Nas carreiras, fim do bônus demográfico terá custo alto
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Nas carreiras, fim do bônus demográfico terá custo alto

Claudio Marques

04 Agosto 2018 | 16h03

Foto: Pixabay

Leonardo Trevisan*

O IBGE nem sempre nos dá boas notícias. Na última semana de julho o instituto avisou que o “bônus demográfico” brasileiro simplesmente acabou, E bem antes que o previsto. Isto significa que terminou o período em que a “estrutura etária” ajudava o crescimento econômico do País.

Segundo o IBGE a população em idade economicamente ativa, dos 15 aos 64 anos, começou já neste ano, 2018, a crescer menos que a população total, o que inclui as crianças com menos de 15 anos e os idosos com mais de 65. Em 2013, o IBGE projetou essa mudança para 2023. Porém, já neste ano o número de pessoas ativas crescerá menos do que a quantidade de pessoas que dependem do trabalho delas. De cada 100 pessoas economicamente ativas já teremos 44 que dependem delas. Motivo: o número de jovens parou de crescer.

Os reflexos desse processo já aparecem também no mercado de trabalho. A principal razão é a velocidade da mudança. O economista Marcelo Nery, da FGV, alertou: “o que a França, por exemplo, levou 120 anos para fazer, o Brasil fará em 30 anos”. O IBGE já sabe, inclusive, onde o quadro será mais complexo. Em dez anos, o Rio Grande do Sul, por exemplo, terá uma proporção maior de idosos do que de crianças. O fenômeno é semelhante em todo o Sul e Sudeste do País.

Este fato já tem perceptível impacto nas projeções de carreira no Brasil, com prolongamento de expectativas na ocupação de postos, em especial os mais promissores. Portanto, parece visível que os processos de sucessão serão mais alongados.

Pesquisa de empresa especializada, a Exec, mostrou que em banco de dados com mais de 10 mil profissionais selecionados para cargos executivos desde 2015, 38% deles tinham mais de 50 anos. Em 2017, o perfil com mais de 60 anos representava 15% nas listas finais de seleção, porcentagem que em 2015 era de 8%. Nas entrevistas de 1.200 executivos com mais de 50 anos desse banco de dados, 75% deles esperavam trabalhar pelo menos mais 10 anos. Convém saber que o Brasil tem hoje 54,2 milhões de pessoas com mais de 50 anos.

Nas mais diferentes realidades, demografia influencia carreiras. Artigo do Financial Times, assinado por Emma Jacobs, mostrou que no Reino Unido o número de pessoas entre 50 e 64 anos que trabalham subiu de 60% em 2000 para 71% neste ano. E dobrou o número de trabalhadores com mais de 65 anos na mesma comparação. Nos EUA, a Agência de Estatísticas do Trabalho prevê que nos próximos 5 anos tanto o grupo entre 65 e 75 anos como os de mais de 75 apresentarão as maiores taxas de crescimento da força de trabalho. Este artigo está em: https://www.ft.com/content/041c69e0-cf82-11e7-9dbb-291a884dd8c6

O fim do bônus demográfico cobrará seu preço nas empresas. Em especial, para os que esperavam processos de sucessão mais acelerados.

*Professor da PUC