“Já fui apelidada de Margaret Thatcher”

Claudio Marques

14 de outubro de 2013 | 11h26

Cláudio Marques

A engenheira eletrônica pernambucana Andrea Salvino, de 47 anos, viveu muitas dificuldades quando chegou a São Paulo, em 1992. Veio para cá, segundo conta, porque sua vida estava muito ruim. Sem dinheiro, precisou deixar os dois filhos, Tatiana e Felipe, em Recife até ter o suficiente para trazê-los e mantê-los. Sem conhecer ninguém por aqui, teve de começar do zero: apesar de já ser graduada pela Politécnica de Recife, foi trabalhar como vendedora em uma loja de roupas do Shopping Morumbi. Para juntar mais dinheiro, também fazia as vezes de faxineira e passadeira do local. “Eu trabalhava mais do que todo mundo, eu tinha foco direto nos objetivos”, relembra. A estratégia deu certo. Ela conseguiu ir para sua área, passou por várias empresas, entre elas, Motorola, Airlink, Telcom, e Bright Star, teve dois negócios próprios, Brightcorp e Sagna, e hoje comanda a filial brasileira da holandesa One for All, de acessórios para áudio e vídeo. “Acho que o principal fator a contribuir para o meu sucesso aqui foi o empenho que tinha para poder trazer meus filhos de volta. Eu sentia muita culpa, porque os havia deixado lá”, conta. Talita, que tem necessidades especiais, está hoje com 29 anos. E o rapaz, com 26. A seguir, trechos da entrevista.

Como a sua história de vida contribui hoje para a sua atuação como diretora geral?
Quando você vem de baixo, passa por várias etapas na sua vida, você fica uma pessoa mais forte, aguenta mais a pressão do dia a dia, principalmente da função executiva. E também acredito que você tem de ter humildade a vida toda. Mas o que a gente percebe é que quando você começa por baixo mesmo, como foi o meu caso, você é mais humilde que as pessoas que recebem as coisas de forma mais fácil.

Como foi a fase de vendedora na loja de roupas?
Eu era a primeira a chegar e a última a sair. Era aquela coisa, você trabalha, trabalha, trabalha para não pensar. Na minha opinião, foi isso que me deixou mais forte e com mais vontade para poder vencer. Porque, quem sai de Recife para São Paulo, é a mesma coisa de quem sai daqui para o Japão. Você vai para uma cidade muito grande, com costumes diferentes, uma cultura diferente. E logo quando eu cheguei, com o sotaque que tinha, fui vítima de preconceito, até de não quererem me dar emprego!

Com essa sua história, você é muito exigente com os colaboradores, com diretores?
Eu sou exigente até comigo, principalmente comigo. Então, eu sou uma pessoa muito firme, já fui apelidada de Margaret Thatcher (a ex-primeira ministra britânica). Esse ramo era muito masculino, e eu mulher e nordestina. Quando eu trabalhava na Telcom, por exemplo, o chefe e a comitiva vieram ao Brasil. Como Andrea pode ser nome de homem e de mulher, fora do Brasil, principalmente na Europa, eles achavam que Andrea era homem. Quando chegaram e me viram que era pequenininha, tenho 1,60m, loira de cabelo grande foi uma reação na linha ‘é aquela coisa que faz isso aqui mover e girar?!’ Então, para chegar onde cheguei, eu tive de ter mão de ferro mesmo. Mas, por outro lado, tem de ter a humildade que eu falei.

Você já havia trabalhado em Recife? Em qual área?
Eu trabalhei em várias empresas, sempre no ramo de telecomunicações. Quando a minha filha nasceu, eu passei um tempo sem trabalhar, por conta do quadro dela. Mas eu comecei como funcionária de banco, aos 15 anos. Ajudava a sustentar a casa, sempre fui de uma família muito humilde.

Então, quando você veio para cá já tinha se formado?
Já, mas não tinha emprego, porque quando eu vim, até colocar meu currículo na rua, até conseguir algo do nível do meu currículo, eu não podia esperar, então eu fui trabalhar no shopping Morumbi.

Você participou do startup do pager no Brasil?
Após passar por Xerox e no Credicard eu fui para uma empresa americana chamada Inosat, que era da Motorola e lançou o pager no Brasil. Lembra do pager? Eu participei bem daquela startup, e comecei na área de vendas, como nas outras empresas. Depois dessa área e fui para a de trunking, já por uma outra empresa que na época se chamava Airlink e que foi vendida para a Nextel. Fui promovida várias vezes, era uma empresa americana também.

Chegou a ficar na Nextel?
Não, porque eu fui para o concorrente deles, uma empresa chamada Telcom, também americana e de trunking. Tudo o que eu montei na Airlink, eu fui montar também na Telcom. Lá, eu já passei a ser diretora. Fui galgando.

E depois da Telcom?
Eu saí para montar uma empresa, muito grande, chamada Bright Star. Hoje, a empresa é o maior distribuidor de celular do mundo. Foi minha primeira atuação mais internacional. Eu comecei aqui no Brasil e fui para o México montar o negócio lá. Depois, fiz um trabalho mais focado na América Latina. E voltei para o Brasil, porque eu tinha meus filhos.

Quanto tempo durou essa experiência internacional?
Uns dois anos e meio. Morava no avião. Quando eu decidi voltar, abri minha própria empresa. Resolvi fazer uma carreira solo. O dono da Bright Star, que era o meu chefe, disse que queria ser meu sócio, se eu fosse abrir algum negócio. Ele me ajudou e eu montei a minha primeira empresa, que chamou-se Brightcom. Eu trouxe para o Brasil a placa PCMCIA, que se colocava no notebook para se conectar. E quando a Vivo lançou o serviço de dados, o primeiro device de dados que veio para o Brasil foi essa minha plaquinha. Eu trouxe essa plaquinha coreana e passei a representar a empresa aqui no Brasil. E aí foi onde dei meu salto de carreira solo, porque quando a Vivo lançou o serviço de dados, somente eu tinha um “device” que funcionava nessa rede. Foi legal, porque eu tive a visão de um produto. Como eu viajava muito, nessa época pela Bright Star, o mundo todo, me abriu muito a minha cabeça, eu pensei ‘vamos levar isso para o Brasil’. Trouxe, homologuei, fiz o manual, fiz tudo, criei um produto, e vendi para todas as lojas da Vivo, que na época era Telesp Celular. A primeira plaquinha de modem de dados quem trouxe para o Brasil fui eu.

O que houve com a empresa?
Depois vieram esses modems da China, o mercado foi mudando e eu resolvi parar. Aí eu montei a Cesarcorp. A BrightCom ficou uma empresa de serviços. Por exemplo, empresas estrangeiras que queriam vir para o Brasil, procuravam a minha empresa. Então, eu prestava serviços como Brightcom, para trazer novos produtos, novas tecnologias. E abri a Cesarcorp para ser uma distribuidora de equipamentos de tecnologia.

Por quanto tempo você continuou na carreira solo?
Uns quatro anos. Aí, eu continuei minha carreira solo, desta vez com a Sagna, um fabricante de antena digital. Olha que curioso. Quando surgiu o pager, pois na época só havia o bip, lembra? Eu trabalhava com isso. Aí depois a evolução foi o trunking, eu também participei do startup. Quando começou o celular, pré-pago, digital, de novo eu estava lá. Aí quando chegou dados móveis no Brasil, lancei a minha plaquinha. Depois vieram os modems ADSL, com a Cesarcorp eu fiz distribuição dos modems ADSL. Quando surgiu a TV digital aqui no Brasil, precisava de uma antena para captar o sinal digital. Aí, eu tive a ideia, juntamente com mais três sócios, de trazer uma antena para o Brasil. Depois passamos a fabricá-la aqui.

Qual é desafio agora à frente da One for All?
Fizemos parcerias com o grande varejo, e graças a Deus estamos indo super bem, a despeito dessa variação maluca do dólar. Agora, o próximo passo, já estou começando a ver, é a fabricação nacional. Temos uma linha de produtos grande e alguns produtos se destacaram com um volume interessante que já justifica ter uma produção brasileira. A One for All não é uma marca barata. Na Europa, vende mais do que Philips, do que Logitech. Na Europa, é a número 1 em acessórios para áudio e vídeo.

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