Empresas que não repensarem novas formas de recrutar vão perder luta por talentos

Empresas que não repensarem novas formas de recrutar vão perder luta por talentos

Transformação digital no RH deve levar a mudança de mentalidade, em que se abre mão da velha forma de recrutar; no home office sem limites geográficos, empresas brasileiras perdem talentos também para multinacionais

Paula Morais

09 de março de 2021 | 10h59

Ao contrário do que havia sido posto como hipótese, a pandemia deu espaço para o crescimento de vagas abertas em áreas de tecnologia, dados e produto. Além de impulsionar a expansão de negócios como food service, as vendas online tiveram crescimento expressivo. Os números comprovam isso. No primeiro trimestre de 2020, registramos crescimento de 56% comparado com o mesmo período do ano anterior. Já no trimestre seguinte, o aumento foi de 90%. Isso aconteceu devido à necessidade das empresas em desenvolver novas soluções tecnológicas para lidar com o trabalho remoto.

As que já estavam passando por um processo de transformação digital precisaram acelerar ainda mais essa transição, e as empresas que já estavam no digital precisaram investir mais ainda para manter o crescimento.

Sim, a covid-19 foi o grande responsável por acelerar o movimento de digitalização do trabalho, forçando as empresas a adequarem seus processos seletivos do dia para a noite. Contratações à distância foram remodeladas, o home office, antes visto com certo desprezo por algumas empresas, parece ter convencido até o mais avesso como uma alternativa viável e possível.

As perguntas que surgem agora são sobre o futuro: qual a perspectiva do recrutamento no pós-pandemia? O que as empresas precisarão fazer para sair na frente na busca pelos melhores profissionais? Primeiro, é preciso respirar. Feito isso, analisar o que exatamente mudou e o que está por trás da transição para o modelo de trabalho remoto.

O que muda agora em relação a essas vagas é que novas possibilidades de contratação aumentam a oferta de candidatos. Isso porque o modelo de trabalho remoto permite a contratação de profissionais de qualquer parte do Brasil, aumentando o rol de talentos que podem ter fit com as empresas.

Paula Morais, cofundadora e CEO da Intera, startup de RH focada em recrutamento digital. Foto: Valteci Santos

No entanto, essa é uma realidade que passa a funcionar para milhares de empresas, dos mais diversos setores, o que significa que agora existem ainda mais corporações “lutando” por talentos qualificados por todo o Brasil, aumentando a concorrência de forma expressiva. Essa busca pelos melhores talentos ilustra bem o significado da lei de oferta e demanda, tendo como consequência o encarecimento financeiro e operacional desses profissionais. Oportunidades atrativas tornam-se mais numerosas e eles passam a ter o poder de determinar o melhor preço para o seu trabalho.

Tal encarecimento, além de forçar as empresas a revisarem as suas barras salariais, abre espaço para mais concorrentes na luta por esses talentos: as multinacionais. Para empresas em países nos quais o real é desvalorizado, torna-se extremamente lucrativo a contratação de profissionais brasileiros, que vão oferecer grande expertise em tecnologia por um preço final bem abaixo do que elas estão acostumadas a pagar.

Tudo isso indica que, se antes as empresas tinham dificuldade de contratar profissionais de tecnologia, essa realidade tende a aumentar. E isso gera uma perspectiva evidente: as empresas que não repensarem novas formas de recrutar vão perecer na luta pelos melhores talentos.

É preciso adotar a cultura “hacker” no sentido de analisar como as coisas eram feitas e entender como fazê-las de uma melhor forma. É preciso refletir sobre quais são as novas necessidades que surgem diante desse novo contexto e trabalhar de forma ativa. Esse momento indica uma necessidade de repensar o recrutamento da mesma forma analítica que um time de vendas é habituado a pensar.

A demanda para vagas de tecnologia tende a aumentar significativamente à medida que mais tecnologia vem sendo injetada na economia brasileira. Isso significa que os times de recrutamento precisam trabalhar com previsibilidade para conseguir preencher as vagas abertas com assertividade e de forma rápida. E isso demanda uma estrutura ágil e uma grande quantidade de informações, além de um processo em constante desenvolvimento.

No entanto, antes de pensar em tudo isso e promover essa transformação digital no recrutamento, faz-se necessária uma mudança de mentalidade dentro do RH. Os times precisam se desapegar da forma antiga de recrutar e desenvolver uma mente cada vez mais analítica. Em uma realidade em que tudo está sendo digitalizado de forma acelerada, o universo de recrutamento e seleção precisa nadar a favor da corrente e adotar o mesmo movimento de outras áreas do mercado: incorporar a tecnologia como principal aliada do seu desenvolvimento e sucesso.

* Paula Morais é cofundadora e CEO da Intera, startup de recrutamento digital. Foi coordenadora de recrutamento na Sanar e, antes de fundar a startup, empreendeu com uma escola de tecnologia.

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