Sugestão legislativa no Senado quer barrar coach ‘charlatão’
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Sugestão legislativa no Senado quer barrar coach ‘charlatão’

Proposta de eleitor alcançou em menos de um mês apoio suficiente para entrar em debate no Congresso; para coaches, profissão tem critérios claros para boas práticas

Bianca Zanatta

12 de maio de 2019 | 06h10

ESPECIAL PARA O ESTADO

Uma proposta que acaba de entrar na agenda de debates do Senado está causando burburinho entre os profissionais de coaching. Com o título de “Criminalização do ‘Coach’”, a sugestão feita em 15 de abril por um cidadão sergipano no site E-Cidadania tem o objetivo de barrar “o charlatanismo de muitos autointitulados formados sem diploma válido”. De acordo com o texto, tais “coaches” estariam “desrespeitando o trabalho científico e metódico de terapeutas e outros profissionais das mais variadas áreas” com “propagandas enganosas como ‘reprogramação de DNA’ e ‘cura quântica’”.

A ideia ganhou adeptos rapidamente: de acordo com a assessoria de imprensa do Senado, no início desta semana 24.232 apoios haviam sido registrados pelo site. Ao atingirem 20 mil votos, as propostas são transformadas em sugestões e encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa para serem formalizadas como Ideias Legislativas. Um senador será designado para elaborar um relatório sobre a sugestão. Após debates, o relatório é votado pelos senadores da comissão e, dependendo do resultado, é possível que a ideia se torne um projeto de lei ou proposta de emenda à Constituição.

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A quantidade de apoios reflete uma preocupação crescente do mercado em separar o joio do trigo. Um estudo global feito pela American Management Association aponta que 53% das interrupções de processos de coaching entre 2008 e 2018 foram causadas pela “expertise questionável dos coaches”. Mas como identificar os aventureiros, se não há regulamentação para a profissão?

Os coaches (esq. à dir.) Amanda Giampietro, Iaci Rios, Eliane de Mitry e Joaquim Rocha, em evento em São Paulo. Foto: Werther Santana/Estadão

“A proposta de lei é muito vaga, pois não diz o que seria um profissional devidamente habilitado ou um diploma válido”, analisa Iaci Rios, presidente da IMR Coaching Skills. Apesar disso, ela afirma que já existe no mercado um conhecimento bastante amadurecido do que é um profissional confiável, a começar pelo tipo de certificação que ele possui.

A ICF (International Coach Federation), maior instituição mundial de formação, observação e garantia de boas práticas de coaching, está presente em 140 países – inclusive o Brasil. “A ICF tem critérios muito claros. A escola e o profissional recebem três níveis de qualificação após se submeterem a um rigoroso e completo processo de avaliação”, conta Iaci.

Além da certificação, empresas e organizações têm outras formas de diferenciar bons coaches dos inexperientes ou falastrões. “Como em qualquer área de prestação de serviços, o boca a boca é importantíssimo”, diz Eva Hirsch Pontes, diretora da PhoenixCoach Treinamento e professora da Fundação Dom Cabral. “Os profissionais de RH trocam suas percepções e experiências quando querem referências de coaches que tenham um histórico de entrega de resultados consistente aliado a uma comprovada conduta ética.”

Também é preciso entender o que é o coaching e para que objetivos ele é adequado. “O coaching é indicado para desenvolver potencial e não para remediar situações. É um erro e um desperdício contratar um coach para trabalhar com um profissional em quem a organização já não acredita mais”, exemplifica a diretora.

Fora do ambiente profissional, valem os mesmos cuidados, e Eva chama a atenção para os marqueteiros de plantão: “Fujam dos modismos, dos coaches que se dizem quânticos, ‘babycoach’ e outras denominações pop. Coach é coach”.

Segundo Iaci Rios, um coach bem formado e preparado é capaz de trabalhar diferentes nichos, contanto que se mantenha dentro dos propósitos metodológicos. “Se o que quero é me manter mais saudável, equilibrando minha vida de forma mais efetiva, o coaching vai me ajudar nisso. Podemos falar em nichos, mas quem vai definir o nicho onde o coach vai atuar é seu cliente.”

A administradora de empresas Daniela Abade, de 44 anos, procurou o método com o objetivo de lidar com equipe e clientes de forma mais serena. Por indicação, contratou uma profissional que trazia no currículo atendimento a diversas grandes companhias. “Me dei muito bem com a prática por ser objetiva e direcionada. A ideia é que você se desenvolva a partir de uma percepção sua, não do coach”, atesta.

“O coach não deve dizer o que fazer. Caso ele diga, é um mau sinal”, alerta Eliana Dutra, CEO da ProFitCoach e autora do livro Coaching – O que Você Precisa Saber (ed. Mauad). “O processo pode ser doloroso ou motivador. Quando é motivador é coaching, quando é doloroso é indício de que a pessoa precisa de outro tipo de profissional.”

Eva Hirsh ressalta ainda que há pessoas que buscam um processo de coaching para cuidar de temas que pertencem à psicoterapia, como depressão, ansiedade e superação de traumas, e enfatiza: “Nesses casos, o coach tem a obrigação ética de fazer uma recomendação para que se busque apoio psicoterapêutico”.