Hiato salarial entre executivo e operário ainda é grande no País
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Hiato salarial entre executivo e operário ainda é grande no País

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09 de dezembro de 2018 | 07h20

Matheus Prado
ESPECIAL PARA O ESTADO

Existe um abismo salarial entre funcionários e executivos dentro das empresas brasileiras, mostra a Pesquisa de Remuneração Total feita pela consultoria Mercer em 130 países. Nas 601 empresas analisadas, o empregado de alto escalão no Brasil ganha, em média, 34 vezes mais do que seu colega operacional.

Se a comparação é feita com a vizinha Argentina, a diferença cai para 17 vezes. Até nos Estados Unidos, onde a meritocracia é um dos maiores incentivos ao trabalho, o salário do executivo é 11 vezes o do operário. Em outros países como Alemanha e Japão, os valores são ainda menores: 5 e 7, respectivamente.

Rogério Bérgamo, líder de produtos de remuneração da Mercer Brasil, explica que a pesquisa é feita há 35 anos e tem como maior objetivo auxiliar as empresas a definir as melhores estratégias de remuneração para reter e atrair talentos. Para ele, alguns fatores ajudam a explicar o atual estado da remuneração no Brasil.

O primeiro é a qualificação dos operários. “Quando a gente analisa a situação da Alemanha, por exemplo, grande parte da indústria já tem certos níveis de automação. Então, os operários possuem maior nível de conhecimento”, argumenta. Devido à falta de infraestrutura por aqui, ainda existem muitas ocupações estritamente braçais.

Outro fator apontado por Bérgamo, este mais cultural, é a mentalidade dos executivos e da sociedade. Ele afirma que em outros países existe a consciência de que os trabalhadores de diferentes níveis não devem receber remuneração muito discrepante. “Já mostrei esse dado para executivos brasileiros e me falaram que, se fosse para ganhar só cinco vezes mais que o operário, como é na Alemanha, eles prefeririam fazer o trabalho operacional.”

Professor de economia do Insper, da FGV e da Unifesp, Renan Pieri concorda que a discrepância na educação é um entrave. “A diferença de material humano aqui no Brasil é bem grande, se comparada com outros países.” Segundo ele, um caminho para melhorar o índice é ampliando o conhecimento. Até porque, justamente por conta do abismo educacional, cada ano de escolaridade a mais é valorizado.

O economista também especula que, em grande escala, os executivos brasileiros podem receber maiores incentivos financeiros para que não se envolvam em práticas de corrupção.

Como minimizar

Apesar do resultado alarmante, algumas iniciativas tentam equilibrar as contas. A Méliuz, startup de Belo Horizonte focada no mercado de cashback (que devolve ao cliente parte do dinheiro gasto na compra), passou a oferecer opções de sociedade a funcionários para diminuir a diferença salarial.

Para Israel Salmen, CEO e fundador do Méliuz, a ideia era fazer com que os colaboradores se sentissem tão donos quanto ele e recompensados pela dedicação. Atualmente, mais de 10% do quadro de funcionários é composto por sócios, com maior equidade salarial. “Em média, os pacotes (para ser sócio) são de seis vezes o salário do colaborador.”

Cristiano Prado, coordenador de Brand Design da Méliuz, tornou-se sócio após trabalhar por dois anos na companhia. “Além do reconhecimento dos resultados, sempre entendi a política de sociedade como um desafio de buscar novas responsabilidades na dedicação ao futuro da empresa.”

Casos mundo afora chamam a atenção quando o caso é equidade salarial. Dan Price, dono de uma empresa de processamento de cartões de crédito em Seattle, nos EUA, decidiu cortar seu próprio salário para criar um salário mínimo dentro da empresa.

O valor, de cerca de US$ 70 mil anuais, passou a servir como base para todo o quadro de funcionários, inclusive o CEO. Alguns funcionários de alto escalão se demitiram inicialmente, mas hoje, três anos depois da medida, a empresa Gravity Payments segue atuante no mercado.

Pesquisa

Dados do levantamento anual da Mercer mostram, além das diferenças salariais, disparidades em relação a gênero. No Brasil, os cargos de presidente nas 601 empresas consultadas são 91% ocupados por homens, apenas 9% por mulheres. Nas indústrias, a divisão por gênero mostra que os setores que mais têm mulheres é o varejo (59%); os homens predominam nas mineradoras (90%).

Para Margareth Goldenberg, uma das líderes do Movimento Mulher 360, existem barreiras invisíveis, como o machismo, que precisam ser combatidas diariamente, e questões inerentes às mulheres, como a maternidade, que necessitam de boas práticas.

Ter um filho nunca deveria impedir a ascensão da mulher e as empresas deveriam priorizar auxílio-creche e carga horária flexível para as mães, pontua a líder da associação, que trabalha desde 2014 com empresas como a Nestlé para tentar mudar esse paradigma.

 

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