Juíza RBG e sua revolução silenciosa
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Juíza RBG e sua revolução silenciosa

Discreta, Ruth Bader Ginsburg lutou de maneira firme pelos direitos das mulheres, conta a especialista Marisa Eboli em artigo

Marisa Eboli

16 de julho de 2019 | 11h37

Num domingo de muito frio, começo o dia lendo a coluna “Agenda de Inverno”, de Leandro Karnal, no Estadão. Nada mais apropriado, uma vez que ele cita um trecho da canção de Djavan: “Um dia frio, um bom lugar para ler um livro.” Eu acrescentaria: para ver um bom filme e os jogos da final da Copa do Mundo Feminina de Futebol 2019 e da Copa América.

Começo pela Copa do Mundo 2019 que termina com a conquista do quarto título mundial dos Estados Unidos. E sua capitã, Megan Rapinoe, eleita a melhor jogadora da Copa. Também se destacou pelas suas falas fora do campo, marcando firmes posições com relação às conquistas das mulheres. Há tempo que Rapinoe é uma ativista. Sem dúvida, foi uma Copa histórica, marcada por protestos reivindicando mais investimentos, condições e pagamentos mais justos para as jogadoras.

Continuando o meu dia preguiçoso, almoço e depois ligo a Apple TV para escolher um filme. Ainda tinha pendências na lista dos indicados ao Oscar 2019 e faço a opção pelo documentário “A Juíza”, ainda ser ter muita clareza se gostaria, pois havia assistido sem muito entusiasmo ao filme “Suprema”, uma cinebiografia de Ruth Bader Ginsburg (ou simplesmente RBG), juíza da Suprema Corte americana. A escolha não poderia ter sido mais sintonizada com o início do meu domingo.

A juíza Ruth Bader Ginsburg e sua revolução silenciosa. Foto: Stapleton/Reuters

O documentário “A Juíza” (2018), dirigido por Betsy Weste e Julie Cohen, relata de forma inovadora, dinâmica e inteligente a carreira e a vida excepcional de Ruth Bader Ginsburg, que se notabilizou por sua firmeza de atuação profissional, sempre fundamentada na Declaração dos Direitos. Ganhou causas que mudaram leis dos Estados Unidos. Nascida no Brooklyn (1933), ela é uma Associada de Justiça da Suprema Corte dos Estados Unidos. Foi indicada para o cargo pelo Presidente Bill Clinton e empossada em 1993. Depois de Sandra Day O’Connor, foi a segunda mulher a ser confirmada pelo Senado para servir na Suprema Corte.

Tornou-se esposa e mãe antes de começar a estudar na Universidade Harvard, onde era uma das poucas mulheres de sua turma. Transferiu-se para a Universidade Columbia, graduando-se em Direito em 1959. Foi professora da Faculdade de Direito na Universidade Rutgers e na Faculdade de Direito de Columbia. Ainda hoje, aos 86 anos, ela está na ativa.

Embora RBG tenha gastado boa parte de sua carreira jurídica defendendo o avanço da igualdade de gênero e dos direitos das mulheres, seu norteador principal sempre foi garantir a igualdade dos direitos para qualquer pessoa, independentemente de gênero, raça ou religião. Nesse sentido, um dos casos relatados no filme chama atenção, pois ela defendeu um homem. Vale conferir o caso Weinberger v. Wiesenfeld (1975). O filme remonta as defesas de RBG na Suprema Corte usando o áudio original e mostrando suas palavras legendadas na tela.

O interessante é que RBG tem um tipo físico miúdo, tímida e muito discreta; também não retrucava as provocações com raiva, pois considerava que isso poderia jogar contra suas argumentações. Seu estilo teve peso em suas escolhas: não queria ser uma ativista, pois acreditava que sua maior contribuição para acabar com as injustiças contra as mulheres seria pelas leis, dando tratamento jurídico para as mulheres igual àquele concedido aos homens.

O documentário também aborda o lado familiar de Ginsburg, que teve apoio incondicional de seu marido, Martin Ginsburg (1954–2010), também advogado. Os dois filhos do casal e a neta Clara dão depoimentos emocionantes e bem-humorados. É descrita pelos filhos como dura, rígida, e exigente. Conta com depoimentos de amigas de infância, pessoas que trabalharam com ela ou que foram defendidas por ela. Um dos entrevistados é o ex-presidente Bill Clinton. Certamente teve uma vida rica de propósito, de amor e de realizações, mas nem por isso sem várias dificuldades que foram vencidas com determinação, esforço, dedicação e muito trabalho madrugada a dentro.

É um ícone da cultura pop, cujo trabalho revolucionou os direitos das mulheres. Seu lema: “a mudança real, duradoura, acontece um passo de cada vez.” Sem dúvida são inúmeros os ensinamentos que RBG nos oferece. Destacaria os seguintes pontos:

  • Clareza e foco no trabalho, repleto de propósito e de significado
  • Valores consolidados que nortearam sua atuação em todas as áreas
  • Dedicação obsessiva ao trabalho e à família
  • Conciliação entre vida pessoal e profissional
  • Definição do estilo discreto e peculiar de lutar pelos direitos humanos, em especial das mulheres

* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora da graduação e do mestrado profissional da Fundação Instituto de Administração (FIA). (meboli@usp.br)

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