‘Não esperei investirem em mim, eu investi’

‘Não esperei investirem em mim, eu investi’

Claudio Marques

25 de novembro de 2012 | 08h35

Cláudio Marques

Carlos André, que aos 51 anos é CEO no Brasil da gigante alemã Software AG, conta que sempre geriu a própria carreira. Nunca esperou que investissem nele. Antes, tomava a iniciativa de apostar no seu aprimoramento. Essa postura empreendedora está na base da sua trajetória profissional: seu primeiro emprego foi na própria empresa, criada por ele e mais dois sócios para desenvolver softwares. Mas sentiu que lhe faltava experiência numa grande companhia e abriu mão do seu negócio e foi trabalhar numa indústria. A partir daí, foi crescendo e se qualificando cada vez mais até chegar ao cargo atual. No caminho, passou, entre outras, por Novell, People Soft, Oracle e ATT, até chegar à Software AG. A seguir, trechos da entrevista.

Você já começou na área?
Meu primeiro emprego na área foi abrindo, em 1991, minha empresa de desenvolvimento de software. Eu e dois sócios tínhamos um sistema financeiro e de recursos humanos que desenvolvíamos e vendíamos. Foi uma experiência importantíssima na construção do meu estilo e da minha carreira, porque, quando você começa com o seu próprio negócio, você assume uma responsabilidade e propriedade muito importantes com o que está fazendo.

Quanto tempo durou essa experiência para você?
Foi uma experiência relativamente rápida. Foram mais ou menos três anos, mas era uma época em que quase não havia microcomputador na mesa de ninguém. Tínhamos uma aliança com uma empresa nacional chamada Cobra Tecnologia, que possuía esses micros e nós vendíamos o software e o hardware. Na verdade, na época, o ambiente para se abrir um negócio era inóspito, se comparado com o clima atual. E eu também não tinha experiência de estruturar uma empresa.

Em seguida, você foi trabalhar na indústria?
É. Mas acho que o mais importante é que, depois (da SPA – System Planing Inc.) eu fui para os Estados Unidos fazer um treinamento em áreas muito específicas de TI que eu achava que elas teriam um mercado importante no Brasil. Acho que isso foi uma tônica na maioria dos meus desafios: eu consegui visualizar uma oportunidade ou uma empresa que tinha uma oportunidade importante no mercado, tratá-la como empreendimento, como se fosse minha própria empresa, e alavancar a sua operação para ser bem-sucedida.

Qual era essa área específica de TI? A empresa o enviou para os EUA?
Não, fui por minha conta. Vendi meu computador, meu carro, e decidi investir num curso, lá fora, em duas áreas que eram as promissoras em TI na época: sistema Unix e redes de computador. Fui para a Califórnia fazer esses cursos. E voltei já trabalhando na área de redes de computador, gerenciando uma unidade de negócios de uma das empresas que representava o líder mundial dessa área aqui no Brasil. Quando esse líder mundial veio para o Brasil, me convidou para abrir o escritório dele aqui. E aí eu comecei minha carreira em empresas estrangeiras fazendo esse tipo de atividade: abrindo ou fazendo a estratégia de crescimento de empresas estrangeiras de tecnologia que não estavam crescendo aqui no País.

E a Software AG neste quadro?
Ela se reinventou. É uma empresa que está aqui há mais de duas dezenas de anos, que teve um papel crucial na automatização das principais empresas do País, com alguns produtos dela, e recentemente se reinventou para funcionar também como líder em gerenciamento de processos de negócios.E essa é minha missão, é fazer com que ela seja líder na área.

Defina o seu perfil.
É um perfil de empreendedorismo focado em execução. Tem tudo a ver com o começo da minha carreira (na própria empresa), para falar a verdade. Ele (o perfil) foi polido, foi evoluindo com as experiências que eu tive, e a idade ajuda bastante. Então, o meu estilo é tomar conta da gestão, ser presente, consciente sobre as melhores decisões, ser totalmente ético, trabalhar com uma estratégia para ser bem-sucedido. É ser ativo e alerta sobre o que eu estou fazendo para que seja bem-sucedido. E sempre agindo como se a empresa fosse minha empresa. É o que eu sempre comento aqui: se você tivesse a sua empresa e isso fosse a sua empresa, que decisão você tomaria com o seu dinheiro?

Que tipo de pessoa você não leva para o seu time?
Certamente, aquelas que esperam que eu mande fazer tudo o que eles têm de fazer.

Quais são as qualidades para fazer parte do time?
Valores éticos, empreendedorismo, foco em resultado, em execução, autocrítica constante e nunca estar satisfeito.

Ser empreendedor é importante, então?
Eu acho que se a pessoa puder ter uma experiência em uma empresa própria, excelente. Caso contrário, que ela pense na organização como se fosse dela. Essa capacidade de olhar a empresa onde trabalha como se fosse sua, e medir suas atitudes, seus comportamentos, a performance, como se fosse a sua empresa, faz diferença.

O empreendedor gere a própria carreira?
Eu sempre geri a minha própria carreira. Até porque, na realidade atual, dificilmente uma pessoa começa numa empresa e termina nela. Então, você tem de gerir a sua carreira. E, número um, é geri-la como um ativo seu. Ou seja, entender qual é o próximo passo que você vai dar na sua vida, o que você vai apresentar, o que você fez de concreto, pensar cada passo da sua carreira. E, segundo, tomar ações nesse sentido. Em várias empresas, eu fui para a direção e disse: ‘eu estou interessado em fazer este curso, vou pagar por ele nessas férias, se vocês quiserem subsidiar eu aceito, mas eu vou fazer’. Não esperei a empresa investir em mim, eu investi em mim. Eu fiz curso em Oxford, Columbia e em Harvard baseado nesse processo.

E teve alguma ajuda?
Tive ajuda sempre, mas nunca foi alguém que me impôs ou sugeriu ir para um curso. Foi o contrário, eu sugeri. Essa atenção para a sua carreira, entender o que está faltando e tomar para você a ação sobre a sua carreira é fundamental. É tratar a carreira como uma empresa. Você é o que você faz, a sua reputação, a sua marca, vale ouro, é o que você consegue resolver, como as pessoas conseguem se lembrar de você. Isso é parte de uma estratégia de você ser como uma empresa.

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