Geração ‘nem-nem’ quer trabalhar, mas não tem oportunidades
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Geração ‘nem-nem’ quer trabalhar, mas não tem oportunidades

Jovens periféricos que ‘nem trabalham nem estudam’ relatam preconceito com CEP e falta de acesso a vagas, aponta estudo de impacto social; entidades criam iniciativas para inseri-los no mercado

Bianca Zanatta

11 de janeiro de 2020 | 16h00

Especial para o Estado

O Brasil tem 10,9 milhões de jovens entre 15 e 29 anos que nem estudam nem trabalham. O número representa 23% da população nesta faixa etária. Eles são chamados de geração nem-nem e, na maior parte das vezes, são vistos como apáticos ou preguiçosos por não estarem nem trabalhando nem estudando.

Especialistas e profissionais que trabalham com esses jovens, principalmente os de origem periférica, discordam do uso do termo. Sabem que, na prática, a falta de oportunidades e o preconceito com a falta de experiência dos jovens, além de outras questões, tornam a questão “nem-nem” um pouco mais complexa.

Foi a conclusões como essas que chegou a Tese de Impacto Social em Empregabilidade da Artemisia, organização de apoio a negócios de impacto social no País. Ela analisou e cruzou mais de 100 estudos e fontes e realizou entrevistas com 20 players do mercado. Foram reunidos dados públicos de instituições como IBGE e Ministério do Trabalho e Emprego, que resultaram em mais de 200 páginas de estudo.

Aline Tavares, de 25 anos, moradora de Poá, na região metropolitana de São Paulo, faz bicos como monitora de transporte escolar enquanto a oportunidade de emprego não surge. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Sobre a geração “nem-nem”, a Tese mostra, por exemplo, que há 100 vezes menos postos de trabalho para moradores de zonas periféricas. “Entre os que buscam emprego, há relatos de diversas barreiras, sendo uma das principais a segregação espacial”, afirma Priscila Martins, gerente de relações institucionais da Artemisia.

De acordo com ela, além disso, os jovens não têm oportunidades para desenvolver uma trajetória acadêmico-profissional adequada. “Estão trabalhando, mas não recebem remuneração. Poderiam estar estudando, mas ajudam a família.”

A falta de perspectivas de crescimento pessoal, social, econômico e profissional está na raiz do problema. Fundadora da Kinah, iniciativa que busca qualificar e inserir o jovem periférico no mercado de trabalho, Katiana Normandia percorre escolas públicas e espaços que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade oferecendo oficinas e cursos gratuitos com foco em carreira.

“A ideia é mostrar não só que eles podem ter uma carreira, mas também ocupar outros espaços de carreira que geralmente não recebem o jovem periférico”, afirma. A Kinah (expressão de origem africana que significa “pessoa obstinada e empreendedora”) surgiu ainda da percepção de que não há conexão entre o jovem que vive nos extremos da cidade com as vagas disponíveis.

Relação com o RH

Do lado das empresas, o olhar para esta geração precisa de ajustes, diz Katiana. “O RH os trata muitas vezes com ironia, sem empatia nenhuma. O processo seletivo só reforça o preconceito.”

Parte de seu trabalho é ajudar os jovens a construir narrativas de vida, a fim de formatar currículos que mostrem quem eles são e do que são capazes. “Esse jovem precisa chegar na entrevista com autoestima e seguro de si”, atesta.

Outro desafio é conseguir que as empresas abram as portas. Quando há vagas, Katiana liga pessoalmente para o RH apresentando aqueles que se encaixam no perfil. “Eu acredito nas empresas que de fato querem inclusão, que assinam embaixo quando falo que eles só precisam de uma chance.”

Aline Tavares, de 25 anos, moradora de Poá, na região metropolitana de São Paulo, fez diversos cursos de qualificação após completar o Ensino Médio, entre eles o de atendimento ao cliente, mas as negativas têm se enfileirado.

Filha de mãe diarista e pai frentista, ela ajuda nas tarefas de casa e faz bicos como monitora de transporte escolar enquanto a oportunidade não surge. “Tem muita discriminação pelo lugar de onde a gente vem”, relata. “Faço entrevistas, mas não querem pagar a condução intermunicipal. Como posso ter experiência se não há oportunidade?”

Peterson Melo, de 18 anos, é morador do Campo Limpo e estava há quatro anos procurando trabalho. Sociável e comunicativo, nunca teve feedback de nenhum entrevistador, mas identificou por conta própria a necessidade de desenvolver fala e escrita.

Encerrado o Ensino Médio, fez curso de teatro e passou a dar aulas de dança no projeto Arrastão, ONG que dá suporte às famílias pobres do Campo Limpo. Por meio do Arrastão também participou de um projeto de jovem aprendiz. Antes do fechamento desta reportagem, a boa notícia: Peterson foi admitido por um call center. Pretende continuar a estudar para o Enem em paralelo. “Amo dançar, mas quero cursar administração e trabalhar com RH, em recrutamento e seleção.”

Montagem do currículo

A determinação desta turma é um dos pontos-chave. CEO do Instituto Proa, que atua na formação de jovens de baixa renda para o mercado de trabalho, Rodrigo Dib aponta a importância de os jovens se manterem em movimento, identificando sua experiência prévia para montar o currículo.

“Eles têm essa experiência, mas muitas vezes acham que não é válida”, explica. “Há uma série de atividades, histórias e iniciativas pessoais que têm valor para o empregador, como habilidades, comportamento e resiliência.”

O Proa oferece um curso gratuito completo, com aulas técnicas e comportamentais, para auxiliar os alunos na construção de um projeto de vida que envolve formação, emprego, renda e continuidade da educação. Hoje, 85% dos jovens são empregados pós-curso.

Neste ano, o Proa vai entrar nas salas do Ensino Médio, sendo responsável pela metodologia e pelo material didático das aulas de construção de projeto de vida que passarão a fazer parte da grade curricular das escolas estaduais em 2020.

Esta parcela de jovens entrou também no radar do Taqe, aplicativo gratuito que simplifica e aprimora o processo de recrutamento unindo as duas pontas – candidatos e empresas. “Funciona como um aplicativo de relacionamentos, mas voltado ao mercado de empregos”, explica Renato Dias, CEO da plataforma.

Por meio de games e testes, o candidato elabora uma identidade profissional com aspectos que vão além de formação e experiência, como competências comportamentais, nível de conhecimento em temas variados e habilidades. “Estes critérios são mais objetivos para a triagem da empresa.”

A cada etapa, os candidatos têm retorno do aplicativo para entender o resultado e se conhecer melhor, além de aulas aplicáveis que o preparam para o mercado. “Ao passar por um primeiro processo seletivo, mesmo que não seja logo escolhido, o perfil profissional dele já existe e ele é avisado de todas as vagas similares, o que aumenta muito o acesso às oportunidades.”

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