Na economia da covid-19, podemos ter um filho ou um emprego, não os dois
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Na economia da covid-19, podemos ter um filho ou um emprego, não os dois

Pais e mães trabalhadores concordamos que a retomada da economia e das escolas, sem um plano para que eles não colidam, é uma catástrofe, mas estamos exaustos demais para ir além de um gemido

Deb Perelman

07 de julho de 2020 | 10h04

The New York Times

Na semana passada, recebi um e-mail do diretor da escola dos meus filhos, compartilhando alguns dos primeiros detalhes dos planos para a reabertura das escolas de Nova York no segundo semestre. A mensagem explicava que o departamento de ensino da cidade, seguindo os parâmetros federais, exigirá que cada aluno tenha 6 metros quadrados de espaço em sala de aula. Nem todos serão recebidos no edifício ao mesmo tempo. O ponto positivo é que meus filhos poderão frequentar a escola fisicamente durante uma semana a cada período de três semanas.

Ao mesmo tempo, muitos adultos — ao menos os sortudos que retiveram seus empregos — são esperados de volta ao trabalho conforme a economia reabre. Estou confusa ao ver que esses dois planos estão avançando sem nenhuma consideração pelos pais trabalhadores que serão triturados quando ambos colidirem.

Vou colocar em palavras aquilo que ninguém está dizendo: na economia da covid-19, temos que escolher entre ter um filho ou ter um emprego.

Por que ninguém está falando a respeito disso? Por que não estamos ouvindo um grito de desespero ensurdecedor denunciando que nenhuma política pode ser implementada sem resolver os problemas das pessoas soterradas por ela? Por que cabe a mim, blogueira de gastronomia conhecida por sucessos como “Massa de torta muito crocante só com manteiga” e “Bolo ‘quero bolo chocolate’”, soar este alarme?

Deve ser porque você passa o dia organizando as tarefas escolares das crianças em vez de fazer o trabalho que foi contratado para fazer, ao qual só pode dar atenção na madrugada, rotina que vem se repetindo há 106 dias (quem está contando, não é mesmo?), o que pode prejudicar sua capacidade de canalizar a raiva de maneira eficaz.

Faz meses que tenho comentado o assunto — em grupos de mensagens, em grupos secretos do Facebook para mães, em encontros mascarados quando vejo um pai/mãe-colega na rua. Todos perguntamos uns aos outros por que não estamos fazendo mais barulho quanto a isso. Consensualmente, concordamos que se trata de uma catástrofe, mas estamos exaustos demais para ir além de um gemido, que dirá gritar palavras de ordem ao megafone. Cada pessoa que encontro confessa seu esgotamento, desespero, a sensação de estar perdendo o juízo, sabendo em nosso íntimo que a situação é insustentável.

Deveria ser óbvio, mas uma pré-condição inegociável da “volta à normalidade” é o retorno de uma situação de normalidade também para as famílias. Mas, assim que tocamos nesse ponto, o debate logo fica carregado de argumentos tangenciais e irrelevantes que seriam piada até em um debate estudantil.

Ilustração: Taylor Callery/NYT

“Mas não sabemos ainda se é seguro mandar as crianças de volta à escola”; tem toda a razão, mas essa não é a questão central. O triste outro lado dessa moeda — a amiga que me disse que, assim que a escola reabrir, as crianças voltam a frequentá-la independentemente de ser seguro ou não, pois ela não tem como ficar mais tempo sem trabalhar — se aproxima.

“Por que deixar que os professores adoeçam?” Ninguém quer isso, mas é difícil imaginar como um sistema no qual cada criança passará duas de cada três semanas sob os cuidados das mais variadas pessoas para finalmente se reunir em uma sala de aula, aumentando infinitamente as potenciais interações de contágio do vírus, protege os professores melhor do que um grupo consistente de alunos recebidos todos os dias, minimizando suas interações externas.

“Se não pode cuidar de seus filhos, não deveria ser mãe/pai”; Parece algo que um troll da internet diria, mas tenho ouvido isso com tanta frequência que chego a me perguntar se o certo é dar aulas para os filhos à noite. Ou talvez todos devam pagar algum tipo de creche reserva que fica vazia enquanto as crianças estão na escola, só para o caso de as escolas que mantemos com nossos impostos, às quais a lei exige que mandemos nossos filhos, serem fechadas abruptamente pelo resto do ano.

“Por que não está aproveitando o tempo a mais que passa com as crianças?” Eis um comentário que deixa claro o que está fervendo sob a superfície: uma visão retrógrada de acordo com a qual um dos pais (eles querem dizer a mãe) não deveria trabalhar, que isso é ruim para as crianças, que é egoísmo buscar ganhos financeiros (ou pagar os boletos em dia, como lhe dirão os pais e mães que trabalham). É um sentimento tão profundamente enraizado na nossa cultura que, se sugerimos razoavelmente que não deveria ser necessário abandonar a carreira ou o ganha-pão caso os escritórios reabram antes das escolas e creches, isso serve como pretexto para a reafirmação dessa mentalidade.

Não é disso que estamos falando, e vocês não sabem debater.

Soube de pais que têm a sorte de contarem com um avô que pode ajudar, ou com recursos suficientes para uma babá em período integral ou um professor particular para os filhos enquanto as escolas estiverem fechadas. Tudo isso parece invejável, mas seria absurdo permitir que as políticas sejam ditadas por pessoas com esse conforto. Boa sorte para quem tem o privilégio de se ausentar da força de trabalho e escolher fazê-lo. Mas isso não pode ser usado para atacar os outros, pois é muito grande o número de pessoas que foram obrigadas a “se ausentar” esse ano, pessoas que jamais conseguirão se recuperar profissional ou financeiramente.

Fico ofendida com os artigos que tratam o desafio enfrentado neste ano pelos pais e mães trabalhadores como uma preocupação emocional. Não estamos esgotados porque a vida está difícil esse ano. Estamos esgotados pelo atropelo de uma economia que, surpreendentemente, declarou que pais e mães trabalhadores não são essenciais.

Professores em meio período, pais em período integral

A título de contextualização, eis um relato de como os meses mais recentes têm sido para minha família. As primeiras semanas de escolas e escritórios fechados foram muito estressantes. Sou autônoma e já trabalhava de casa, de modo que não houve transição nesse aspecto. Mas tive que usar essa flexibilidade para garantir que o meu marido, que normalmente estaria no escritório, pudesse comparecer às suas reuniões habituais, respondendo e-mails e telefonemas enquanto eu administrava o currículo de ensino à distância dos nossos dois filhos, um no maternal e o outro na quinta série. Para compensar, eu trabalhava até as duas da madrugada.

Três semanas mais tarde, o estresse do nosso desequilíbrio entre as funções do casal evaporou, quando meu marido foi dispensado. Ele assumiu o ensino à distância e basicamente tudo o mais conforme eu me tornei a única fonte de renda do lar, tentando trabalhar o máximo possível. Na semana passada, ele foi finalmente demitido.

Apesar dos problemas financeiros que enfrentamos, seguimos pagando a babá que ajudava a levar as crianças de uma atividade à outra enquanto nós trabalhávamos, mesmo sem ela poder trabalhar desde março. Mesmo que pedíssemos a ajuda dela com o ensino à distância de nossos filhos no segundo semestre, quem faria o mesmo pelos filhos dela? Quando meu marido poderá buscar outro emprego? Como ele pode trabalhar se não temos ninguém para cuidar das crianças?

Estou falando como uma pessoa bastante privilegiada. Até recentemente, éramos um lar com duas rendas e poupança, pagando por mais horas de cuidados com as crianças do que o necessário, para cobrir eventualidades, vivendo em uma das cidades mais caras do planeta. Temos laptops, tablets e wi-fi, e não pensei duas vezes antes de, em pânico, encomendar um monte de lápis, papel, canetinhas e tudo o mais que pudesse ajudar nossos filhos.

Mas, enquanto unidade econômica e social, minha família não pode seguir funcionando eternamente na estrutura prevista pelas autoridades para o segundo semestre. Sob muitos aspectos, a situação que seremos obrigados a enfrentar, com os negócios planejando sua reabertura sem nenhuma consideração pelas repercussões disso para as famílias com crianças em idade escolar, é ainda mais insustentável para os outros.

Na melhor das circunstâncias, o impacto para as crianças ainda será significativo. Os alunos perderão a maior parte do ano letivo com seus pais — seus novos e destreinados professores — incapazes de supervisionar esse aprendizado enquanto participam de reuniões de trabalho no Zoom. Na melhor das hipóteses, as crianças ficam irritadas e agitadas por falta de atividade física, amarradas o dia todo ao ambiente de trabalho dos pais, correndo pela sala sem poder desfrutar do ar fresco. Sem a interação social com outras crianças, elas buscam constantemente a atenção dos pais da pior maneira, aumentando ainda mais o desgaste em casa. E isso na melhor das hipóteses.

As perdas a longo prazo para adultos profissionais serão incalculáveis e também afetarão desproporcionalmente as mães. Aquelas que trabalham em todo o país sentem que estão sendo empurradas para fora do mercado de trabalho ou para empregos de meio período, à medida que suas responsabilidades em casa aumentaram dez vezes.

Mesmo aquelas que encontraram uma solução a curto prazo porque tiveram o luxo de apertar o botão de pausa em seus projetos e carreiras neste período para gerenciar os efeitos da pandemia – baseavam-se na suposição de que setembro traria o retorno à escola e à creche – podem agora não ter escolha a não ser deixar o mercado de trabalho.

Uma amiga acabou de se candidatar a um emprego e me diz que não consegue nem imaginar como seria capaz de fazer isso se seus filhos não estivessem de volta à escola. Há uma ideia de que as pessoas podem deixar as carreiras de lado e depois retomá-las do onde pararam, mesmo sabendo que as mulheres que abandonam o mercado de trabalho para cuidar de crianças geralmente têm dificuldades para voltar a trabalhar.

E, para que você não pense que essa é uma situação de todos versus professores, não consigo imaginar um grupo para o qual essa situação seja mais injusta. Espera-se que os professores ensinem em sala de aula em tempo integral, mas, simultaneamente, gerenciem o aprendizado remoto? Mesmo em tempos não pandêmicos, os professores poderiam lhe dizer como já trabalham horas extras não remuneradas nas noites e fins de semana, apenas planejando e corrigindo. De onde exatamente virão as horas extras? Para professores com seus próprios filhos em idade escolar, a situação não é apenas insustentável; é impossível.

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E ROMINA CÁCIA

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