Lugar de mulher é onde ela quiser – e as lições de Ada Lovelace

Lugar de mulher é onde ela quiser – e as lições de Ada Lovelace

Dentre várias mulheres protagonistas de revoluções em ciência, tecnologia e matemática, Ada Lovelace herdou a poesia do pai, Lord Byron, e a matemática da mãe, criando o que chamou de 'ciência poética'

Marisa Eboli

18 de março de 2021 | 08h30

Dedico minha coluna deste mês às mulheres. Tal homenagem é no sentido de exaltar tudo de maravilhoso que elas já fizeram e continuam fazendo para o mundo, além de nele nos colocarem. Claro que o espaço desta coluna não seria suficiente para tanto. Então decidi dar foco numa área tão valorizada na atualidade, principalmente quando se fala em inovação: ciência, tecnologia e informática.

Leitor, você tem noção do protagonismo feminino na área de informática? Vamos então a alguns exemplos:

  • Grace Murray Hopper (1906-1992) foi almirante e analista de sistemas da Marinha dos Estados Unidos nas décadas de 1940 e 1950. Ela criou o termo bug, ao resolver um problema de processamento de dados, removendo uma mariposa dentro de seu computador. Ela foi a responsável pelo desenvolvimento de linguagens de programação, tais como cobol. Univac, o primeiro computador comercial fabricado nos EUA, teve sua programação desenvolvida por Hopper.
  • A irmã Mary Kenneth Keller (1913-1985) foi a primeira PhD na área de ciências da computação. Teve contribuição essencial na linguagem de programação basic.
  • Joan Elisabeth Lowther Clarke (1917-1996) foi criptoanalista e numismatista que trabalhou em Bletchley Park, integrando o grupo de Alan Turing na decodificação da máquina alemã Enigma, durante a 2a. Guerra Mundial.
  • Eniac (1946), o primeiro computador digital eletrônico desenvolvido em 1946 por John Mauchly e J. Presper Eckert foi programado por seis mulheres: Kathleen (Kay) McNulty Mauchly Antonelli; Jean Jennings Bartik; Frances Synder Holberton; Marlyn Wescoff Melzer; Frances Bilas Spence, e; Ruth Lichterman Teitelbaum.
  • Frances Allen criou alguns sistemas de segurança para NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA).
  • Carol Shaw foi a primeira mulher a trabalhar na indústria de jogos, contribuindo para o desenvolvimento do Atari. Na época, criou também vários outros jogos.
  • Radia Perlman é considerada “A mãe da internet”. Desenvolveu o protocolo STP (Spanning Tree Protocol), sistema que permite encontrar o melhor caminho para uma conexão. Desenvolveu também diversos protocolos de segurança de redes e, hoje, trabalha na Intel.

Os nomes são diversos e faltam muitos nesta minha relação, mas sem dúvida as mulheres na informática não só contribuíram, como revolucionaram todo setor. Mais? Então vamos lá.

Você já ouviu falar de Condessa de Lovelace? Não? Bem, é a mulher na informática que mais revolucionou a programação. E não é por menos, afinal, ela foi a criadora do primeiro algoritmo de programação! Desenvolvido no projeto Babbage, permitiu que a máquina pudesse calcular funções matemáticas! Podemos dizer que a Condessa foi a primeira programadora da história. É considerada a “mãe da programação”.

Por esta razão, a linguagem de programação Ada foi criada em homenagem à Ada Lovelace pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Em 1981, a Associação de Mulheres na Computação criou o Prêmio Ada Lovelace. Em 1998, a Associação Britânica de Computação criou a Medalha Lovelace. Em 2008, iniciou-se uma competição anual para alunas. A Associação Britânica de Computação é patrocinadora do Lovelace Colloquium, que é uma conferência anual para mulheres, estudantes de graduação. Ada College é uma escola extra-curricular focada em tecnologia, localizada em Tottenham Hale, Londres.

Imagem de Ada Lovelace, considerada a mulher que escreveu o primeiro algoritmo. Foto: Hulton Archive

É sobre sua história, trajetória de vida e carreira que vou me ater neste texto por considerar que sua postura tenha muito a nos ensinar num momento em que a tecnologia estará cada vez mais presente no nosso cotidiano, podendo inclusive alterá-lo significativamente.

O livro Os Inovadores (2014), de Walter Isaacson, fornece um panorama histórico e conecta as personalidades fascinantes que estão por trás da revolução digital. O autor enfatiza que o computador e a internet estão entre as invenções mais importantes de nosso tempo, mas pouca gente sabe quem foram seus criadores. E acrescenta: “A maior parte das inovações da era digital foi criada de maneira colaborativa. A habilidade de trabalhar em equipe os tornou ainda mais criativos.”

E onde entra então Ada Lovelace nessa história? Os que ajudaram a conduzir a revolução tecnológica foram pessoas da tradição de Ada, capazes de combinar ciência e humanidades, ou seja, de fazer “ciência poética”.

A ciência poética de Ada Lovelace

A inglesa Ada Byron, que depois tornou-se Ada Lovelace (1815 – 1852) herdou do pai o temperamento poético e insubordinado e da mãe, a inclinação para a matemática.

Lord Byron, pai de Ada, era escritor famoso, bonito, sedutor problemático, protegido pela família e dado a aventuras sexuais. Casou-se com Annabella em 1815. Pouco tempo depois, durante uma visita do casal à meia-irmã dele, Augusta, Annabella começou a suspeitar que a amizade do marido com ela ia além do relacionamento fraternal. Não é surpresa, o casamento começou a desandar.

Annabella tinha estudado matemática, o que Lord Byron achava divertido e a apelidou de “Princesa dos Paralelogramos”. Mas quando o casamento começou a azedar, ele sofisticou a imagem matemática: “Somos duas retas paralelas prolongadas ao infinito, lado a lado, e que nunca se encontrarão.”

Ada, a única filha legítima de Lord Byron, havia herdado o espírito romântico e rebelde do pai, característica que sua mãe tentava equilibrar, fazendo com que ela recebesse aulas de matemática. A combinação produziu em Ada um amor pelo que ela chamou de “ciência poética”, unindo a sua imaginação inquieta ao encanto que sentia pelos números.

Assim, Ada desenvolveu sua carreira como matemática e escritora. É reconhecida principalmente por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage, o primeiro aparelho a fazer cálculos.

Foi frequentadora dos saraus de Babbage, que recepcionavam até 300 convidados entre escritores, industriais, poetas, atores, políticos, exploradores, botânicos e outros cientistas. As noites incluíam danças, leituras, jogos e palestras, tudo regado a muitos comes e bebes. Astrônomos montavam telescópios, pesquisadores mostravam suas invenções elétricas e magnéticas. A parte principal da noite era a demonstração que Babbage fazia de sua Máquina Diferencial, uma engenhoca mecânica gigantesca usada para cálculos.

Jean Jennings Bartik, à esq., e Frances Bilas em frente ao Eniac, primeiro computador desenvolvido em 1946, que contou com a participação de outras quatro programadoras. Foto: Exército dos EUA/The New York Times

A mãe de Ada, Lady Byron, ficou maravilhada com a “máquina que pensava”. Quanto a Ada, mesmo sendo jovem, compreendeu a lógica da sua operação e captou a imensa beleza desta invenção. Mais adiante, iria fazer a celebrada observação de que as máquinas nunca poderiam, de fato, pensar. O amor de Ada tanto pela poesia quanto pela matemática levou-a a ver a beleza que poderia estar dentro de uma máquina de computação.

O que é imaginação? Foi o que a escritora Ada perguntou em um ensaio de 1841. E refletiu:

É a faculdade de fazer combinações. Ela reúne coisas, fatos, ideias em combinações novas, originais, infinitas e sempre em mutação (…). É ela que penetra nos mundos invisíveis da ciência à nossa volta”

Essa capacidade de aplicar imaginação à ciência caracterizou a Revolução Industrial e também a revolução dos computadores, da qual Ada se tornaria, por assim dizer, uma santa padroeira.

Charles Percy Snow (1905-1980) foi um físico e romancista inglês, que lecionava em dois departamentos – Física e Literatura – na Universidade de Cambridge. Abordou em seu livro As Duas Culturas (1959) a distância entre as chamadas áreas de humanas e de exatas, e declarou serem dois mundos com modo de pensar e agir muito diferentes. Ressaltou a necessidade de se combinar as duas culturas: ciências e humanidades.

Independentemente da era que examinemos, essa fusão será fundamental. A próxima fase da Revolução Digital trará uma verdadeira mixagem da tecnologia com indústrias criativas como a mídia, a moda, a música, o entretenimento, a literatura, a filosofia e as artes de modo geral. A educação deverá estar atenta a isso.

Lições aprendidas com Ada Lovelace

São muitas! Destacarei algumas apenas. A primeira é que, de fato, lugar de mulher é onde ela quiser. Ademais, além de conciliar arte e tecnologia, fundamentando sua “ciência poética”, Ada soube trabalhar de maneira colaborativa e muito criativa.

Que tenhamos um mundo no qual não existam mais perfis pessoais como o de Lord Byron, embora isso ninguém pode garantir. Mas ao menos que seu comportamento desrespeitoso seja repudiado e exemplarmente punido, sempre que necessário.

E muitos vivas para a mãe de Ada, que, a duras penas, soube orientar adequadamente a formação e a carreira de sua filha que, sem dúvida, tornou-se uma referência para mulheres de todos os tempos.

Seja programando, desenvolvendo produtos ou inovando em quaisquer setores de atividade, as mulheres sempre estiveram presentes. Nem sempre reconhecidas à sua época, mas sempre serão lembradas. E merecem (muito!) serem homenageadas!

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É professora de Graduação e do Mestrado Profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios. (meboli@usp.br)

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