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Futuro: com robôs e quais empregos?

Os impactos no mercado de trabalho não poderão ser evitados: desemprego de um lado e surgimento de novas profissões de outro

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08 Setembro 2018 | 12h07

Imagem: Pixabay

MARISA EBOLI*

“Todas as casas terão um computador conectado ao mundo todo. Haverá informações necessárias para a vida cotidiana como extrato bancário, ingressos de teatro; todas informações para viver numa sociedade moderna complexa… Haverá uma tela de televisão pequena e um teclado e será possível falar com o computador e receber informações. E vai ser tão natural como o telefone é hoje para nós”.

Com este depoimento do visionário escritor britânico Arthur C. Clarke, em uma entrevista realizada em 1974, inicia-se o filme Steve Jobs, do consagrado diretor Danny Boyle. A reação do jornalista aos comentários de Clarke foi imediata (e muito atual também…): “Eu me pergunto, no entanto, que tipo de vida será, em termos sociais. Se a vida gira em torno do computador, seremos uma sociedade dependente dele?” Ao que Clarke responde: “Em alguns aspectos, sim, mas também vai trazer benefícios à sociedade. Será possível viver em qualquer lugar da Terra, não ficaremos presos às cidades, poderemos viver no campo ou onde mais quisermos”.

O lendário  Arthur C. Clarke, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica como o conto The Sentinel, que deu origem ao filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, em 1945 já propunha a ideia de satélite geoestacionário como futura ferramenta para desenvolver um sistema de telecomunicação que atingisse todos os lugares do mundo. À época ninguém levava a sério a ideia de explorar o espaço.

Quando no início do ano li documento contendo as previsões da Singularity University até 2038, foi impossível não ter uma reação semelhante à do jornalista que entrevistou Clarke.

Vejamos algumas das previsões:

2020

  • Diagnósticos baseados em IA (inteligência artificial) e recomendações terapêuticas serão usadas na maioria dos centros médicos americanos.
  • Carros voadores entram em operação em algumas cidades.

2022

  • Impressoras 3D conseguem imprimir roupas e materiais para montagem de casas e prédios.
  • Robôs domésticos tornam-se normal em alguns lares de renda média
  • Robôs conversam naturalmente e atuam como recepcionistas, assistentes de lojas e escritórios.

2024

  • Lidar com inteligência artificial aumentada é considerado um requisito para a maioria dos empregos.

2028

  • Robôs terão relacionamentos reais com as pessoas, dando suporte aos idosos, cuidando da higiene pessoal e preparação de alimentos.

2032

  • Robôs avatares tornam-se populares, permitindo que qualquer um possa teleportar sua consciência para locais remotos em todo mundo.

2038

  • O dia a dia já não é mais reconhecível – a realidade virtual e inteligência artificial alavancam todas as partes da vida humana no mundo inteiro.

Tais previsões colocam muitas inquietações: aumentará o fosso entre países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos? Os impactos no mercado de trabalho não poderão ser evitados: desemprego de um lado e surgimento de novas profissões de outro. Qual o destino de pessoas que ficarão desempregadas? Como as organizações estão se preparando para essa nova realidade? Como será tratada a liderança e o relacionamento entre pessoas e robôs nas organizações? E no nosso cotidiano?

O lançamento do livro 21 lições para o século 21, de Yuval Noah Harari, parece muito oportuno para nos ajudar a pensar, sem alarmismo e com seriedade, sobre o assunto. Diferentemente de Sapiens e de Homo Deus, nesse livro o autor não faz uma narrativa histórica, e sim uma coletânea de lições com agenda global que visam a estimular reflexões. Ainda estou in progress na leitura do livro, por isso vou me ater aos capítulos iniciais da parte 1 – O desafio tecnológico – que tratam de temas mais pertinentes às questões colocadas nesta coluna: tecnologia, emprego, relações sociais e de trabalho, etc.

O livro não tenta cobrir todos os impactos das novas tecnologias, e embora Yuval reconheça que a tecnologia encerre muitas maravilhosas promessas, ele destaca principalmente as ameaças e os perigos que ela traz, cabendo aos sociólogos, filósofos e historiadores fazer soar o alarme e explicar o que pode dar errado.

Reproduzo a seguir alguns trechos que chamaram minha atenção:

A perda de muitos trabalhos tradicionais, da arte aos serviços de saúde, será parcialmente compensada pela criação de novos trabalhos humanos. Um clínico geral que diagnostica doenças conhecidas e administra tratamentos de rotina provavelmente será substituído pela IA médica. Mas, justamente por causa disso, haverá muito mais dinheiro para pagar médicos e assistentes de laboratórios humanos que façam pesquisas inovadoras.

A IA poderia ajudar a criar novos empregos humanos de outra maneira. Por exemplo, a substituição de pilotos humanos por drones eliminou alguns empregos, mas criou muitas oportunidades novas em manutenção, controle remoto, análise de dados e segurança cibernética. As Forças Armadas dos Estados Unidos precisam de 30 pessoas para operar cada drone Predator ou Reaper sobrevoando a Síria, enquanto a análise das informações coletadas por ele ocupa pelo menos mais 80.”

E nesse sentido o autor sugere que provavelmente o mercado de trabalho em 2050 caracterize-se pela cooperação, e não pela competição, entre humanos e IA. O problema, ressalta Yuval, é que todos esses novos empregos certamente exigirão altos níveis de especialização, e não resolverão, portanto, os problemas dos trabalhadores não qualificados que ficarão desempregados. A criação desses novos empregos exigirá uma boa educação, formação técnica e em humanidades e capacidade de aprendizagem constante das pessoas para ocupá-los. E sem uma sólida educação básica não há condições para a aprendizagem permanente.

E aí pergunto: o Brasil está se preparando para essa nova realidade? E as empresas? E você, caro leitor? Ou ainda acha que esse cenário é improvável e ideia de malucos?

*ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO CORPORATIVA, É PROFESSORA DE GRADUAÇÃO E MESTRADO PROFISSIONAL DA FACULDADE FIA DE ADMINISTRAÇÃO DE NEGÓCIOS.

E-MAIL: meboli@usp.br