Ganho médio de CEO subiu em 2019 e pode continuar crescendo apesar de recessão

Ganho médio de CEO subiu em 2019 e pode continuar crescendo apesar de recessão

Ganhos de CEOs chegam a representar 320 a 1 em relação ao salário de funcionários, segundo levantamento nas 350 maiores companhias dos EUA; mercado de ações deve impulsionar novos ganhos

Jena McGregor

21 de agosto de 2020 | 10h46

The Washington Post

Alimentada pelo mercado de ações em alta, no ano passado a remuneração dos principais executivos chegou ao seu patamar mais elevado dos últimos sete anos e poderá subir novamente em 2020, não obstante o número enorme de demissões e os cortes dos salários na esteira da recessão, amplificada pela crise do novo coronavírus.

O Economic Policy Institute, um grupo de especialistas de esquerda, concluiu que os principais executivos das 350 maiores companhias dos Estados Unidos receberam uma remuneração média de US$ 21,3 milhões em 2019, de maneira que a proporção do pagamento de um executivo para um funcionário foi de 320 a 1, ante 293 a 1 em 2018, e mais de cinco vezes acima da relação 61 a 1 de 1989.

Os detalhes a respeito dos pagamentos feitos aos CEOs estão atrasados porque são compartilhados em documentos corporativos de delegação, que costumam ser divulgados no início do ano seguinte, antes das reuniões anuais de primavera de muitas companhias. Consequentemente, os números muito altos foram abertos ao público em um momento em que a pandemia devasta o mercado de trabalho, e a desigualdade da renda se tornou uma questão básica das campanhas eleitorais.

“Os CEOs não só estão muito bem por se encontrarem no patamar mais elevado, como sua situação é muito melhor do que a de todos os outros trabalhadores neste mesmo patamar”, disse Larry Mishel, economista sênior do trabalho do EPI.

Entre 1978 e 2010, segundo a análise do EPI, as remunerações dos CEOs, corrigidas de acordo com a inflação, subiram 1.167%, muito mais do que 0,1% de funcionários que recebem salários mais altos, cuja remuneração cresceu 337% entre 1978 e 2018 (o ano mais recente para o qual os cálculos estão disponíveis). Ao mesmo tempo, o pagamento dos trabalhadores comuns, segundo dados baseados fundamentalmente nos que foram fornecidos pelo Bureau of Labor Statistics para o salário do trabalhador em tempo integral de cada setor, cresceu apenas 13,7% nos últimos 40 anos.

Mercado de ações deve ajudar CEOs a ganharem mais em 2020; na foto; Bolsa em São Paulo. Foto: Gabriela Biló/Estadão-6/2/2018

Em seu relatório anual, o EPI usa uma medida de compensação “realizada” que conta os valores das opções de ações quando se transformam em dinheiro vivo, e dos prêmios em ações quando são investidos, o que significa que são de propriedade daquele executivo. Em 2019, esta abordagem resultou em uma cifra maior do que a obtida calculando a remuneração dos CEOs na data da concessão, ou o valor das opções e dos prêmios quando são concedidas aos executivos. Segundo esta medida, sua compensação cresceu 8,6% em 2019, para US$ 14,5 milhões.

Mishel acredita que a forma “realizada” reflete melhor a renda tributável do CEO para aquele ano, enquanto a do cálculo concedido se baseia em uma fórmula para determinar o valor que, segundo ele, pode ser “prematuro”.

Corte no salário de executivos

Muitas companhias disseram que os CEOS e os outros altos executivos sofrerão cortes dos pagamentos em 2020, porque a pandemia do coronavírus afetou profundamente as previsões financeiras, e as companhias tiveram de colocar em licença ou demitir parte dos trabalhadores.

A FedEx por exemplo, informou que cortará o salário base do CEO e chairman Frederick W. Smith em 91% por um período de seis meses, enquanto, em abril, a corretora de seguros global Aon cortou o salário base dos seus mais altos executivos em 50% como parte de um programa de cortes mais amplo (desde então ela se recuperou e reembolsou o que foi cortado dos funcionários, mas manteve os cortes salariais temporários para os altos executivos).

Entretanto, segundo Mishel, muitas pessoas não compreendem que o salário base e os bônus anuais em dinheiro constituem uma parcela relativamente pequena do pacote da remuneração de muitos altos executivos. “A remuneração do CEO nos últimas décadas acompanhou o mercado de ações porque cerca de 75% da remuneração dos altos funcionários é composta por prêmios em ações e opções de ações”, acrescentou.

Segundo os conselhos de direção, o pagamento dos CEOS está vinculado ao mercado de ações a fim de equilibrar os interesses dos executivos com os dos acionistas, mas Mishel afirmou que tendências econômicas mais amplas ou mudanças da política, como cortes de impostos, podem elevar as ações da companhia por razões externas às decisões individuais dos CEOs.

Uma análise divulgada em julho pela CGLytics, uma empresa que compila dados da governança corporativa, concluiu que das 419 companhias do índice Russell 3000 que informaram detalhes a respeito do corte dos salários, 66% tiveram reduções iguais a apenas 10% ou menos da sua remuneração de 2019.

É por isso que Mishel acredita que é possível que a remuneração dos CEOs poderá aumentar em 2020 com a recuperação do mercado acionário, que está de olho nas altas recordes. Se isto acontecer, poderá assinalar uma divergência em relação às duas recessões passadas, quando o pagamento dos CEOs caiu, em 2001 e em 2002, segundo dados do EPI, depois da marca mais elevada em 2000, e em 2008 e 2009, por causa da crise financeira.

Robin Ferracone, CEO da empresa de consultoria de compensações Farient Advisors, disse que, embora seja possível um aumento médio das remunerações dos CEOS em 2020, provavelmente será achatado ou um pouco abaixo da média. Além dos cortes salariais e provavelmente de bônus anuais menores, muitos incentivos de ações a longo prazo dos CEOs são chamados “cotas de performance”, vinculadas a métricas financeiras subjacentes que provavelmente se reduzirão para muitas companhias.

No entanto, os comitês de compensação terão de levar em conta como os resultados serão vistos pelos funcionários, pelo público em geral e pelos investidores. “Se um trabalhador médio acha que se encontra em uma situação próspera e que está sendo bem tratado pelo empregador, aceitará sem problemas o fato de o CEO levar para casa milhões e mais milhões”, afirmou. “A questão é quando o trabalhador médio deixa de considerar a sua situação próspera. … E este será o teste de 2020”.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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