Escavando conhecimento e lapidando histórias: o uso de filmes na educação

Escavando conhecimento e lapidando histórias: o uso de filmes na educação

Educar é também contar histórias, e isso funciona porque as emoções ajudam no aprendizado; no filme 'A Escavação', da Netflix, lições de liderança e protagonismo feminino são destacadas

Marisa Eboli

16 de fevereiro de 2021 | 10h32

Assisti na semana passada ao novo filme A Escavação, lançado pela Netflix e dirigido por Simon Stone e estrelado por Ralph Fiennes, Carey Mulligan e Lily James, dentre outros famosos. Mesmo sem ser minha intenção inicial, foi impossível não conectar várias situações apresentadas no filme com conceitos de gestão.

Resolvi escrever a respeito não só pelos ensinamentos proporcionados pelo longa metragem, mas também para reforçar quão útil este recurso é à educação. Utilizar filmes na aprendizagem de alunos de qualquer idade não é ideia nova. Já usava esta técnica, há quase 35 anos, quando comecei a dar aula na FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade-USP). Nesta ocasião, tratava de gestão de pessoas, explicava os conceitos e depois aplicava exercícios, ilustrando com trechos de algum filme do circuito comercial. Os alunos sempre gostavam.

E por que esse tipo de filme e não filmes didáticos ou de treinamentos? Porque a indústria do audiovisual, capitaneada por Hollywood, com sua dramaturgia, sabe melhor do que ninguém contar bem uma história e emocionar grandes plateias. Educar é também contar histórias, afirmam os especialistas em educação. E isso funciona bem, pois as emoções ajudam o aprendizado a se instalar na memória permanente.

Filmes conectam-se com a nossa experiência e emoções, colocam problemas, demonstram a utilidade e a importância do assunto em questão e motivam o aprendizado, conforme preconiza o modelo andragógico de Knowles, Holton e Swanson.

A tecla na qual tenho martelado é a utilização de filmes numa abordagem de “metodologias ativas”, o que tem se mostrado bastante motivador para os alunos e muito eficaz para a aprendizagem. Tenho adotado essa prática na disciplina de Laboratório de Gestão no curso de graduação em Administração da FIA (Fundação Instituto de Administração), que está sintonizada com a abordagem pedagógica da faculdade que busca privilegiar o uso de metodologias inovadoras de ensino e assim atender aos padrões internacionais de acreditação.

Cena do filme ‘A Escavação’, com os atores Carey Mulligan e Ralph Fiennes. Foto: Netflix

Voltemos ao filme. A Escavação baseia-se em história real, sendo uma adaptação do livro homônimo de John Preston, cuja tia Margaret “Peggy” Piggott esteve envolvida na incrível descoberta que veio a ser chamada de Tutancâmon Britânico.

Ralph Fiennes e Carey Mulligan interpretam o arqueólogo autodidata Basil Brown e Edith Pretty, respectivamente. Ela era viúva e proprietária de terras em Sutton Hoo, em Suffolk, na Inglaterra. Tudo acontece no ano de 1939, quase no início da 2ª Guerra Mundial. Interessada em arqueologia desde pequena, desconfia de que os montes de terra presentes em sua propriedade poderiam conter artefatos de origem Viking.

Seguindo recomendação do Museu de Ipswich, Pretty contrata Brown, um nativo da região que abandonara a escola aos 12 anos. Contudo, seguiu a tradição profissional da família, aprendendo o ofício de escavador de peças arqueológicas com seu pai, que por sua vez tinha aprendido com o avô. Abandonara a escola, mas jamais os estudos. Conhecia bem a terra local, pois havia sido trabalhador agrícola. Além da arqueologia, aprendeu vários idiomas e estudou astronomia.

Brown começou a escavação dos montes menores contrariando o pressentimento de Pretty. E retrucou: “Eu faria as escavações com base em evidências e não em pressentimentos”. Mas depois teve que dar o braço a torcer e passou a escavar o monte maior, anteriormente indicado pela viúva. Eis então que encontra fragmentos de ferro identificados como rebites de um barco.

Peggy Piggott (Lily James), uma das arqueólogas que compunha a equipe, pouco valorizada por Mr. Phillips, diretor do British Museum, em Londres, encontrou a primeira moeda de ouro, do final do século VI. Isso confirmou as suposições de Brown de que seria um tesouro anglo-saxão e não do período em que os Vikings estiveram na Inglaterra, como se imaginava.

Assim que Mr. Phillips toma conhecimento dos achados, passa a se intrometer nas escavações, assumindo o controle e marginalizando Brown. Não admitia que uma pessoa sem diploma dominasse os trabalhos e sentencia para Pretty: “Ter pouco estudo é perigoso”. Ela imediatamente revida: “Quanta arrogância, Mr. Phillips”. Ele foi obrigado a reconhecer que Brown tinha razão. Podia ter pouca educação formal, acadêmica, mas Brown sabia muito. Declara Phillips estarrecido: “É da Idade das Trevas, meu Deus! É do século VI! Isso muda tudo. Eles não eram apenas saqueadores, tinham cultura. Tinham arte. Tinham dinheiro.”

Aconselhado pela sua mulher, May, Basil Brown resolve continuar na missão. Mostra a ele que, se não ficasse até o fim, a chance de seu trabalho e sua descoberta serem reconhecidos seria ainda menor. “Você não diz que seu trabalho não é sobre o passado ou o presente, é sobre o futuro, para que as próximas gerações saibam de onde vieram?”, adverte May. É a típica liderança invisível, nos bastidores, mas fundamental para a decisão de ele retornar às escavações.

Apesar das disputas iniciais, Basil e Phillips passam a cooperar. Havia algo maior ali…

Não pretendo entrar aqui em detalhes, embora já se saiba o final da história, pois vale a pena ver o filme, não só pela trama, pela performance dos atores e das atrizes, mas também pela fotografia, pela beleza estética e pela sutileza. Vejamos alguns temas que chamaram minha atenção.

  • A disputa entre Phillips e Brown ilustra as diferentes bases de poder e de liderança. O poder de Phillips apoia-se na organização a que pertence, é o poder legitimado pelo cargo de diretor do British Museum, além de ser oriundo de Cambridge. E o cargo lhe confere o poder de ameaçar ou recompensar os membros da equipe. Já a força de Basil Brown vem das suas próprias qualidades, da sua especialização, do respeito ao seu próprio conhecimento e da sua competência.

Embora a contribuição de Brown tenha sido crucial, destaque-se que, até pouco tempo atrás, seu nome não era mencionado na exposição permanente dos tesouros de Sutton Hoo, no British Museum, apesar da recomendação de Pretty. O desaparecimento do seu nome ilustra a assimetria de poder.

  • Basil Brown assimilou seu conhecimento de seu pai, passado de geração em geração, com base no senso comum e na convivência quotidiana. O conhecimento é adquirido na prática, no diálogo ao longo do trabalho. “Identifico qualquer punhado de terra em Suffock e sei a quem pertenceu”, orgulha-se Brown. Sendo assim, demonstra ser detentor de conhecimento tácito e da intuição que vem da prática. Isso fica claro nas conversas entre Robert, filho de Pretty, e sua mãe. “Você sabe qual a parte mais importante do corpo de um arqueólogo? O nariz, me ensinou o Sr. Brown.”
  • Além dessas questões, o filme também mostra a liderança e o protagonismo feminino de Pretty. Ela é uma líder intradeterminada, como diria Abraham Zaleznik, na medida em que buscou a realização das próprias fantasias, sonhos e ideais, guiada por sua forte sensibilidade e intuição. Note-se que exerceu com maestria a intermediação de conflitos entre Basil e Phillips. Ademais, mostrou seu espírito de cidadania ao doar todo o acervo encontrado para o British Museum, que até hoje mantém uma exposição com as peças.

Ela teve uma atitude comprometida com os interesses da sociedade e não apenas com os seus próprios. De fato, poderia ter sido remunerada pela cessão das obras. Percebeu a importância de exibir os tesouros de Sutton Hoo em um museu de primeira linha, visitado por milhões. Na verdade, “qualquer museu é uma instituição que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade” (Conselho Internacional de Museus). Um museu pode cumprir sua missão de maneiras variadas, mas não excludentes: deslumbrando, chocando, arbitrando, divertindo e educando.

Uma das riquezas do filme é mostrar dois planos muito diferentes de um mesmo evento. A “cozinha” da arqueologia é desvendada, com suas intrigas e aleatoriedades. Se a busca tardasse, seria interrompida pela guerra iminente. No outro plano, está a revisão da história. Apesar de todos conflitos, questionamentos e polêmicas, os achados nas terras de Sutton Hoo trouxeram testemunhos materiais que contribuíram para reescrever as origens históricas da Inglaterra.

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É professora de Graduação e do Mestrado Profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios. (meboli@usp.br)

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