Indústria e conselho divergem sobre falta de engenheiros

Claudio Marques

29 de abril de 2013 | 08h08

Lilian Primi
ESPECIAL PARA O ESTADO
Mesmo com a redução nas expectativas de demanda por engenheiros com o fraco desempenho da economia no Brasil, os problemas no mercado de engenharia se mantêm. Houve melhora na oferta de vagas nas universidades – com crescimento de 240% na oferta da rede privada e 77% na pública nos últimos dez anos –, e também na procura pelos cursos.
“O interesse dos jovens foi despertado pelo aumento nos salários registrado nos últimos anos”, afirma o diretor de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Paulo Mol. O ganho inicial de um engenheiro estaria na faixa entre R$ 4mil e R$ 5 mil. No entanto, continuam altos índices de evasão (leia mais na pág. E04).
Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), em 2011, foram feitas 601.447 matrículas em cursos de engenharia, contra 492.779 no ano anterior. A procura cresce initerruptamente desde 0 ano 2000, quando houve 179.598 registros. A maior parte das matrículas(24%) é para o curso de civil. Em segundo lugar vem engenharia de produção (18,6%) seguida por mecânica (11,5%).
O número de formados, porém, é muito menor, embora também tenha crescido no período. Em 2011, os mais de 1,3 mil cursos em funcionamento no Brasil formaram 44,7 mil engenheiros, pouco acima dos 40,7 mil no ano anterior. “Mesmo com a não concretização das previsões de crescimento econômico, estes números mantém a defasagem entre o número de formados e a demanda”, diz Mol. O empresário ressalta, ainda, o descompasso entre o perfil de engenheiros formados e aquele que o mercado precisa. “Hoje, precisamos de um engenheiro que entenda de gestão, uma raridade”, afirma.
José Tadeu da Silva, presidente do Conselho Federal de Engenharia (Confea), discorda da posição do CNI e afirma que, na verdade, não há escassez generalizada de engenheiros. “O que temos são problemas pontuais, nas áreas de petróleo e gás, mineração e tecnologia da informação, áreas em que o Confea admite a possibilidade de contratação de estrangeiros. Essas três áreas seriam, portanto, onde há falta de profissionais. “Mas o que há hoje é uma invasão de engenheiros civis portugueses e espanhóis, que enfrentam forte desemprego em seus países”, alega Silva.
Como Mol, ele utiliza a redução do PIB em sua argumentação, mas para tentar demonstrar o contrário do industrial. “Há três ou quatro anos eram formados no Brasil 30 mil engenheiros por ano e a previsão de crescimento do PIB era de 4,5%. Hoje, com um PIB abaixo de 1%, a perspectiva de escassez não corresponde à verdade, além de ter havido aumento de 55% no número de formados no período”, alega Silva.
Outro dado considerado importante por Silva é o fato de que muitos engenheiros migravam para outras áreas, porque não encontravam vagas de trabalho. “Agora, eles estão voltando para o mercado, o que reforça a oferta”, explica. Tanto Silva quanto Mol ressaltam que são necessárias reformas e modernização na política pedagógica, de forma a flexibilizar os currículos e facilitar as especializações e atualizações. “Esbarramos na legislação, que é de 1966, que engessa as grades curriculares e não atende às necessidades atuais da indústria”, afirma Mol (leia mais na pág. E04).

Entidades criticam ‘currículo engessado’

O ritmo do desenvolvimento tecnológico cria novos desafios ao mercado de engenharia, seja no campo da formação ou no da produção. Segundo o presidente da Confederação Nacional de Engenharia (Confea), José Tadeu da Silva, hoje existem mais de 300 títulos de engenharia, um número que tende a crescer nos próximos anos.
“A expectativa do mercado mundial é de que as dez engenharias que serão essenciais daqui a dez anos ainda não foram criadas”, diz. Ele conta que a expectativa estratégica do Japão, que exporta inovação, é de que em 2030, 60% do PIB virão de produtos que hoje ainda não foram inventados.
“Esse cenário não aceita um currículo engessado como o nosso. É preciso flexibilizá-lo”, argumenta. No que é seguido pelo diretor de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Paulo Mol.
A proposta em discussão, oferecida tanto pela indústria quanto pelo Confea, é criar uma matriz única, que pode ser complementada por uma eleição de disciplinas feitas pelo próprio aluno, de acordo com á área de interesse e as competências que deseja obter.
A vice-diretora do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Sheyla Mara Baptista Serra, diz que todos os cursos de engenharia do País foram revisados em 2005, para redistribuição das disciplinas básicas e inclusão de programas práticos nos primeiros anos. “Atendemos à sugestão dos próprios alunos, mas alguns professores acham que falta maturidade de aprendizado”, afirma.
A Escola Politécnica da USP também passa por mudanças profundas no currículo de seus cursos, que deverão facilitar o trânsito dos alunos pelas diversas modalidades da engenharia, formando profissionais mais generalistas e um pouco menos especialistas. A nova grade valerá a partir do próximo ano e será implementada aos poucos.
Formado em engenharia de mineração pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e hoje trainee da Vale Fertilizantes no complexo mineroquímico de Araxá (MG), Frederic Yann Armache Braga, de 23 anos, pensa que as flexibilizações propostas pelo Confea podem ser úteis para tornar os dois primeiros anos mais atraentes. Mas ele tem objeções.
“É realmente maçante essa fase, mas acredito que seja necessária. Não tanto por conta do necessário embasamento teórico, mas para garantir o amadurecimento do estudante”, diz.
Após a maratona dos dois primeiros anos, segundo Braga, o estudante consegue absorver o conhecimento de forma mais rápida e aprende a estudar.
Matemática. O fraco ensino de matemática nos ciclos fundamental e médio é a principal causa apontada para evasão – outro grande problema dos cursos de engenharia. E as universidades já trabalham para resolver a questão, dando reforços e trazendo matérias mais básicas para os primeiros anos.
Braga conta que dos 25 alunos que iniciaram o curso com ele na Ufop, apenas 16 se formaram. “Um índice considerado bom. Geralmente, a evasão é maior.” Segundo ele, muitos de seus colegas realmente chegaram à universidade sem conhecimentos básicos.
“Há grande diferença na bagagem que cada um tem. Tive sorte, porque meu professor de matemática era também meu tio, muito bom e muito próximo”, conta. Outra causa da evasão é o financiamento do período de estudo, longo no caso da engenharia e sem possibilidade de se conciliar trabalho e estudo como ocorre com outras carreiras.
“Estamos testando a concessão de bolsas de estudo, para financiar alunos que não têm condições financeiras para bancar o curso de graduação”, diz Mol.
Ele conta que há quem defenda o mesmo processo dos cursos de medicina, que preveem um período de residência, para os estudantes aplicarem, sob supervisão, o que aprenderam . “Muitas vezes os engenheiros chegam às indústria imaturos e com dificuldades de se adaptar ao ambiente funcional.”

‘Devemos aproveitar esse fôlego e para tomar medidas de longo prazo’ 

Apesar de menos pressionado em razão do crescimento econômico menor, os empresários não se sentem confortáveis com a situação. “Devemos aproveitar esse fôlego para tomar as necessárias medidas de longo prazo, investindo na educação e formação”, diz Paulo Mol, da Confederação Nacional da Indústria. Nas universidades, as ações já começaram.
“As indústrias têm investido em treinamentos, que em geral levam 18 meses. Quando nem isso resolve, acaba levando ao desligamento”, diz. Adotando outra medida, a Vale abriu a sua primeira turma de pós-graduação em fertilizantes em setembro de 2012 e a previsão de conclusão é outubro de 2013.
Essa primeira turma tem 38 empregados, engenheiros de diversas áreas e geólogos. Atualmente, o grupo tem uma vaga aberta para engenheiro de minas sênior no Complexo Mineroquímico de Araxá, em Minas (MG), divulgada há dez dias, além de outras na mesma área que estão sendo trabalhadas internamente.
Emprego. De acordo com a Confederação Nacional de Engenharia (Confea), existem atualmente no Brasil 542.928 engenheiros registrados, muitos deles desempregados por problemas de qualificação.
O trainee da Vale Fertilizantes Frederic Yann Armache Braga afirma que dos formandos de sua turma, apenas dois não estão empregados.
“Mas não estão desempregados. Fazem especialização pelo Ciência Sem Fronteiras em Portugal e na Espanha”, afirma ele, que atua num segmento onde faltam engenheiros.
O jovem diz que nota dificuldades de colocação apenas em casos específicos. “As vagas existem, mas algumas vezes não atende às expectativas do candidato. Uma amiga que se formou comigo, por exemplo, só agora conseguiu emprego porque não queria ir para muito longe de onde vive.”
Braga ainda não decidiu se vai orientar sua carreira para especialização ou gestão. “As duas opções me atraem, mas ainda é cedo.” E diz que notou mudança no ambiente nas turmas seguintes à sua, de 2007. “Há mais disposição dos alunos”, afirma o jovem./L.P.

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