Mas um mercado de trabalho apertado e uma política rigorosa de imigração intensificaram a urgência do tema num ano eleitoral em que republicanos e democratas lutam pelo controle do Congresso.

Sindicatos e oponentes da imigração alegam que o programa suprime postos de trabalho e tira empregos de americanos. Grupos de defesa respondem que os trabalhadores estrangeiros são sempre explorados. E os empregadores insistem que a recusa a encarar a escassez de mão de obra estimula as empresas a contratar ilicitamente imigrantes não autorizados  pagando salários abaixo do mercado.

Phil Steinhauer, dono de uma empresa em Denver que fez pedido para contratar 150 trabalhadores temporários estrangeiros. Foto: Benjamin Rasmussen/The New York Times

 

Este ano, porém, os conflitos aumentaram. As taxas extremamente baixas de desemprego deixaram paisagistas, restaurantes, hotéis parques de entretenimento e outros lutando por mão de obra sazonal e não qualificada. As mudanças nas regras que regem o programa pegaram muitos empregadores de surpresa, ameaçando a indústria de pescados em Maryland e paraísos turísticos no Maine.

Debate sobre imigração

O programa de vistos também alimenta o debate agitado e cada vez mais virulento sobre a imigração. Para Steinhauer “é um problema de trabalho que é inserido no debate sobre imigração porque as pessoas vêm de países estrangeiros e nesse assunto o país está muito dividido”.

No mês passado,  depois de pedidos frenéticos, o Departamento de Segurança Interna concordou em emitir 15.000 vistos adicionais. Ronda Fox teve sorte e conseguiu uma dezena deles embora sua equipe, todos veteranos de temporadas anteriores,  só cheguem do México no próximo mês.

Os que solicitam os vistos têm de provar que não conseguem preencher as vagas necessárias. “Você não consegue uma mão de obra confiável a US$ 15 por hora”, salário previsto no Colorado, disse Ronda. “A região tem uma taxa de desemprego de 2,5%, de modo que não se encontra nenhum trabalhador por aqui”, disse ela.

Sua empresa, All Seasons Landscaping,  está localizada no 6º Distrito Congressional do Colorado, que abrange Denver. A região tem uma porcentagem fora do comum de pessoas formadas em universidades e uma taxa extremamente baixa de desempregados. O salário médio anual para trabalhadores não autônomos é de quase US$ 63.000.

Trabalho duro no calor

O trabalho de paisagismo é duro. Fazer escavações no barro e trabalhar com equipamento pesado num calor abrasador dá dor nas costas e as mãos ficam com feridas. Os trabalhadores sem nenhuma qualificação ganham um salário similar preparando um sanduíche ou trabalhando num depósito com ar condicionado.

“Colocamos um anúncio no The Denver Post e ninguém se candidatou”, disse Ronda. Se tiver de pagar um salário alto o bastante para atrair trabalhadores locais sua empresa fechará, afirmou.

Criar empregos para os trabalhadores americanos e reduzir a imigração está no centro do programa de Trump e é uma referência para seus apoiadores. Os índices de desemprego menores respaldam argumento dos republicanos de que a economia vem melhorando. E a linha cada vez mais dura no campo da imigração está na base das políticas do governo para os imigrantes legais e ilegais.

Ao mesmo tempo, muitos pequenos empresários e comerciantes afirmam que o empresário que se tornou presidente compreende e responde rapidamente às suas necessidades.

Estas contracorrentes políticas persistem no sexto Distrito Congressional do Colorado, que tem uma das mais atentamente observadas eleições de meio de mandato para a Câmara. Uma revisão dos limites do distrito, combinada com as ondas de imigrantes e refugiados da Etiópia, México e Nepal nas últimas décadas tornou o Estado um dos mais diversificados. É um dos 25 distritos que levaram um representante republicano para Washington em 2016 e ao mesmo tempo deu uma vitória para Hillary Clinton na região, onde ela venceu por uma margem de nove pontos.

Derrotar o atual deputado republicano Mike Coffman é uma parte crucial do esforço dos democratas para retomarem a Câmara em novembro.

Coffman distanciou-se de Trump durante a campanha de 2016, embora o tenha apoiado em mais de 95% das votações na Câmara. No caso da imigração, ele adota uma linha mais moderada, tendo apoiado, por exemplo, uma solução permanente para os chamados Dreamers, adultos que foram trazidos para os Estados Unidos ilegalmente quando ainda eram crianças. E recentemente apelou ao presidente para afastar seu assessor Stephen Millier na questão da separação de famílias.

Ronda Fox, que se considera independente em termos políticos e conservadora por natureza, disse que os Dreamers devem ser protegidos contra uma deportação e que ficou transtornada ao ver crianças sendo separadas dos pais na fronteira. “Não concordo com nada disto”, disse ela.

Quanto ao programa H-2B, Steinhauser e Ronda disseram não responsabilizam Trump pelas falhas do processo, observando que houve problemas similares à época dos governos de George W. Bush e de Barack Obama. “A culpa é do Congresso”, afirmou Ronda. “O assunto todo é muito tóxico. Todo mundo tem medo de fazer qualquer coisa a respeito”. / Tradução de Terezinha Martino