‘Eu não me desanimo com um não’

‘Eu não me desanimo com um não’

Dirigente de unidade brasileira da empresa austríaca Fronius, Monalisa Gomes conta que não se abate com dificuldades e quando tem um ideal, vai atrás até realizá-lo

Claudio Marques

29 de janeiro de 2018 | 07h00

Monalisa Gomes, diretora-geral do grupo Fronius no Brasil Crédito: Ricardo Honório / Studio Motion / Fronius

Por Cláudio Marques
“Para mim, a palavra ‘não’ não é um empecilho”, afirma Monalisa Gomes, que aos 34 anos de idade é diretora-geral da austríaca Fronius no Brasil. Mais do que uma frase de efeito, a trajetória da executiva pode comprovar esse traço de sua personalidade. Vindo de família humilde, enfrentou muitas dificuldades até para se graduar. Morou na periferia, estudou em escola pública e, aos 19 anos, tornou-se mãe. “Não foi fácil, foi complicado”, relembra. Mas ela conseguiu dar conta de ser mãe, trabalhar e estudar e rejeita a ideia de que muitas das dificuldades que enfrentou fossem por causa de sua origem humilde ou por ser negra. Em 2006, entrou na Fronius e em abril do ano passado se tornou a principal dirigente no País. A companhia familiar foi fundada há 70 anos e possui 4 mil funcionários ao redor do mundo. “Tem uma estrutura enxuta”, diz Monalisa. No Brasil, são 60 colaboradores. Segundo a executiva, o organização tem três unidades de negócios no Brasil: revenda de máquinas de solda, carregadores de baterias e painéis de inversor solar. Em março, a empresa vai se transferir de Diadema para um novo espaço em São Bernardo do Campo. A seguir, trechos da conversa.

A escolha
Eu trabalho na Fronius desde 2006, construí minha carreira praticamente lá dentro. Fui crescendo em diversas áreas, administração, finanças, contabilidade, recursos humanos, supply chain, e tenho esse know how de conhecimento do grupo. Fui escolhida pela confiança que as pessoas depositam em mim, que fui adquirindo ao longo desses anos, e pelo meu background, financeiro e de controladoria. Eu sou formada em ciências contábeis e tenho MBA em finanças e controladoria de serviços.

Desafio
O desafio agora é ser uma brasileira, mulher, à frente de uma empresa europeia. Eu sou a quinta mulher no comando (de uma subsidiária) – o Brasil tem crescido bastante dentro do grupo.

Força de vontade
Acredito que eu sou bastante resiliente. Quando eu tenho um ideal, eu fixo uma meta e vou buscar. Para mim, a palavra “não” não é um empecilho. Quando eu recebo um não, eu tento entender o motivo e procuro contornar, saber onde posso melhorar, como posso crescer, de que forma diferente eu posso entregar…

Sem desânimo
Não me desanimo com o não. Na verdade, ele é motivador. Principalmente lá atrás quando engravidei eu ouvi muitas pessoas falarem ‘pronto, acabou a vida’. E foi o contrário. Eu falei não, agora é que vai começar! Tenho uma filha na minha mão, uma responsabilidade a mais além de mim. E esses “nãos” me fortaleceram. Eu não tenho medo de não.

Maternidade
Fui mãe aos 19 anos e, nessa época, trabalhava com minha mãe. Não foi fácil, foi complicado. Eu venho de uma família simples, minha mãe me ajudava a pagar metade da faculdade. Metade do dinheiro que eu ganhava era para leite, fraldas, essas coisas. Houve situação de a minha filha estar internada no hospital em dia de prova e eu passar o dia lá com ela e, à noite, ia fazer a prova.

Resiliência
Meus pais sempre me ensinaram a não desistir, a ser resiliente, batalhar, e isso foi o que sempre me fortaleceu. E não me deixei abater. Não foram fases muito boas em termos financeiros (na época da maternidade), mas em termos de amadurecimento e de valor que damos para outras coisas da vida foram foi (uma fase) muito importante.

Mãe e executiva
Lá atrás, quando eu estava ingressando no mercado de trabalho eu cheguei a ouvir ‘ah, você não pretende ser mãe de novo, não?’, ‘você não precisa ter filho agora’, esse tipo de comentários. É difícil pois quando somos mulher e executiva, ainda há a culpa, porque você está deixando os filhos em casa, o cargo exige que viajemos. Então, na vida com a família, com os filhos, na verdade temos qualidade e não quantidade. Acho que temos de ficar o mais próximo possível o pouco tempo que nós temos. Eu acho que é difícil (para a mulher ser executiva), porque eu particularmente já ouvi, e já senti, algumas vezes, que eu fui podada em alguns processos por ser mulher e ainda mais por já ter sido mãe. Eu acho que isso está mudando, mas ainda é um processo. A maternidade não me atrapalhou em nada em me desenvolver dentro da empresa que eu trabalho hoje.

Cor
Eu nunca fui para um processo e já entrei derrotada por ser mulher ou negra. Se eu recebesse um não, como disse anteriormente, eu tentava entender o que havia se passado, que qualificação eu não tive e procurava descobrir onde podia melhorar, o que eu poderia trazer de diferente numa próxima entrevista ou processo. Isso não vai mudar, eu não vou conseguir trocar a cor da minha pele, ou me fazer de coitada. Eu tenho de enter o que, pelas minhas características, eu posso entregar, o que eu posso fazer diferente. Eu sempre pensei que se alguém faz um trabalho, eu também posso fazer. Então, eu só preciso saber o que falta preencher para executar o trabalho.

Ouvir
Uma coisa que aprendi é ouvir. É escutar de fato as ideias, o que as pessoas me trazem. Ouvir para mim é essencial. Eu tinha muita dificuldade, já apanhei, sofri muito, porque eu tinha minha ideia na cabeça, e hoje aprendi a ouvir de verdade, a dar atenção, é muito importante.

Marca
A proximidade para mim é muito importante, é importante que as pessoas estejas engajadas, entendam a minha liderança e caminhem comigo, não pela força, mas sim por acreditar naquele ideal e visualizar aquilo que estou vendo lá na frente. Como gestora, a minha principal característica é estar próxima das pessoas. Eu gosto dessa proximidade, dessa abertura. Eu já recebi ideias, sacadas, geniais de pessoas que tinham cargos bem abaixo do meu, mas tinham ideias gigantescas. Isso é estar ouvindo de fato. Eu gosto de andar pela empresa, de cumprimentar as pessoas, tomar café da manhã, almoçar com elas.

Novo patamar
Sempre almejei o crescimento na minha carreira e, uma vez à frente da Fronius, eu quero levá-la para um outro patamar aqui no Brasil. Tornar esse nome mais forte, mais conhecido e reconhecido. Eu acho que o Brasil é pouco, eu almejo a América Latina inicialmente, porque ainda temos muito o que fazer aqui. Como Fronius Brasil, ainda temos o que explorar na América do Sul em termos de ampliação de mercado.

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