Mundo ‘bani’: o que isso tem a ver com sua próxima vaga de trabalho

Mundo ‘bani’: o que isso tem a ver com sua próxima vaga de trabalho

Aprender a lidar com o imprevisível, adaptar-se rapidamente e continuar estudando são estratégias para lidar com as incertezas do mundo bani, que é ansioso e não linear

Tiago Mavichian

03 de novembro de 2021 | 10h10

Não foi por acaso que escolhi o tema mundo bani para este artigo. O termo, que ganhou notoriedade na pandemia, reflete o momento em que vivemos. No inglês, a sigla quer dizer brittle, anxious, nonlinear e incomprehensible; em tradução para o português: frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Mas onde você e a sua futura carreira entram nessa história?

Já dou o spoiler: tem a ver com empregabilidade e o seu lugar no futuro. Quando pergunto aos candidatos a vagas de estágio sobre suas características, o que mais ouço é “sou ansioso”. E isso não é de hoje. Só que a rapidez com que as coisas mudam junto com os sentimentos de insegurança e incerteza provocados pela pandemia tornaram as pessoas ainda mais sensíveis.

O conceito de bani foi criado pelo antropólogo norte-americano Jamais Cascio, em 2018, como uma evolução do termo vuca (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Para ele, essa descrição de mundo já não bastava para sintetizar as dores contemporâneas. Ao meu ver faz todo sentido. Parece até que Cascio previu que o mundo viraria de ponta-cabeça pouco tempo depois, em 2020, com a covid-19.

Lidar com a imprevisibilidade – e estar preparado – faz parte do mundo bani. Foto: Casey Horner/Unsplash

Pode não parecer à primeira vista, mas o mundo bani diz respeito a todos nós. E isso inclui quem está começando a carreira e buscando o primeiro estágio. Compreender os impactos de um mundo do trabalho múltiplo e cada vez mais imprevisível vai ajudar você não só a se destacar num processo seletivo, mas a se preparar para os desafios que virão. A seguir, trago alguns pontos que considero essenciais para que os jovens naveguem pelo mundo bani, crescendo emocional e profissionalmente.

Adaptabilidade intencional

Antigamente, se dizia a expressão “não se mexe em time que está ganhando”. Agora, isso não cabe mais. Pode esquecer. Nosso mundo não para de mudar. Novas necessidades surgem o tempo todo, então é impossível você não mudar também. No contexto em que vivemos, a mudança é uma necessidade, quase que uma regra. Por isso, indico aos que estão entrando no mercado agora que cheguem com gás e disposição para mudar, testar, experimentar.

Com a pandemia, nós entendemos, mais do que em qualquer outro momento, o que é lidar com a imprevisibilidade. Daqui para frente, ter a capacidade de antever mudanças para se adaptar a elas fará com que você tenha vantagens.

Aprendizado contínuo

Aqui, não estou falando do aprendizado longo, do tipo graduação ou mestrado. Me refiro ao lifelong learning, o aprendizado contínuo, como por exemplo se capacitar em uma nova tecnologia, ler um artigo ou um livro, fazer cursos rápidos, participar de um congresso, envolver-se em um fórum de discussão. Isso vai te dar conhecimento e habilidades práticas para que aplique no dia a dia, sem que isso leve muito tempo.

Se um idioma vai ajudar, sugiro ir atrás desse conhecimento. Se determinadas ferramentas relacionadas à área de interesse vão ajudar, busque aprendê-las. A abertura para o aprendizado vai te fortalecer, fazendo com que você se sinta mais confiante e, consequentemente, menos ansioso na execução das tarefas do dia a dia.

Novos modelos de trabalho

A capacidade de ser autodidata e de adquirir habilidades práticas tem ainda outra vantagem. Permite que você aplique seus conhecimentos de maneira ágil. Agilidade, aliás, é um conceito que todo jovem deveria explorar — lembrando que ser ágil é diferente de fazer tudo correndo, pensando apenas em cumprir prazos.

Hoje, muitas empresas já trabalham com metodologias ágeis e squads, equipes multidisciplinares que atuam por entregas com foco em projetos e desafios pontuais. Atuar com pessoas de diferentes áreas, além de potencializar os resultados, é uma maneira inteligente de lidar com a complexidade das demandas atuais.

A faculdade é um bom teste para esse modelo de atuação. Sair da zona de conforto, buscar grupos diversos para seus trabalhos e se desafiar a fazer projetos de jeitos diferentes são atitudes que vão fazer diferença, já que é esse tipo de realidade que você vai encontrar ali na frente no mercado de trabalho. Trabalhar com o mesmo grupo, fazendo as mesmas coisas sempre, aumenta o risco de você não se adaptar a tempo.

Compartilhe a ansiedade

Para finalizar minha reflexão sobre o mundo bani, trago boas notícias. A principal delas tem a ver com saúde mental. Como escrevi lá no começo, eu sei que os jovens estão estressados, ansiosos e pressionados por um mercado de trabalho cada vez mais frenético, exigente e competitivo. Mas, se antes era tabu falar de sentimentos, hoje em dia já não é mais. E você pode compartilhar medos, inseguranças e receios com o gestor direto, o RH da companhia onde trabalha ou mesmo com um professor ou coordenador da faculdade. A preocupação com a saúde mental e o equilíbrio entre vida profissional e pessoal entrou definitivamente no radar das instituições.

Muitas companhias já bloqueiam o sistema às 19h e só liberam às 7h30 do dia seguinte para evitar que as pessoas fiquem conectadas 24h, na ansiedade de resolver tudo. Ao contrário, elas vão esperar. E por que não usar esse tempo para si próprio?

Nesse mundo bani, cada um vai ter que buscar a sua forma de aprender, se desenvolver, crescer e colaborar. E, se eu pudesse dizer algo para amenizar as dores desse processo, é que é impossível saber tudo, acompanhar tudo. Ninguém tem as respostas, nem mesmo os grandes líderes, que em muitos momentos da pandemia vieram a público e admitiram que não sabiam o que fazer. Quando percebemos isso, de verdade, nos acalmamos.

A capacidade de ler cenários, tomar decisões, escolher o que é relevante ou não é o que deve guiar a sua carreira. Comece pensando sobre o que você está consumindo, vendo e lendo para entender o que é importante nesse momento. Isso vai evitar que comece a jornada como alguém “viajandão”, alienado mesmo. Faça essa análise e coloque em prática na próxima entrevista de estágio. O fato de você demonstrar que está por dentro do conceito bani certamente chamará a atenção do recrutador. Afinal, um estudante que reconhece estar vivendo num mundo frágil, ansioso, não linear e incompreensível está um passo à frente em relação a outros candidatos.

Tiago Mavichian é CEO e fundador da Companhia de Estágios, startup de RH especializada em seleção e desenvolvimento de aprendizes, estagiários e trainees. Pós-graduado em gestão de pessoas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui mais de 18 anos de experiência na área de RH.

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