Entrevista com o CEO – “Meu papel é o de ser líder empreendedor”
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Entrevista com o CEO – “Meu papel é o de ser líder empreendedor”

Claudio Marques

18 de março de 2013 | 14h21


Head do Facebook,  que congrega 67 milhões de usuários no País, ALEXANDRE HOHAGEN 
passou por vários setores da economia e teve atos ousados ao longo da carreira

 

Cláudio Marques

Juntamente com o esforço, a dedicação e o talento, a carreira do líder do Facebook no Brasil e na América Latina, Alexandre Hohagen, de 44 anos, também teve lances de ousadia e surpresa. Jornalista formado pela ECA-USP, ele começou a trajetória profissional como responsável pelo setor de comunicação da Dow Química. Posteriormente, se candidatou a uma vaga de gerente de comunicação do laboratório Boehringer Ingelheim. Não foi escolhido, mas durante o processo veio o inesperado: o então presidente da companhia o convidou para uma experiência em recursos humanos. Era, até então, uma possibilidade totalmente impensada por Hohagen. Mas ele achou que poderia aprender com a nova atividade e aceitou. Outro passo ousado ocorreu quando era diretor de recursos humanos de um site que procurava uma pessoa para a área de vendas. Ele se candidatou ao posto, foi aceito e, mais uma vez, deu um novo rumo para sua carreira. Passou depois pela HBO, em seguida ficou seis anos no Google e está há dois no Facebook. “Eu logo entendi que quanto mais eclético eu fosse na minha formação, em quanto mais áreas eu pudesse passar, mais chances eu teria de crescer profissionalmente”, conta. Hoje, ele se considera um líder empreendedor, que não se recusa a pôr a mão na massa. A seguir, trechos da entrevista.

Você começou na Dow Química, depois foi para uma farmacêutica, passou por banco, pela HBO e foi para o setor de tecnologia. Como se deu esse trajeto?

Acho que foi uma combinação de planejamento com oportunidades de carreira. Quando estamos no início da carreira, é difícil ter uma noção tão clara do que se quer e fazer um planejamento tão claro de longo prazo. Mas logo no início entendi que quanto mais diversidade, quanto mais eclético eu fosse na minha formação, quanto mais áreas eu pudesse passar, mais chances eu teria de crescer profissionalmente. Eu fiz muitas mudanças, não só de companhias e de setores muito diferentes – às vezes, surpreende quando falo que trabalhei na Dow Química e hoje estou comandando o Facebook, são coisas tão antagônicas, tão diferentes, são modelos distantes. Sou jornalista de formação, sou publicitário, trabalhei com comunicação, com marketing, depois cheguei a vendas e, posteriormente, fui para gestão. Mas sempre tive muita consciência de que a combinação de uma carreira eclética em vários setores com diferentes experiências profissionais poderiam me fazer um profissional melhor e me dar melhores oportunidades de carreira.

Então, você começou na área de comunicação?

Sim, sou jornalista (também é pós-graduado em administração pela FEA-SP, IMD, na Suíça, e pelo IIHR, na Holanda). Eu cuidei da área de comunicação e de relações públicas da Dow Química.

Continuou nessa área quando foi para o laboratório?

Na farmacêutica foi um processo interessante. Eu fui convidado por uma grande empresa de head hunter a participar de um processo para ser gerente de comunicação dessa empresa, a Boehringer. Ao longo do processo, a companhia achou que eu não era a pessoa mais indicada para a função – contrataram uma pessoa com muito mais experiência, eu era bem jovem. Mas o presidente da empresa, por alguma razão, foi com a minha cara, achou que eu falava um bom inglês e um bom espanhol, e perguntou se eu não queria ir para a empresa trabalhar em recursos humanos. Era uma coisa que eu nunca tinha imaginado! Pensei que gestão de pessoas, recursos humanos, poderia ser importante para minha carreira no futuro e resolvi aceitar. E fiz essa mudança radical de comunicação para recursos humanos, mas por acaso.

Pelo jeito, ele, o presidente, estava certo.

Sem dúvida, ele estava certo de ter essa visão para me levar a fazer uma coisa tão diferente. Acho que conhecer a área de recursos humanos me trouxe muitos benefícios. O fato de eu saber gestão de pessoas, o fato de eu saber como gerenciar times, como motivá-los, no final das contas, aportou muito valor para aquilo que vim desenvolver mais para a frente, na HBO, no Google, no Facebook.

Ele soube perceber que você tinha algo a ver com a área.

É. Penso que é relativamente fácil identificar quem tem potencial para fazer coisas diferentes quando essa pessoa está no início da carreira. E, no final das contas, para mim, para minha carreira, foi uma experiência fantástica, aprendi coisas que eu uso muito até hoje. Quando você gerencia grandes companhias, grande parte do seu trabalho é justamente a gestão de pessoas, a motivação, a inspiração. E acho que essa formação em RH me ajudou muito nisso.

Você foi agregando conhecimentos a sua carreira. O que mais você agregou passando, por exemplo, pela HBO?

Na verdade, eu fui para o UOL antes. Quando eu fui para a HBO eu já tinha passado por uma experiência de vendas. Essa experiência começou no UOL. Quando eu ainda era diretor de recursos humanos estava buscando uma pessoa para vendas. Nós procuramos, conversei com candidatos no mercado, mas num determinado momento eu pensei: ‘Puxa, essa pode ser uma boa oportunidade para eu também ter uma visão diferenciada, trabalhar mais na linha de frente, trabalhar com vendas’. Cheguei para o presidente da companhia na época e falei que tinha um candidato para apresentar, disse que o cara era bom. Quando ele me perguntou quem era, eu disse: ‘Eu quero essa oportunidade, eu quero tentar’. Então, eu usei um pouco da minha agressividade, da minha proatividade, para poder conhecer essa área diferente. E conheci.

Foi uma atitude ousada.

É, a característica do empreendedor é justamente ter ousadia, de não ter medo de tentar coisas diferentes. Se olharmos um pouquinho a história mais recentemente na minha carreira, ela tem muito a ver com isso, de montar empresa, de fazer coisas diferentes, contratar gente do mercado, poder trazer novos modelos de negócios para a região, para a América Latina. Então, eu acho que foi muito interessante esta formação multidisciplinar lá atrás, para me ajudar nas características mais recentes, daí usando um pouco de exemplo, o que fazemos aqui no Facebook.

E o que você faz no Facebook?

Eu estou liderando a empresa na América Latina. Eu iniciei a empresa aqui no Brasil. Então, meu papel é bem mesmo o de líder empreendedor, que contrata pessoas, pesquisa e determina quais são os processos mais viáveis para a empresa, discute seu crescimento com os Estados Unidos, educa o mercado, inspira as pessoas que estão aqui (os colaboradores). Hoje, o meu papel é esse. Eu iniciei o Facebook, depois de ter saído do Google após quase seis anos. E comecei trabalhando de casa, ligando para candidatos, falando com clientes, marcando reuniões. Agora, já estamos estabelecidos, temos uma estrutura grande, estamos preparados para crescer, já temos quase 50 pessoas no escritório do Brasil e quatro operações na América Latina. Ao longo desses dois anos houve essa atitude de ser o líder empreendedor.

O que isso significa?

Liderar e empreender ao mesmo tempo. Significa não ter problemas de arregaçar as mangas apesar da responsabilidade, não ter problema de ir comprar uma geladeirinha para trazer para o escritório, ou trabalhar de casa, ou passar o dia ligando para candidato, contratar gente, rever currículo.

Pesa mais comandar uma empresa como o Facebook, que é mais exposta, está sempre nos meios de comunicação, é sempre notícia?
Quando se lidera uma empresa que tem um impacto tão grande na sociedade, não tenha dúvida de que se fica muito mais exposto, que se tem muito mais responsabilidades. Há dois anos, quando eu entrei e trabalhava de casa para abrir a empresa no Brasil, nós tínhamos mais ou menos 12 milhões de usuários. Hoje, temos 67 milhões. O escopo do trabalho, a responsabilidade, aumentaram É um fator inerente ao crescimento da relevância da empresa no Brasil. Então, a cobrança é natural, principalmente pelo tamanho que a empresa tem.

Mas impressão é de que a cobrança é muito maior, não apenas em relação ao cliente, mas também da matriz.
Eu acho que hoje todo executivo é muito cobrado. Não acho que seja uma característica específica do Facebook. Qualquer líder de empresa que passe por esse crescimento que tivemos vai ser muito cobrado, porque, por um lado, há o crescimento muito acelerado e, por outro, ele também tem de devolver resultado, tem de criar a estrutura para poder suportar esse crescimento. Eu acho interessante não só esse trabalho de ser líder empreendedor, de construir, de acompanhar o crescimento, é também preservar um pouco essa cultura de start up.

Vocês têm essa cultura?

Nós temos essa cultura de start up muito forte. Então, por isso eu acho que no fundo nós tentamos minimizar um pouquinho essa pressão pelo resultado mantendo um ambiente de trabalho bastante saudável. Eu lido com um público (interno) bastante jovem, vários não tiveram ainda muitas experiências profissionais. Então, para aliar esse crescimento acelerado com o público mais jovem, é preciso ser um líder inspirador, tem de mostrar o caminho para o pessoal, trabalhar junto, arregaçar as mangas, trabalhar até tarde. Eu penso que essa cobrança vai ser inerente a qualquer empresa que tenha um crescimento como o que obtivemos. Não acredito que seja uma coisa só do Facebook.

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