Logística é área estratégica e requer ampla expertise
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Logística é área estratégica e requer ampla expertise

Profissionais que atuam no segmento e recrutadores afirmam que falta no mercado pessoas com formação de qualidade

CRIS OLIVETTE

26 de novembro de 2017 | 07h00

Os profissionais de logística representam um elo fundamental na engrenagem que envolve todos os ciclos das atividades econômicas. “É uma atividade crucial para a nossa sobrevivência. Todos precisam comer, beber, vestir, etc. No futuro, com os impactos provocados pelas mudanças climáticas, ela será fundamental para proporcionar algum conforto às pessoas”, diz a fundadora da consultoria Cadeia de Valor, Bia Rodrigues.

Segundo ela, o grande desafio para quem está entrando na área é conhecer a logística sob uma ótica mais estratégica. “A vida inteira aprendemos que logística é armazenar e transportar, mas vai muito além. Está presente em tudo, desde o momento em que acordamos até na hora da nossa morte. O profissional precisa ter essa visão 360º”, enfatiza.

Apaixonada pela profissão, ela é pós-graduada em administração estratégica e negócios pela FIA-USP, e em logística empresarial e supply chain, com especialização em Harvard. Para levantar a bandeira do segmento, criou a comunidade Logísticos Oficial, que reúne mais de 55 mil profissionais.

Formação. “Nosso objetivo é fornecer informações atuais, qualificar e auxiliar quem atua ou quer atuar na área, estimulando a troca de ideias e oportunidades de trabalho”, conta.

De acordo com Bia, uma pesquisa conduzida entre os membros da comunidade aponta que grande parte dos alunos de logística só aprendem coisas técnicas e operacionais ligadas a transporte e armazenagem.
“Apenas 7% disseram que aprenderam conceitos estratégicos e globais sobre logística, incluindo inovação, como funciona a logística em outros países e até mesmo visão de marketing e negócios. Nossos jovens saem dos cursos praticamente ‘boiando’. Criei a comunidade para disseminar essa realidade disruptiva. Além disso, o domínio do inglês é essencial.”

Para a consultora, pelo menos 50% dos cursos oferecidos no Brasil estão defasados. “Professores de institutos federais, Etec’s e Fatec’s estão tentando transformar a metodologia de ensino. Nós últimos seis meses, principalmente, por conta do trabalho que realizo na comunidade, recebi muitos convites para falar sobre o assunto com estudantes e jovens profissionais, porque logístico é o futuro.”

Mercado. Conforme dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o custo logístico no Brasil consome 12,7% do PIB nacional. Já o estudo Custos Logísticos no Brasil, feito pelo Instituto de Logística e Supply Chain , aponta que o índice cresceu nos últimos anos, frente aos 12,1% registrados em 2014, e equivale a R$ 749 bilhões.

“São números elevados que impactam na competitividade da produção brasileira. Nos Estados Unidos, o custo logístico corresponde a 7,8% do PIB”, diz Bia. Segundo ela, empresas de todos os portes e segmentos estão percebendo que não vale mais à pena atender a todo custo e sim ao custo certo.

Bia Rodrigues. Foto: Patrícia Cruz/Estadão

Demanda. Diretora da agência de empregos Manpower Group, Márcia Almstrom afirma que após longo período de recessão está havendo reação concreta da indústria, o que estimula a demanda por profissionais da área.

“Essa mobilização alavanca toda a cadeia de valor e a logística é a primeira que se destaca, por ser a área responsável em fazer o produto chegar à ponta. Este é um indício da melhoria concreta da economia”, diz.

A gerente de recrutamento da Robert Half, Isis Borge, destaca que o perfil exigido pelas empresas está mudando. “O mercado está mais crítico e exigente, porque a área está sendo mais valorizada. Novos requisitos estão sendo pedidos, como o domínio do inglês.”

Os profissionais que atuam no segmento, segundo Márcia, costumam ter formação em administração, economia, engenharia e comércio exterior, além de especializações em logística e supply chain.
“Na maioria dos casos, as empresas veem com ótimos olhos quando a pessoa tem essas especializações, ou MBA em negócios, que também engloba matérias de logística. Tem também a certificação Apics CPIM (Certified in Production and Inventory Management), que é bastante valorizada.”

Especialistas afirmam que a área é vista como um fator competitivo, porque permiti que as empresas reduzam custos e aumentem a receita, levando seus produtos de forma eficiente a novos locais.

Por esse motivo, Bia ressalta que não costuma faltar trabalho para o profissional que sabe explorar o verdadeiro potencial da logística. “Ele tem de ter visão 360º dos conceitos globais, práticos e estratégicos de vendas, marketing e até de comportamento de consumo, não só do mercado brasileiro como de outros países emergentes.”

Isis destaca que uma característica interessante da área é que esse profissional é intercambiável entre os vários segmentos e entre ramos diversos. “É um profissional curinga. Uma pessoa que trabalha no setor de bens de consumo, por exemplo, pode passar a atuar na área automotiva ou de material de construção.”

A recrutadora afirma que o perfil pessoal também é valorizado no processo de seleção. “Avaliamos se a pessoa teve bom relacionamento com as demais áreas nas empresas pelas quais já passou. A habilidade comportamental tem grande peso”, diz.

Salários. O Guia Salarial 2018, que acaba de ser concluído pela Robert Half, aponta que nos últimos 12 meses as posições de supply chain estiveram em alta, por estarem diretamente ligadas aos resultados estratégicos das empresas.

Isis conta que a posição de destaque identificada no estudo é a de coordenador de planejamento, atividade que deverá ter o maior reajuste salarial no próximo ano (7,9%), com salários podendo chegar a R$ 13 mil em empresas de pequeno e médio porte, e a R$ 14,5 mil em grandes companhias.

Ela conta que 43% dos gestores de supply chain consideram essa área a mais desafiadora no que se refere a encontrar profissionais qualificados. “A função está em constante desenvolvimento e exige atualizações frequentes”, afirma.

A pesquisa, segundo Isis, aponta que as vagas de supply chain e comercial têm destaque nas empresas de equipamentos médicos, produtos químicos e bens de consumo.

“Estamos otimistas com a perspectiva futura do mercado, vemos uma retomada clara da economia. Acreditamos que a tendência é de que tenhamos novas vagas surgindo.”

Crise eliminou 30% dos negócios de transportes

Graduada em computação e com pós-graduação em logística e supply chain, a executiva comercial da Brasil Maxi Logística, Rosana Correa, trabalha nesse segmento há 13 anos.

Segundo ela, a empresa conta que 385 funcionários, dos quais 220 atuam na área de logística. “A formação do time é distribuída da seguinte forma: 30% têm o primeiro grau e trabalha na área operacional; 40% têm nível técnico em logística; e 30% têm nível superior, com atuação na área de inteligência.”

A executiva explica que o trabalho de inteligência consiste em avaliar a operação do cliente e buscar ganhos e possibilidades de sinergia com outras operações para a redução de custo, bem como a otimização dos processos. “Avaliamos, em primeiro lugar, a necessidade do cliente. Em seguida, analisamos aonde conseguimos sinergia entre as operações que realizamos para concentrar o envio das mercadorias em um mesmo veículo.”

Rosana Correa. Foto: Evandro Torres/Divulgação/Brasil Maxi Logística

Ela conta que o mesmo vale para as cargas que são distribuídas dentro da cidade de São Paulo. “É uma tarefa complicada, porque muitas vias têm restrição de horário para a circulação de caminhões e alguns clientes também têm horários específicos para entrega ou retirada dos produtos.”

Rosana afirma que a Brasil Maxi utiliza tecnologia para reduzir os custos e facilitar a vida dos clientes. “Oferecemos sistemas que permitem que nossos clientes possam consultar o estoque e saber onde os seus produtos estão armazenados.”

A empresa possui 80 veículos próprios e também mantém contrato com 180 motoristas ‘agregados’. Todos os veículos têm sistema de rastreamento.

Rosana diz que a empresa também utiliza a tecnologia mobile. “Nossos motoristas usam smartphone e acompanham a rota a ser seguida pelo celular. Conforme efetuam as entregas, fotografam o canhoto da nota fiscal e a informação é inserida automaticamente no sistema da empresa. O cliente também pode acessar e acompanhar o roteiro de entrega e saber a previsão do horário de chegada de sua mercadoria.”

A executiva afirma que nos últimos dez anos a área avançou bastante em termos de tecnologia. “Mas percebo que as empresas que não investirem em inovação estão com os dias contados”, avalia.

Muitos negócios, segundo ela, foram criadas por pessoas que no passado tinham caminhão e trabalhavam com entregas. “Grande parte deles não tem maturidade profissional para entender os desafios do negócio. O esquema que montaram funcionou bem enquanto a economia estava aquecida.

Porém, com a crise, tiveram de se reinventar, pois o fluxo de mercadoria caiu cerca de 50%. Para retomarmos o mesmo nível de demanda que tínhamos em 2014, a estimativa atual é que leve pelo menos dez anos.”

Por conta da crise, Rosana afirma que praticamente 1/3 da frota brasileira foi vendida. “30% do mercado de transportes acabou, provavelmente porque eram empreendedores que não tinham visão ampla para reagir à recessão.”

Mercado de trabalho. A executiva afirma que o mercado não tem a quantidade de profissionais qualificados que a demanda exige. “Muita gente que se forma para atuar com logística não têm a expertise necessária. Esses são os chamados ‘fazedores’ e não os pensadores”, diz.

Aqueles que se dedicam em aprofundar o aprendizado, de acordo com Rosana, se destacam no mercado. “Foram esses profissionais que seguraram as pontas durante a crise. Grande parte dos bons profissionais foram mantidos nas empresas. Os ruins foram dispensados e precisam acrescentar diferenciais em sua formação para voltar ao mercado”, recomenda.