Máquinas substituem funcionários administrativos qualificados
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Máquinas substituem funcionários administrativos qualificados

REDAÇÃO

11 Julho 2018 | 06h46

Um armazém da Stitch Fix,um serviço de estilo online que envia aos clientes caixas de roupas cujo conteúdo eles podem manter ou devolver, em abril de 2017, que usa inteligência artificial. Christie Hemm Klok/The New York Times

Noam Scheiber / The New York Times

Uma das camisetas mais vendidas para o site de e-commerce indiano Myntra tem um design em blocos de cores verde-oliva, azul e amarelo. Foi concebido não por um humano, mas por um algoritmo de computador – ou melhor, dois algoritmos.

O primeiro algoritmo gerou imagens aleatórias que tentou passar como roupas. O segundo teve que distinguir entre essas imagens e roupas no estoque da Myntra. Através de um longo jogo de aperfeiçoamento, o primeiro algoritmo melhorou ao produzir imagens que se pareciam com roupas, e o segundo melhorou em determinar se eram semelhantes, mas não idênticas, a  produtos existentes.

IA criou desenhos que impulsionam as vendas

Esse vaivém, um exemplo de inteligência artificial no trabalho, criou designs cujas vendas agora estão “crescendo a 100%”, disse Ananth Narayanan, executivo-chefe da empresa. “Está funcionando.”

Reprodução / The New York Times

O design de roupas é apenas a vanguarda da maneira como os algoritmos estão transformando as indústrias de moda e varejo. As empresas agora utilizam rotineiramente a inteligência artificial para decidir quais roupas devem ser armazenadas e o que recomendar aos clientes.

E a moda, que por muito tempo acabou com empregos no setor fabril nos Estados Unidos, é, por sua vez, um exemplo importante de como a inteligência artificial está afetando também uma série de trabalhos no setor administrativo. Isso é especialmente real para trabalhos que se focam em padrões, desde a seleção de estoques até o diagnóstico de câncer.

“Um conjunto muito mais amplo de tarefas será automatizado ou ampliado por máquinas nos próximos anos”, escreveram Erik Brynjolfsson, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Tom Mitchell, cientista da computação Carnegie Mellon, na revista Science no ano passado. Eles argumentaram que a maioria dos empregos afetados se tornaria parcialmente automatizada, em vez de desaparecer por completo.

A indústria da moda ilustra como as máquinas podem interferir até mesmo na atividade de trabalhadores mais conhecidos por sua criatividade do que por julgamentos empíricos frios. Entre os diretamente afetados, estarão os compradores e planejadores de mercadorias que decidirão quais vestidos, tops e calças devem preencher o estoque de suas lojas.

O trabalho do comprador

Uma parte essencial do trabalho de um comprador é antecipar o que os clientes vão querer, usando o bom senso para saber onde estão indo as tendências da moda. “Com base no fato de você ter vendido 500 pares de sapatos de plataforma no mês passado, talvez você possa vender 1.000 no próximo mês”, disse Kristina Shiroka, que passou vários anos como compradora da Outnet, uma varejista on-line. “Mas as pessoas podem ter superado isso, então você corta a compra.”

Os planejadores de mercadorias, em seguida, usam a informação dos compradores para descobrir que tipo de roupa – por exemplo, quantas sandálias, sapatilha e calçados baixos – ajudarão a empresa a atingir suas metas de vendas.

Nos pequenos, mas crescentes recintos da indústria, onde os algoritmos de alta potência perambulam livremente, no entanto, é a máquina – e não o instinto do comprador – que muitas vezes antecipa o que os clientes vão querer.

Armazém da Stitch Fix. Foto: Christie Hemm Klok/The New York Times

Os negócios do Stitch Fix provavelmente não existiriam sem o uso de algoritmos. Entre outras coisas, eles projetam quantos clientes estarão em uma determinada situação, ou “estado”, vários meses adiante no futuro, e que volume de roupas as pessoas compram em cada situação.

Esse é o caso do Stitch Fix, um serviço de estilo online que envia aos clientes caixas de roupas cujo conteúdo eles podem manter ou devolver e mantém perfis detalhados de clientes para personalizar suas remessas.

Algoritmos guiam decisões de compra

O Stitch Fix depende muito de algoritmos para guiar suas decisões de compra – na verdade, seus negócios provavelmente não poderiam existir sem eles. Esses algoritmos projetam quantos clientes estarão em uma determinada situação, ou “estado”, vários meses no futuro (como expandir seu guarda-roupa depois, digamos, iniciar um novo trabalho) e qual volume de roupas as pessoas tendem a comprar em cada situação.  Os algoritmos também sabem quais estilos as pessoas com perfis diferentes tendem a preferir – digamos, uma pequena enfermeira com filhos que vive no Texas.

A Myntra, a varejista indiana online, arma seus compradores com algoritmos que calculam a probabilidade de um item vender bem, com base em como as roupas com atributos semelhantes – mangas, cores, tecido – foram vendidas no passado. (Os compradores são livres para ignorar a projeção.)

Tudo isso turvou o futuro dos compradores e dos planejadores de mercadorias, trabalhadores de alto status cujos ganhos anuais podem superar os US$ 100 mil.

Nos varejistas mais convencionais, uma equipe de compradores e trabalhadores de apoio é designada para cada tipo de roupa (como de designer, contemporânea ou casual) ou para cada categoria de vestuário, como vestidos ou tops. Alguns varejistas têm equipes separadas para tops de malha e tops de tecido. Um grupo paralelo de planejamento de mercadorias poderia empregar quase tantas pessoas.

Nathan Cates (à dir.) , comprador da Bombfell, e Will Noguchi, um estilista.Jeenah Moon/The New York Times

A Bombfell, que é semelhante ao Stitch Fix, mas atende especificamente a homens, depende de um único comprador para seus tops e acessórios. As ferramentas algorítmicas e de dados da empresa ajudam o comprador a projetar demanda de roupas.

Os algoritmos de Bombfell ajudam o comprador Nathan Cates a fazer escolha do que comprar, mas ele é obcecado por tocar o tecido antes de adquirir um item e quase sempre experimenta antes.

A empresa construiu ferramentas algorítmicas e um vasto repositório de dados para ajudar Cates, que disse que poderia projetar com mais precisão a demanda por roupas do que um comprador em uma operação tradicional.

“Nós sabemos exatamente quem são nossos clientes”, disse ele. “Nós sabemos exatamente onde eles moram, quais são seus empregos, qual é o tamanho que usam.”

O Bureau of Labor Statistics espera que os empregos de compradores de atacado e varejo se contraiam em 2% em uma década, contra um aumento de 7% em todas as ocupações. Parte disso se deve à automação de tarefas menos sofisticadas, como catalogação de inventário e a compra de varejistas menos exigentes do ponto de vista estilístico (por exemplo, autopeças). / Tradução de Claudia Bozzo