Mesmo em tempos de pandemia, lazer é fundamental para enriquecer o desempenho no trabalho

Opção para as férias no isolamento social, o cinema nos ajuda a "viajar" e também tem muito a ensinar sobre gestão empresarial e de carreira

Marisa Eboli

19 de janeiro de 2021 | 09h39

É tempo de férias. E aí vem a pergunta: vale a pena tirar férias na pandemia? Sempre vale, mesmo que você adore viajar como eu, faça parte do grupo de risco e não queira se expor além do absolutamente necessário.

São indiscutíveis os benefícios de se ausentar do nosso ambiente de trabalho, ainda que por poucos dias. Mas isso não significa sacrificar sua carreira. Ao contrário, o descanso se reverterá em maior equilíbrio emocional, produtividade e também criatividade.

Como sabemos, as boas empresas querem profissionais com riqueza de experiências, nas mais diversas áreas da vida. Seu repertório deve ser amplo e variado, é esse caldo de cultura que estimula a criatividade.

Lazer é fundamental, não apenas para balancear vida pessoal e profissional, mas para enriquecer o desempenho no trabalho. Não é apenas compensação, mas também grande fonte de aprendizado de novas competências. Em suma, lazer não é antagônico ao trabalho e ao sucesso profissional.

Porém, com o isolamento social, como cultivar o lazer? Cada um é cada um. No meu caso, como desde março fiquei conectada ao Zoom, para as aulas e reuniões, o primeiro passo seria tomar distância dele. Decidi investir mais no lazer “interno”. De fato, voltei-me para o meu mundo interior. Assim como vinha fazendo desde março de 2020, não abri mão das atividades físicas, como caminhar na pracinha perto de casa, treinar com “personal”, ainda que pelo Facetime.

Mas intensifiquei muito as atividades culturais. Muitos filmes, sempre em casa, via streaming. Leituras. Ouvir músicas? Sim, muitas e variadas, no momento com ênfase especial no novo CD de Sir Paul McCartney. Cursos de arte e até reciclagem de inglês, tendo como meu maior estímulo obter maior fluidez nas conversas com minha neta Pietra, que é americana. Admito, muita atividade na tela…Mas agora como aluna. Que delícia!

Leituras? Os contos, de Lygia Fagundes Telles e A regra é não ter regras: a Netflix e a cultura da reinvenção, de Reed Hastings e Erin Meyer. Ah, e dois livrinhos infantis sobre a Amazônia, para eu preparar aulas a distância para minha neta. Já que não posso estar com ela, como em geral acontece nesta época do ano, interagimos papeando sobre assuntos que gosta. E, me preparando, sempre me deparo com algo que não sabia ou que não me recordava. Por exemplo: ariranha é um mamífero.

Cursos livres? Claro. Fiz o curso Henri Matisse online: “Painting with Scissors”, organizado pelo London Drawing Group.

Como sou apaixonada por filmes, cinema ou audiovisual, como queiram, pedi ao professor e amigo Sérgio Rizzo para me indicar uma lista de filmes que deveria ver, sem assuntos ou gêneros específicos, apenas que fossem bons para minha formação e diversão. A grande maioria eu ainda não havia visto. Por minha conta resolvi rever filmes de Clint Eastwood (outra paixão!) e assistir a vários filmes dele que eu não conhecia, fosse atuando como ator ou diretor.

Professor Rizzo e eu temos ministrado cursos de Cine & Gestão. Utilizar audiovisual para ensinar não é novidade. Mas adotá-lo numa abordagem de “metodologias ativas” (sala de aula invertida, pré-aula, método da descoberta etc.) é que tem sido bastante inovador e eficaz. A arte cinematográfica não é apenas um belo entretenimento. Tem muito a nos ensinar, na vida em geral e em especial na gestão empresarial e na gestão de carreira. Destaco sempre que filmes são um recurso didático riquíssimo para estimular reflexões sobre temas atuais e relevantes, de maneira séria, emocionante e ao mesmo tempo leve. Também alavancam capacidade crítica, reflexiva, analítica, estética e até mesmo filosófica. Vale experimentar!

Com relação às viagens, também dediquei um tempo em conhecer vicariamente alguns lugares que pretendo visitar fisicamente, assim que for possível. Não faltam livros, pesquisas e até mesmo filmes. Quer ir para Índia, Japão, Alasca, Paris, Nova York ou Patagônia? Veja quantos filmes de qualidade puder sobre esses países! Esportes? Política? Educação? Música? Obviamente, selecione os temas que te motivam. E por aí vai. Quanta riqueza de conhecimentos e sensações!

Li recentemente neste jornal que há empresas de turismo oferecendo experiências sensoriais sobre países, cidades, além de expedições virtuais. São caixas contendo objetos que aguçam o paladar, o toque e o olfato dos viajantes, remetendo-os a um determinado lugar, e, logicamente, contendo dicas turísticas, gastronômicas e culturais sobre a localidade.

Tradicionalmente, férias para mim significavam me proporcionar uma viagem ao mundo exterior, fosse ir para uma região que propiciasse novas vivências sociais e culturais, mesmo aventuras, já que sou adepta ao ecoturismo, ou mesmo reviver experiências anteriores. Férias sempre foram sinônimo de arrumar mala, mochila e entrar num avião. Desta vez foi muito diferente. Viajei por outras geografias, mas virtualmente e na minha imaginação.

Enfim, se você leitor, como eu, optou por continuar se cuidando, há muita distração e lazer saudável para aproveitarmos as férias, recarregarmos as baterias e evoluirmos. Com certeza, nada substitui os abraços e os beijos presenciais da minha neta. Mas nessa festa silenciosa voltada ao nosso mundo interior, crucial para o autoconhecimento, vamos nos desenvolvendo, consolidando valores, mantendo nossos vínculos, afetos e sonhos em alta. Até que a vacina nos liberte. Viva a ciência!

*É doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em Educação Corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br).

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