Empresas usam testes e inteligência artificial para comprovar inglês antes de contratar
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Empresas usam testes e inteligência artificial para comprovar inglês antes de contratar

Com exigência quase unânime no currículo, corporações buscam ferramentas para driblar nível de proficiência ‘falso’; só 5,1% dos brasileiros com mais de 16 anos têm algum grau de conhecimento da língua

Bianca Zanatta

14 de março de 2020 | 16h00

Especial para o Estado 

Apenas 5,1% da população brasileira com mais de 16 anos dizem ter algum grau de conhecimento da língua inglesa e, entre eles, são poucos os que afirmam ter nível intermediário (32%) ou avançado (16%), segundo o último estudo Demandas de Aprendizado de Inglês no Brasil, realizado em 2013 do British Council, organização internacional do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais.

O estudo não contemplou as classes econômicas mais baixas, mas concluiu que “a falta de um ensino básico de qualidade somada ao baixo acesso a cursos privados de inglês faz com que o mercado de trabalho tenha dificuldade em encontrar profissionais com proficiência na língua”.

Para conseguir uma vaga no mercado, os candidatos sentem esse déficit na pele. “Hoje, 99% das vagas pedem algum nível de inglês como qualificação, considerando profissionais que têm acima de 25 anos e ensino superior”, observa Mariana Horno, gerente sênior de recrutamento da Robert Half. Quanto mais alto o cargo, maior a exigência de fluência. “Cargos de liderança muitas vezes têm interface internacional.”

A necessidade do idioma se reflete inclusive nos salários. Segundo a 59º Pesquisa Salarial da Catho, a variação no salário de um diretor, supervisor ou coordenador pode ser de até 86% entre os que têm nível básico de inglês e os que são fluentes. “Ainda que seja possível ‘se virar’ bem sem o idioma, por vezes será necessário ler textos, traduzir informações e escrever e-mails em inglês”, explica Fernando Gaiofatto, gerente da Catho Educação. “Diante dessas necessidades, assim como a fluência do inglês é percebida, a falta dela também é.”

Mardem Reifison, analista de SEO, aprendeu inglês por meio de podcasts, filmes e quadrinhos. Para ele, o idioma é fundamental para executar as funções da profissão. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

O primeiro passo das empresas para ultrapassar essa barreira é avaliar o nível real de proficiência. Uma pesquisa da Robert Half de 2017 mostrou que 39% dos profissionais mentem ou exageram sobre conhecimento de idiomas no currículo. Para fazer uma triagem mais eficaz e evitar situações constrangedoras, como uma entrevista presencial, os recrutadores contam com sistemas de avaliação que vão de ferramentas digitais a testes de escolas especializadas.

Contratada pela Uber para criar o primeiro programa de estágio da empresa, a plataforma 99jobs utilizou inteligência artificial para realizar a etapa inicial do processo seletivo, que incluía testes de inglês, lógica e normas culturais. “O processo é feito via chatbot, o que dá ao usuário a sensação de que ele está conversando com alguém e diminui a fadiga de um teste padrão, extenso e impessoal”, diz Du Migliano, cofundador da plataforma. A ferramenta avalia principalmente compreensão oral e vocabulário.

“Não dá mais para fazer contratações bilíngues sem a realização de um teste de proficiência mais detalhado”, diz Fernanda Tietjen, diretora executiva da Fluenglish, plataforma digital que avalia e certifica o nível de inglês. A solução é procurada tanto por empresas como por profissionais que já queiram dar a largada com fluência comprovada, encurtando os processos.

Totalmente online, a certificação é realizada por professores nativos. “Também aplicamos testes de proficiência com os colaboradores de empresas para verificar se possuem o nível adequado para participar de workshops, treinamentos e reuniões de porte internacional”, completa Fernanda.

Vídeo-conferências com a Austrália

O analista de SEO Mardem Reifison, de 36 anos, entrou na Catho há quatro meses e a fluência em inglês, que ele quase sempre estudou por conta própria, foi determinante para a contratação. “Comecei a me interessar pelo idioma quando entrei para o mercado de SEO porque quase não havia conteúdos da área em português”, relembra.

Mardem criou o hábito diário de ouvir podcasts em inglês de SEO, marketing e temas de interesse pessoal, como fotografia e games. Leitura de quadrinhos e filmes com legendas em inglês ajudaram a assimilar a escrita. Para competir às melhores vagas do mercado, o analista investiu ainda em um intercâmbio de seis meses no Canadá.

“Para o cargo que eu ocupo hoje na Catho, o inglês precisa ser funcional, pois definimos estratégias e todo o andamento do trabalho nessa língua”, afirma o analista, que participa de vídeo-conferências semanais com o time da Austrália.

Alcançar a tal fluência é um dos principais obstáculos que muitos brasileiros encontram na maratona profissional. Tanto que 27% dos desempregados que estão em busca de colocação adotam o estudo do inglês como forma de melhorar a qualificação, ainda segundo dados da Robert Half.

Escolas voltadas ao universo do trabalho, aulas particulares e diferentes tipos de imersão no idioma são caminhos inevitáveis para o aperfeiçoamento. “Geralmente, alunos adultos carregam crenças, traumas e preconceitos”, explica Bruno Padrão, diretor operacional da All Net, rede de cursos profissionalizantes. “É muito frequente ouvir frases como ‘eu sou péssimo em inglês’ ou ‘nunca vou aprender’.”

Com um filtro afetivo que busca construir um ambiente de segurança, a metodologia das aulas envolve os alunos na teatralização de um projeto, com atividades e tarefas que simulam o contexto profissional. “Após dois meses de aula, alguns alunos se sentem confortáveis para gravar vídeos em Inglês e liderar projetos.”