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Flexibilidade é vital para quem viaja sempre a trabalho

Profissionais com agendas cheias de tarefas em outras cidades ou países precisam lidar com a culpa pela ausência na vida familiar

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04 Junho 2018 | 10h03

Edna Bedani. Foto: Marcelo Hamamoto/Divulgação

Vitória Abel de Oliveira
ESPECIAL PARA O ESTADO
A realidade de trabalho de muitos profissionais inclui a necessidade de viagens constantes. E para encarar essa rotina, conforme a diretora-executiva de aprendizagem da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Edna Bedani, é necessário ter o perfil de uma pessoa desapegada da rotina.
“Esse profissional precisa de flexibilidade e facilidade de adaptação às mudanças porque quem vive viajando muda de cenário e de relações todos os dias. E quem tem família deve estar preparado para lidar com a culpa, pois nem sempre estará presente em datas importantes”, ressalta.
Essa é a realidade de toda a trajetória profissional, iniciada há 30 anos, do atual vice-presidente de desenvolvimento humano da Serasa Experience, Guilherme Cavalieri. Segundo ele, não é incomum haver coincidência de datas entre uma viagem profissional e uma comemoração familiar importante, como o aniversário da mulher ou dos filhos. “Na maioria das vezes, precisei priorizar os compromissos profissionais. É um grande sacrifício pessoal”, diz.
“Iniciei minha carreira na Unilever e fiz viagens pelo Brasil para participar de cursos. Depois, trabalhei na LG Eletronics e cerca de quatro vezes por ano ia para a Coreia do Sul. Por dez anos, também trabalhei em uma farmacêutica alemã e tinha de viajar a cada quatro meses para reuniões na sede”, conta.
Agenda. Cavalieri diz que pela Serasa viaja a cada dois meses à Colômbia, onde a empresa possui o principal centro de gestão da América Latina. “Também participo de reuniões a cada três meses na sede, na Inglaterra, ou nos Estados Unidos, onde ocorrem as principais operações da empresa.”
Além disso, o centro de operações da Serasa no Brasil fica em São Carlos, interior de São Paulo, para onde ele vai a cada três ou quatro semanas.
A diretora-executiva da ABRH lembra que, por mais que as viagens sejam preparadas, nem sempre o planejamento dá certo. “A pessoa necessita de paciência para aguardar o voo e esperar a mala, por exemplo. Para isso, é preciso boa saúde e preparo físico, porque não é fácil estar sempre se deslocando”, diz.
Cavalieri concorda e conta que quando era mais jovem sentia menos o cansaço das viagens. “Depois dos 50 anos, a adaptação ao fuso horário, por exemplo, começa a ficar mais lenta e aumenta a dificuldade de dormir. Por outro lado, o tempo de viagem conta com vantagens. No avião fico sozinho e sem telefone. Uso estes momentos para ler, relaxar ou ver um filme.”
O executivo possui o hábito de praticar corridas e procura manter a rotina durante as viagens. “Já com a alimentação nem sempre é possível, pois os costumes alimentares mudam bastante de um país para o outro. Quando eu estava na Coreia, dificilmente achava algo que se assemelhasse ao que consumo no dia a dia.”
Hoje, com as três filhas crescidas, Cavalieri diz que muitas vezes sua mulher consegue acompanhá-lo nas viagens internacionais. “Isso tem sido bastante positivo para o nosso relacionamento conjugal, porque esticamos a estadia e podemos passear um pouco.”

Guilherme Cavalieri. Foto: Carol Carquejeiro/Divulgação

Conhecer lugares diferentes está entre as vantagens apontadas pela diretora-executiva da ABRH. “Além disso, esse profissional se depara com pessoas e culturas diferentes e pode praticar novos idiomas.”
Quem está muito feliz com esse tipo de rotina é Carla Barbosa, diretora de Marketing para América Latina da Herman Miller, empresa norte-americana de mobiliário de design. Durante o primeiro ano nessa função, suas viagens tinham como destino os centros de distribuição da empresa, instalados no México, Guatemala, Colômbia e outros países da América Central. “Precisava disseminar a cultura de marketing e vendas da empresa. Cheguei a fazer dez viagens internacionais em um ano. Hoje, faço de cinco a seis e cada uma dura cerca de sete dias.”
A executiva também tenta manter a rotina de exercícios e alimentação durante as viagens. “Gosto dessa rotina, porque a troca cultural é muito bacana para o próprio negócio.”
Carla conta que fazer uma viagem a cada dois meses é ótimo para mudar de hábitos. “Meu marido tem o mesmo ritmo e já nos encontramos no aeroporto, quando eu estava voltando e ele estava indo. Isso faz muito bem ao casamento, porque há intensa troca de experiências.

EXECUTIVA ATUA UM MÊS EM CADA PAÍS POR UM ANO

Mesmo sem uma rotina de viagens frequentes, a gerente global sênior de desenvolvimento e treinamento de liderança do laboratório alemão Boehringer Ingelheim, Anne-Madeleine Kleinwächter, foi selecionada pela empresa para participar Remote Year, programa que leva profissionais para trabalhar ao redor do mundo de forma remota – será um mês em cada país durante um ano.

O programa foi criado para desenvolver a capacidade de adaptação a novos ambientes de maneira ágil, em uma abordagem de aprendizagem em três níveis: o modo como eles trabalham, vivem e se encontram como cidadãos globais. Todos os anos, cerca de 250 mil profissionais e freelancers da empresa nos EUA, Europa e Austrália se inscrevem e 65 são selecionados. Os participantes têm entre 20 anos e 60 anos.

Anne-Madeleine Kleinwächter. Foto: Felipe Rau/Estadão

No final da experiência, Anne-Madeleine terá passado três meses na Europa, três meses na Ásia e seis meses na América do Sul, enquanto trabalhava regularmente na farmacêutica. “A experiência é desafiadora e diferente de tudo ao que estava acostumada. Preciso me adaptar rapidamente a cada localidade. Isso requer flexibilidade e habilidade para me sentir em casa rapidamente, pois se não me sentir em casa em cada novo lugar, não me sentirei assim por um ano, o que é muito tempo.”

Segundo ela, no âmbito profissional a experiência a ajudou a crescer e a se concentrar. “Foco e priorização são muito importantes, pois em cada local existem inúmeras coisas acontecendo ao meu redor e se não focar no que importa, que é o meu trabalho, posso me perder com tanta informação.”
Anne-Madeleine conta que também adquiriu agilidade e disposição para aprender com a mente aberta e vivenciar as diferentes culturas. “Se a pessoa só aprende sobre as diferenças culturais na teoria, a experiência não tem o mesmo impacto. Sair da zona de conforto e tentar coisas novas é essencial para ter sucesso na experiência.”

A executiva afirma que faltam três meses para terminar o programa e que já fez conexões “incríveis” pelo mundo todo. “Comecei um blog sobre o meu aprendizado para compartilhar minha experiência com o time.”

Ela considera que o conceito ‘nômade digital’ pode colocar as organizações na vanguarda dos locais de trabalho flexíveis. “No caso da Boehringer, adotamos a possibilidade de trabalho flexível como atrativo para todas as gerações. Estamos abertos a mudar e a experimentar coisas novas.”

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