Ensino virtual cresce em universidades corporativas
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Ensino virtual cresce em universidades corporativas

Método de ensino à distância (EAD) chega a quase 90% das empresas que têm universidade, diz pesquisa; empresas apostam na modalidade para economizar custos e alcançar mais funcionários

Sandy Oliveira

02 de novembro de 2019 | 16h00

Especial para o Estado

Universidades corporativas, criadas em geral em grandes empresas para aprimorar conhecimentos técnicos dos colaboradores, têm adotado nos últimos anos o ensino à distância (EAD) para alcançar mais funcionários. Se em 2012, o EAD (que é virtual) estava presente em 33% das empresas com universidade corporativa, em 2018 a modalidade chegou a 89% das companhias.

Dados da 4ª Pesquisa Nacional sobre Práticas e Resultados da Educação Corporativa, realizada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), mostram que, além de ter aumentado a proporção das organizações que possuem práticas de educação à distância, houve redução da proporção dos programas totalmente presenciais.

O perfil das 93 organizações entrevistadas é bem variado. No que diz respeito aos setores de atuação destacam-se: serviços em geral (18%) e energia (8%). Em relação a sua natureza e origem do capital, prevalecem as organizações privadas (74%) e de capital nacional (66%).

Ilustração: William Mur/Estadão

A pesquisa, encabeçada pela especialista em educação corporativa e professora da FIA Marisa Eboli, mostra que um dos principais motivos para a adoção do ensino à distância é aumentar a base de funcionários atendidos, já que o conteúdo disponibilizado está online.

No conteúdo virtual, os programas técnicos equivalem a 63%, enquanto os comportamentais são 37%. Outro ponto abordado pelo levantamento para justificar o crescimento do EAD nas corporações é a escala de aplicação e a redução de custos, já que a empresa economiza com as despesas de viagem e hospedagem dos funcionários.

Educação corporativa em empresas menores

Além de constatar o crescimento do ensino à distância em grandes corporações, onde as universidades são comuns, a pesquisa aponta para um incremento da educação corporativa em empresas de menor porte.

É o caso de companhias como a Mandic Cloud Solutions, especializada em serviços em cloud, e a fabricante de piscinas iGUi, que lançaram suas universidades corporativas já totalmente focadas no EAD.

A Mandic Universidade Corporativa (MUC) foi lançada em 2017 e remodelada em formato gamificado (inspirada em jogos) em abril deste ano. A plataforma de treinamento virtual, inspirada no judô, atende os cerca de 250 funcionários da empresa.

A diretora de Pessoas da Mandic Cloud, Vanessa Haba, conta que a plataforma obteve aceitação entre os colaboradores. “Para a nossa surpresa, até os que não são de áreas técnicas estão empolgados com a iniciativa. Por conta do formato didático e lúdico, eles conseguem absorver os conteúdos sem nenhuma restrição”, explica.

No caso da UniGUi, universidade corporativa da iGUi, a plataforma foi lançada neste mês totalmente online e foca na formação de colaboradores que vão trabalhar não só na matriz da empresa, mas também em alguma das 800 unidades franqueadas pelo País.

A plataforma online disponibiliza aos funcionários cursos técnicos de diferentes áreas, em formato “on demand” – o colaborador pode fazer as aulas de acordo com a disponibilidade.

De acordo com a iGUi, estão sendo oferecidos 20 cursos técnicos, entre eles química, elétrica, hidráulica, financeiro e gestão de pessoas, em cinco módulos. Os colaboradores podem acessar a plataforma livremente, conta a idealizadora da UniGUi, Lilian Marques.

O objetivo do ensino nas empresas

Segundo Mary Murashima, diretora de Gestão Acadêmica do Instituto de Desenvolvimento Educacional da Fundação Getúlio Vargas (IDE-FGV), existe um vácuo criado no mercado entre o que é dado nos cursos tradicionais de ensino superior e aquilo que é preciso saber para fazer a diferença no mercado de trabalho. É nesse espaço que entram as universidades corporativas.

“As nossas universidades hoje são extremamente burocráticas. É muito difícil acompanhar todas as pontas de novas pesquisas, todas as necessidades de mercado. É uma espiral muito difícil de acompanhar o tempo todo. Por isso, a universidade corporativa é muito útil nesse processo”, explica.

Presentes em grandes empresas, de bancos (como Santander) a grupos farmacêuticos (Sabin), as universidades corporativas têm como diferencial desenvolver nos colaboradores competências que vão dar sustentação para as aptidões estratégicas das organizações.

A especialista Marisa Eboli, colaboradora do Estado, explica que o sistema de desenvolvimento nessas universidades deve ser pautado pelo conceito de competência. “São observadas as competências estratégicas que as empresas têm que ter, e isso é transformado em capacidades que determinados públicos têm que ter. Só então são desenhadas as soluções de aprendizagem que serão aplicadas nas universidades corporativas”, conta.

No Santander, que tem departamento voltado ao ensino corporativo desde 2016, a Academia tem formatos e metodologias online, como vídeos e podcasts de curta duração, além das tradicionais aulas presenciais. Segundo a empresa, a plataforma de ensino teve mais de 1,5 milhão de acessos desde que foi lançada, pelos pouco mais de 45 mil colaboradores em todo o País.

Ainda que levem o nome “universidade”, os cursos não têm grade curricular aprovada pelo Ministério da Educação (MEC) nem têm cursos que duram necessariamente quatro ou cinco anos. De acordo com Marisa, o termo universidade corporativa é uma alusão aos três pilares de uma universidade tradicional, só que no âmbito corporativo: pesquisa, ensino e extensão.

“Como não há nenhum compromisso com as formalidades do MEC, a não ser para cursos tipo MBA In Company, não há um padrão definido em termos de carga horária. Pode variar de empresa para empresa, e conforme o público e o tipo de programa”, explica Marisa. O mesmo vale para o horário em que os funcionários irão estudar. “Flexibilidade é a tônica das UCs”, conclui.

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