O que os filmes do Oscar ensinam sobre carreiras

O que os filmes do Oscar ensinam sobre carreiras

No filme estrelado por Brad Pitt e Leonardo Di Caprio, o contraste do dublê incógnito e feliz com o ator-estrela inseguro é um retrato do que pode significar o sucesso nas carreiras

Marisa Eboli

18 de fevereiro de 2020 | 09h29

Sou apaixonada por cinema! Devo confessar que tenho um sonho, quem sabe possível? Um dia poder assistir no Teatro Dolby, em Los Angeles, a uma sessão de premiação do Oscar. Quem sabe… Mas enquanto meu sonho não se concretiza, acompanho tudo o que antecede à maior festa do cinema. Assim que sai a lista dos filmes indicados, começo meu “dever de casa” e assisto a todos que consigo ter acesso. Vi todos os indicados a melhor filme e a maioria dos indicados nas demais categorias. E como sempre, tampouco perco o curso sobre Oscar, dado pelo professor Sergio Rizzo.

Aliás, importante saber como se dá a votação do maior, mais importante e mais democrático prêmio do cinema mundial. Só para se ter uma ideia, há mais de uma década a realização das cerimônias do Academy Award ocorria no final de fevereiro ou início de março. Neste ano, a 92º cerimônia de entrega aconteceu no início de fevereiro, dia 9.

Todos os demais prêmios que antecedem ao Oscar, e que em certa medida funcionam como um termômetro para o que se verá na festa de premiação do Oscar, tiveram que correr e também anteciparam suas condecorações, pois não teria sentido elas ocorreram depois da honraria principal.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é uma organização profissional norte-americana dedicada ao desenvolvimento da arte e da ciência cinematográfica, fundada em 1927 na Califórnia, Estados Unidos, e é composta por mais de 8.000 membros que decidem quem vai concorrer e quem vai ganhar o Oscar a cada ano.

É dividida em 17 ramos profissionais: atores, designers, diretores, produtores, roteiristas etc. Para se candidatar a fazer parte desse grupo é preciso trabalhar na indústria cinematográfica, ser indicado por dois membros da Academia ou já ter sido indicado ao Oscar e depois ser aprovado pelo board, que divulga periodicamente listas de novos integrantes.

É permitido que filmes exibidos no ano anterior concorram ao prêmio, desde que tenham sido exibidos em Los Angeles por pelo menos sete dias consecutivos, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro. Uma primeira votação ocorre dentro das 17 categorias profissionais, ou seja, diretores indicam os melhores diretores, atores os melhores atores, e assim por diante. É uma votação mais técnica. Daí sai a esperada lista dos indicados ao Oscar, dentro de cada categoria.

Brad Pitt e Leonardo Di Caprio falam sobre o filme ‘Era Uma Vez em… Hollywood’. Foto: Mike Blake/Reuters-2019

Numa segunda fase, todos os profissionais votam em todas as categorias de premiação. Tende a ser uma votação mais pautada pelo gosto pessoal e pelo do público. A votação é auditada pela PricewaterhouseCoopers (PwC).

Costumo dizer que a arte cinematográfica não é apenas um belo entretenimento. Tem muito a nos ensinar, na vida em geral e em especial na gestão empresarial e na gestão de carreira. Os nove filmes indicados que competiram pelo título de Melhor Filme do Oscar 2020 são uma prova inconteste disso. Ficando apenas com o tema carreiras: carreira tradicional, carreira sem fronteiras, carreira portfolio, carreira proteana, carreira caleidoscópio, carreira customizada… Há bons exemplos para tudo.

“Coringa” (Todd Phillips), “Parasita” (Bong Joon Ho) e “O Irlandês” (Martin Scorsese) focam na carreira dos que estão à margem da sociedade e vislumbram caminhos alternativos nada recomendáveis. Remetem à questão: o que buscar na carreira? Felicidade, sentido ou dinheiro? Obediência e fidelidade sem limites ou padrão ético mínimo?

“1917” ilustra com brilhantismo missão e propósito de carreira. “Adoráveis Mulheres” (Greta Gerwig) e “História de um casamento” (Noah Baumbach), além de abordarem aspectos cruciais na carreira das mulheres, geram reflexões sobre a possibilidade de equilibrar vida profissional e vida pessoal. “Ford x Ferrari” (James Mangold) é uma verdadeira aula tanto sobre profissionais no pleno domínio do que fazem quanto profissionais que reposicionam sua carreira. Sem falar de filmes indicados em outras categorias, “Dois Papas” e “Judy”, que exemplificam conceitos como os de: vocação, talento, competências e valores.

Vou me alongar um pouco no filme “Era uma vez… em Hollywood” (dirigido por Quentin Tarantino), declaradamente o meu favorito entre os indicados, mas que acabou levando apenas duas estatuetas: para Brad Pitt, como Melhor Ator Coadjuvante, e o prêmio de Melhor Direção de Arte.

O filme conta com um elenco invejável. Leonardo Di Caprio encarna Rick Dalton, ator de faroestes televisivos e aparenta se divertir muito no personagem do sujeito relativamente bem sucedido, porém inseguro ao extremo, quase infantil por enfrentar certo declínio na carreira. Por outro lado, Pitt encarna Cliff Booth, um dublê decadente, melhor amigo e assistente pessoal de Rick.

Belo confronto entre Rick, quase patético tentando ser amado e reconhecido, e seu stunt-man, que se limita à função de capacho, um casca grossa, meio cafajeste, com gostos e hábitos duvidosos. Sua profissão é das mais penosas, topa o que vier, sem medos, mas com extrema competência e frieza para lidar com situações perigosas.

O primeiro faz tudo que é esperado e cultiva uma imagem pública que julga apropriada para sua persona. Mas é inseguro, bebe demais e acaba sendo afetado pelos bajuladores que ora dizem isso, ora criticam aquilo. Cliff dirige carro, conserta antena no telhado (aliás, que cena…), faz o que precisa ser feito, sem qualquer amargor. É um cara “bem na sua pele”. Não se sente humilhado, não sofre e vive com um grau elevado de autoconfiança e satisfação. Em alguns momentos Rick e Cliff consolam-se, vendo televisão juntos, comendo qualquer junkfood que encontram.

A beleza do filme é o contraste entre o dublê incógnito, bem consigo próprio, feliz e contente com sua profissão, e o ator principal, sempre inseguro, sempre vacilante e infeliz, mesmo quando tenta reposicionar sua carreira e torná-la internacional, sem fronteiras.

Será que tal fato não ocorre com mais frequência do que imaginaríamos: gente bem-sucedida mas infeliz e insegura? Enfim, será que sucesso traz necessariamente tranquilidade, autoconfiança e felicidade?

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios.

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