Empresas criam vagas para maiores de 50 anos
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Empresas criam vagas para maiores de 50 anos

Companhias investem na formação de equipes com profissionais seniores e jovens

CRIS OLIVETTE

19 Novembro 2017 | 07h49

Olíveira (camisa rosa), com colegas de trabalho. Foto: Alex Silva/Estadão

Depois de passar um ano e meio desempregado, o analista de suporte José Antonio de Oliveira, de 61 anos, foi contratado pela Totvs, desenvolvedora de software, em fevereiro deste ano. “A companhia localizou meu cadastro em uma empresa de recolocação e me convidou para uma entrevista”, conta.
A diretora de recursos humanos da Totvs, Rita Pellegrino, diz que já contratou duas pessoas com mais de 55 anos, dentro do programa Geração Sênior, lançado no início do ano. “Estamos felizes com os resultados e temos mais três posições abertas para a área de suporte, a serem preenchidas no início de 2018.”

Segundo ela, 70% dos colaboradores da Totvs são da geração Y. “A média de idade da área do José é 28 anos. É uma população com pouca experiência corporativa e menos resiliência para lidar com os conflitos, por isso, procuram muito o José para pedir dicas comportamentais.”

Rita afirma que Oliveira é um ponto de equilíbrio e de segurança para situações de instabilidade emocional. “Ele é referência em relação ao tipo de comportamento a ser seguido e atua como um coach. Virou o queridinho da equipe.”

Rita Pellegrino. Foto: Alex Silva/Estadão

A diretora ressalta que o comprometimento do profissional chama a atenção. “Nos feriados, ele não se importa em fazer a ponte e se prontifica a trabalhar. A geração dele tem outra relação com o trabalho e serve de espelho para os jovens.”

Oliveira acha fundamental que as empresas contratem profissionais acima de 50 anos. “A idade cronológica não interfere, porque o aprendizado ocorre todos os dias. Não é porque a pessoa tem mais idade que perde a capacidade de aprender. A Totvs trilha um caminho interessante ao abrir as portas para pessoas da terceira idade.”

Segundo ele, os colegas passam muitas informações da linguagem atual de programação. “Assim como eu dou informações sobre sistemas das décadas de 1980 e 1990, que ainda estão em operação.”

Em razão da sua experiência, diz que é mais paciente e entende melhor as necessidades do cliente. “Às vezes, os jovens têm o ‘timing’ mais curto. Procuro mostrar a eles que há horas em que precisamos acelerar, em outras, segurar. Depende muito do interlocutor.”

Assim como a Totvs, outras empresas têm programas de contratação de profissionais com mais de 50 anos. A administradora de consórcios Embracon, por exemplo, lançou o programa Embracon 50 +, com o objetivo de estimular a contratação desses profissionais áreas como estatística, gerência de grupos, gerência comercial e consultoria de vendas.

Giovanna Freitas. Foto: Tiago Costa/Divulgação/Embracon

“A ideia vem sendo amadurecida há algum tempo. Realizamos ações para sensibilizar as áreas. Vemos grandes possibilidades de trazer todo o conhecimento e experiência de profissionais mais seniores para dentro da empresa”, diz a gerente de RH, Giovana Freitas.

Líderes. De acordo com ela, a média de idade dos 3.017 funcionários é 34 anos. Desses, 205 têm mais de 50 anos, sendo que 64 são líderes. “Acreditamos que juntar diferentes gerações vai agregar valor ao negócio, demonstrando que valorizamos a trajetória desses profissionais.”

Contratada em abril deste ano para ocupar o cargo de supervisora de vendas na Embracon, Márcia Bussadori Villela tem 20 anos de experiência na área e estava sem registro em carteira havia quatro meses.

“Minha equipe tem oito funcionários, apenas um está na faixa de 50 anos. Os demais têm menos 30 anos.”

Márcia diz que profissionais da sua faixa etária são como camaleão. “Nas últimas décadas, nos adaptamos às mudanças tecnológicas e à forma de trabalho. Com a tecnologia surgiram novas formas de comunicação, de prospecção e de marketing. Nós nos adaptamos às mudanças e nos mantivemos no mercado”, afirma.

Márcia Bussadori Villela. Foto: Tiago Costa/Divulgação/Embrracon

Segundo ela, o equilíbrio da liderança está baseado na expertise do profissional em sua história de vida. “Muitas vezes, vivemos situações complicadas, mas sabemos que lá na frente vamos sair daquele conflito. Essa postura acalma a equipe, porque sabemos usar nossa experiência com mais sabedoria e tranquilidade do que, talvez, um jovem, que poderia agir por impulso. A serenidade é importante, principalmente na área comercial, pautada em metas.”

A supervisora afirma que a empresa valoriza a experiência profissional e de vida dos funcionários. “Afinal, a nossa missão é encantar o cliente. Entramos na casa dessas pessoas e temos de ter grande consciência de relacionamento humano. Esse jogo de cintura é natural entre profissionais mais velhos.”

Giovana ressalta a importância do fato de essas pessoas já terem vivenciado momentos de crise. “Elas possuem maior capacidade de resiliência, de analisar racionalmente possíveis soluções em momentos turbulentos, são habilidades que os jovens estão aprendendo”, diz.

Cultura. Diretor geral da recrutadora Robert Half, Fernando Mantovani diz que até o início dos anos 2000, existia certo tabu em relação à contratação de pessoas com mais de 40 anos.

“Entre 2007 e 2013 o mercado brasileiro ficou muito aquecido e tínhamos muitas obras em hidrelétricas, que demandavam mão de obra muito especializada e não disponível no mercado. As empresas, então, buscaram profissionais aposentados para retornar ao mercado de trabalho.”

Mantovani diz que na crise atual, o mercado passou a valorizar o profissional experiente por ter a bagagem necessária para lidar com períodos turbulentos. “Eles tendem a ser mais estáveis e se desesperam menos. Perfil importante para determinadas posições. Podem até custar mais caro, mas em alguns casos ocupam o papel de dois mais jovens. É uma relação de custo benefício.”

Fernando Mantovani. Foto João Neto

Aposentados. Desde março, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) também está contratando aposentados do sistema bancário com experiência em concessão de crédito.
A iniciativa é uma parceira com o Banco do Brasil e foi batizada de Senhor Orientador. A atuação desses profissionais consiste em manter contato com empreendedores para saber como está a saúde financeira das empresas. Até agora, 402 aposentados exercem a função.

Segundo a entidade, 2.200 empresas já foram contatadas. Em alguns casos, foi feita a concessão de crédito, em outros, os empresários receberam orientações de gestão e ajustaram as finanças do negócio.

Entrevista: Mórris Litvak, fundador da Maturijobs

Como surgiu a ideia de criar a plataforma?
Aos 80 anos, minha avó Keila trabalhava como secretária e tradutora em uma empresa do outro lado da cidade. Além disso, fazia trabalho voluntário e ajudava a família. Um dia, indo para o trabalho, sofreu uma queda e um desmaio, por esse motivo parou de trabalhar. Depois disso, sua saúde física e mental declinaram rapidamente, até ela falecer. Foi por isso que abracei a causa da longevidade e criei o negócio.

Como vê o mercado de trabalho para esse público?
Promissor, porém ainda é um grande desafio. É uma tendência mundial, mas no Brasil o movimento de empresas buscando incluir (tanto contratar quanto manter e atualizar) os profissionais 50+ segue de forma lenta. Entretanto, algumas já começam a pensar nisso e a testar o mix de gerações, colhendo bons frutos com essa atitude.

Mórris Litvak. Foto: arquivo pessoal

As empresas estão dispostas a abrir vagas para esse público?
Estão dispostas, mas não priorizam essa ação. Acho que elas deveriam dar mais importância a este público e entender o quanto os profissionais maduros podem contribuir.

Está ocorrendo mudança na mentalidade dos empregadores?
Em alguns sim, mas no geral ainda é cedo para falar de mudança de mentalidade. Com a questão da reforma da previdência, o envelhecimento da população por conta da maior expectativa de vida dos brasileiros, algumas empresas começam a olhar o assunto de outra forma. Outras companhias que já tiveram problemas com funcionários muitos jovens e pouco comprometidos com o trabalho também começam a buscar os mais maduros. Trata-se de uma mudança cultural que leva tempo para ocorrer.

Como tem sido o crescimento da demanda?
Atualmente, a maioria das companhias que contratam são pequenas e médias, no entanto, várias empresas grandes também estão nos procurando para saber mais a respeito do assunto.

Quantas contratações já ocorreram a partir da plataforma?
Cerca de 250 contratações. Ao mesmo tempo, também ajudamos milhares de pessoas a buscar um novo posto de trabalho por meio da publicação de conteúdos como artigos, palestras, realização de eventos e cursos, que tratam não só de carreira e atualização tecnológica, mas também de autoconhecimento, empreendedorismo e economia compartilhada.